Acabo de acordar mais em mais um dia nesse inferno cujo fui
jogado para apodrecer por meu adorável padrasto. Levanto-me para tomar meus
remedinhos matinais e encontro em minha mesinha o meu coquetel, levanto-os em
direção a câmera como quem saúda e tomo-os. Mais tarde abrem a porta da minha
cela para eu ir tomar meu café da manhã.
No refeitório encontro com vários “amigos”, mas eu objetivo
principal é encontrar-me com Jéssica. Combinamos que vamos aguentar isso até o
final só para que quando nós saiamos daqui possamos viver juntos como marido e
mulher normais. Nós já namoramos a algum tempo, mas não podemos demonstrar
nossos sentimentos perto dos enfermeiros se não somos detentos e...
Simplesmente é melhor não os fazer.
Ao me sentar a mesa vazia logo ela vem, com os cabelos
soltos e dourados sacudindo-os ao vento conforme anda. Ela parece ainda estar
um pouco dopada, deve ter tido uma noite difícil. Ao sair da fila da comida ela
se senta comigo, a minha frente, e sorri com todo o corpo. As suas olheiras me
preocupam mas o máximo que posso fazer é passar com os dedos por sobre elas.
Ela fica um pouco sentida e constrangida, mas não fala nada, só tira minha mão
de lá derramando uma lágrima.
- Quando você sai, já sabe? - Ela dá a primeira garfada nas
uvas.
- Sabe que não deve comer uvas verdes primeiro, já lhe
expliquei... – Tento desviar o assunto para que ela não fique mal. Estou com os
cotovelos por sobre a mesa e fico olhando-a.
- Melhor comer se não eles viram aqui e você sabe como eles
são. – Pego uma panqueca com a mão e começo há come-la. Agora ela que para de
comer e fita-me. Isso é comum depois de um certo tempo no manicómio. – E então
por que não quer que eu saiba quando você sai, sei que você está muito melhor e
que a Dr. Silvia quer te dar alta ainda essa semana. Acha que não mereço saber?
- Não, é que... Como você sabe disso? – Ela não fala nada,
só me olha com insolência e pega o bolinho para comer. – Depois de amanhã, pela
manhã sou liberado, como fiz aniversário mês passado eu não preciso de que
ninguém venha me buscar. Mas e você, o que houve que hoje suas olheiras estão
mais profundas?
- tive que passar por um procedimento novo, mas não quero
falar sobre isso... – Com uma mordida no bolinho e uma golada no café ela
desconversa. – Esse negócio é horrível, não sei por que eu ainda teimo em
comer. – Ela deixa o bolinho no canto da bandeja e pega o pão francês com uma
fatia de queijo amarelo.
- O que eles fizeram com você? – Estou um pouco alterado.
- Primeiro, eu quis fazer o procedimento e segundo, eu não
quero falar sobre isso. – ela teima mordendo o pão.
Tomamos o restante do nosso café em silêncio e passamos o
restante do dia ainda em silêncio. Sinceramente isso é o mais próximo de
discussão que podemos ter. Ficamos um olhando para o outro a cada afazer que
começamos. Estou preocupado, ela não parece bem. Mas fazer o que, não posso
fazer nada se não complico minha vida.

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