domingo, 13 de janeiro de 2013

Sonho: Seven Days Part. I



- Acho que a história é mais engraçada do que trágica, mas vou deixar que vocês julguem como quiserem tudo bem? – Meu sorriso é esperançoso, mas vazio. Fico na expectativa da resposta, mas eles só me olham sem dizer nada.
- Quando entrei na faculdade logo fui morar no alojamento fétido de lá, pois a cidade universitária era distante de tudo, acredito que hoje tenha mudado, mas como saber não é? – Continuo na expectativa da resposta, mas não ouço nada. – Eu dividi o alojamento com um estudante de música, Claudio Rangel, ele tinha um ano, de vida, a mais que eu e já estava fazendo o trabalho da monografia, ele era muito louco, mas gostava do que fazia. O outro rapaz com que dividi o alojamento foi o Rubens Silvestre, ele estudava metafísica, algo de louco para mim, ele nunca foi de muitos papos, sempre na sua, com seus livros, papéis e equações, nós que o estragamos. E o outro era eu, Ricardo Gourmet Filho, estudando gastronomia, profissão da família.
Sempre fui muito amigo de Claudio e ele me pediu ajuda para sua monografia. Ele me disse sua tese que era: “Tudo e todos podem fazer música”. Eu o perguntei em que o poderia ajudar e ele me explicou que queria formar uma banda, uma banda com pessoas totalmente inusitadas, pessoas que não tivessem nada a ver com música, que estudavam e trabalhavam com coisas aleatórias. E foi assim que formamos nossa banda.
Contatamos uma estudante de ensino médio, a namoradinha de Claudio, Gabriela Cardoso, ela tocava arpa muito bem, uma riquinha mimada e rebelde, perfeita para uma banda de pop rock, ela entrou de cabeça no nosso projeto. Eu toquei teclado quando criança então foi só reaprender. Claudio tocava tudo, de gaita e sax a violino e guitarra, até banjo cabeludo. – Risadas. – Banjo cabeludo, boas lembranças.
A partir de Gabriela conhecemos outra riquinha da zona Sul, Ana Moura, uma maconheira que não há igual, nunca pensara em estudar, trabalhar ou principalmente em participar de uma banda. Uma filhinha dos magnatas do Presal. Ela aprendeu a tocar violão com o Claudio. Partindo daí fomos para as turmas de Letras da faculdade, lá conhecemos Cristina Barros, uma loirinha, crente que nem mostrava os joelhos, depois da banda até posou pelada e fez filmes de sexo. Ela nos apresentou a sua amiga Silvia Ramos, advogada desempregada, elas dividiam apartamento. Silvia era cabeça aberta e precisava muito de emprego.
Começamos as reuniões para a banda e o nome que saiu foi “Seven days”, por causa dos dias da semana e pelo filme “O chamado”, a ideia era de sete jovens, cada um como um dia da semana e a banda tocar músicas que você tem que ouvir antes de morrer, músicas durante esses sete dias. Mas faltava um, Rubens. Ele hesitou muito e demorou a aceitar, mas acabou cedendo como todos os outros.
A banda estava formada, já tínhamos um nome e decidimos tocar de um tudo, com só uma restrição, música gospel nunca. Mas faltava começar a banda.
Denominamos os integrantes e cada um com um instrumento e todos iriam cantar. Ana virou Aninha da segunda, tocava violão, com seus cabelos ruivos e olhos claros ela fez sucesso. Cristina virou Cris da terça, tocava pandeiro, ela tinha seu cabelo longo e negro, liso de pesado, usava calça jeans de tanto nós insistirmos e sempre uma camiseta com meia manga, sem atrativos. Silvia virou Silvinha da quarta, tocando baixo com seus cabelos encaracolados presos em um coque, uma camiseta cortada mostrando a barriga e uma calça jeans rasgada nos joelhos, bem sexy. Gabriela como Gabi da quinta, a mais inusitada, tocava arpa, ninguém acreditava, mas ela conseguia misturar bem aquele gênero erudito com o pop e o rock, até com axé, ela usava uma saia longa e florida e uma regata preta transparente com um sutiã de renda, com os cabelos longos e soltos, o loiro combinava com a arpa, parecia uma deusa grega. Claudio se tornou o Clau da sexta, tocava guitarra e vestia algo bem clássico como uma camiseta e uma calça jeans, coisas normais. Rubens era o Ru do sábado, tocava bateria com seus cálculos matemáticos e usava uma roupa de nerd. E eu me tornei o Ri do domingo, com uma roupa normal, mas melhor arrumado que os outros.
Cada um tinha um papel a ser encenado, a Aninha da segunda era a trabalhadora, sem muitos atrativos e cansada do fim de semana. Cris da terça era a responsável, ela já estava engajada no serviço e nada a descontraía. Silvinha da quarta era a estressada pelo trabalho, não aguentava mais aquelas pessoas hipócritas e explodira no baixo. Gabi da quinta era a arrependida que pedira o emprego novamente após a explosão no dia anterior. Clau da sexta era o início da farra, seduzia a todas com a guitarra, com seu jeito simples de garoto comum, mas um boêmio. Ru do sábado era o nerd que pirava depois de uma noite bêbado, quebrava tudo na bateria, um rebelde rebelado sem causa e sem calças, às vezes. O Ri do domingo era o santinho da igreja que já estava entrando no clima do início da semana, mas na noite do domingo pira mais um pouco comendo todas as menininhas da cidade e bebia até gasolina para não precisar viver para trabalhar na segunda. Ou seja, segunda uma mulher de ressaca, terça uma compromissada, quarta uma que chuta o balde, quinta uma arrependida, sexta um boêmio, sábado um rebelde e domingo um santinho do pau oco.
E assim começamos nossa banda, tocando em bares e festinhas de pessoas ricas da zona sul. Tocávamos várias coisas, de Cazuza até Naldo.
Nós começamos a fazer sucesso, várias pessoas nos contratavam para tocar em suas festas até que fomos convidados por uma gravadora para gravarmos um cd. Gravamos o nosso primeiro CD chamado “Quatro dias e três noites”, tinha quinze faixas, nenhuma música original, todas MPB, ou pop rock, ou axé, ou arranjos que fizemos.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário