- Acho que a história é mais engraçada do que trágica, mas
vou deixar que vocês julguem como quiserem tudo bem? – Meu sorriso é esperançoso,
mas vazio. Fico na expectativa da resposta, mas eles só me olham sem dizer
nada.
- Quando entrei na faculdade logo fui morar no alojamento fétido
de lá, pois a cidade universitária era distante de tudo, acredito que hoje
tenha mudado, mas como saber não é? – Continuo na expectativa da resposta, mas
não ouço nada. – Eu dividi o alojamento com um estudante de música, Claudio
Rangel, ele tinha um ano, de vida, a mais que eu e já estava fazendo o trabalho
da monografia, ele era muito louco, mas gostava do que fazia. O outro rapaz com
que dividi o alojamento foi o Rubens Silvestre, ele estudava metafísica, algo
de louco para mim, ele nunca foi de muitos papos, sempre na sua, com seus
livros, papéis e equações, nós que o estragamos. E o outro era eu, Ricardo Gourmet
Filho, estudando gastronomia, profissão da família.
Sempre fui muito amigo de Claudio e ele me pediu ajuda para
sua monografia. Ele me disse sua tese que era: “Tudo e todos podem fazer música”.
Eu o perguntei em que o poderia ajudar e ele me explicou que queria formar uma
banda, uma banda com pessoas totalmente inusitadas, pessoas que não tivessem
nada a ver com música, que estudavam e trabalhavam com coisas aleatórias. E foi
assim que formamos nossa banda.
Contatamos uma estudante de ensino médio, a namoradinha de
Claudio, Gabriela Cardoso, ela tocava arpa muito bem, uma riquinha mimada e
rebelde, perfeita para uma banda de pop rock, ela entrou de cabeça no nosso
projeto. Eu toquei teclado quando criança então foi só reaprender. Claudio
tocava tudo, de gaita e sax a violino e guitarra, até banjo cabeludo. –
Risadas. – Banjo cabeludo, boas lembranças.
A partir de Gabriela conhecemos outra riquinha da zona Sul,
Ana Moura, uma maconheira que não há igual, nunca pensara em estudar, trabalhar
ou principalmente em participar de uma banda. Uma filhinha dos magnatas do Presal.
Ela aprendeu a tocar violão com o Claudio. Partindo daí fomos para as turmas de
Letras da faculdade, lá conhecemos Cristina Barros, uma loirinha, crente que
nem mostrava os joelhos, depois da banda até posou pelada e fez filmes de sexo.
Ela nos apresentou a sua amiga Silvia Ramos, advogada desempregada, elas
dividiam apartamento. Silvia era cabeça aberta e precisava muito de emprego.
Começamos as reuniões para a banda e o nome que saiu foi “Seven
days”, por causa dos dias da semana e pelo filme “O chamado”, a ideia era de
sete jovens, cada um como um dia da semana e a banda tocar músicas que você tem
que ouvir antes de morrer, músicas durante esses sete dias. Mas faltava um,
Rubens. Ele hesitou muito e demorou a aceitar, mas acabou cedendo como todos os
outros.
A banda estava formada, já tínhamos um nome e decidimos
tocar de um tudo, com só uma restrição, música gospel nunca. Mas faltava
começar a banda.
Denominamos os integrantes e cada um com um instrumento e
todos iriam cantar. Ana virou Aninha da segunda, tocava violão, com seus
cabelos ruivos e olhos claros ela fez sucesso. Cristina virou Cris da terça,
tocava pandeiro, ela tinha seu cabelo longo e negro, liso de pesado, usava
calça jeans de tanto nós insistirmos e sempre uma camiseta com meia manga, sem
atrativos. Silvia virou Silvinha da quarta, tocando baixo com seus cabelos
encaracolados presos em um coque, uma camiseta cortada mostrando a barriga e
uma calça jeans rasgada nos joelhos, bem sexy. Gabriela como Gabi da quinta, a
mais inusitada, tocava arpa, ninguém acreditava, mas ela conseguia misturar bem
aquele gênero erudito com o pop e o rock, até com axé, ela usava uma saia longa
e florida e uma regata preta transparente com um sutiã de renda, com os cabelos
longos e soltos, o loiro combinava com a arpa, parecia uma deusa grega. Claudio
se tornou o Clau da sexta, tocava guitarra e vestia algo bem clássico como uma
camiseta e uma calça jeans, coisas normais. Rubens era o Ru do sábado, tocava
bateria com seus cálculos matemáticos e usava uma roupa de nerd. E eu me tornei
o Ri do domingo, com uma roupa normal, mas melhor arrumado que os outros.
Cada um tinha um papel a ser encenado, a Aninha da segunda
era a trabalhadora, sem muitos atrativos e cansada do fim de semana. Cris da
terça era a responsável, ela já estava engajada no serviço e nada a
descontraía. Silvinha da quarta era a estressada pelo trabalho, não aguentava
mais aquelas pessoas hipócritas e explodira no baixo. Gabi da quinta era a
arrependida que pedira o emprego novamente após a explosão no dia anterior.
Clau da sexta era o início da farra, seduzia a todas com a guitarra, com seu
jeito simples de garoto comum, mas um boêmio. Ru do sábado era o nerd que
pirava depois de uma noite bêbado, quebrava tudo na bateria, um rebelde
rebelado sem causa e sem calças, às vezes. O Ri do domingo era o santinho da
igreja que já estava entrando no clima do início da semana, mas na noite do
domingo pira mais um pouco comendo todas as menininhas da cidade e bebia até
gasolina para não precisar viver para trabalhar na segunda. Ou seja, segunda
uma mulher de ressaca, terça uma compromissada, quarta uma que chuta o balde,
quinta uma arrependida, sexta um boêmio, sábado um rebelde e domingo um
santinho do pau oco.
E assim começamos nossa banda, tocando em bares e festinhas
de pessoas ricas da zona sul. Tocávamos várias coisas, de Cazuza até Naldo.
Nós começamos a fazer sucesso, várias pessoas nos
contratavam para tocar em suas festas até que fomos convidados por uma gravadora
para gravarmos um cd. Gravamos o nosso primeiro CD chamado “Quatro dias e três
noites”, tinha quinze faixas, nenhuma música original, todas MPB, ou pop rock,
ou axé, ou arranjos que fizemos.
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