domingo, 31 de março de 2013

Saudades de Eleonor



Por que quando tudo parece tão certo é que tudo está prestes a se desmoronar sobre nossas cabeças?
Porque quando entramos em um breve momento de êxtase logo vem a onda para nos levar novamente a realidade triste e fria?
Por que você não está aqui para esquentar minhas noites tristes frias e, agora, sem vida...?
A dor da sua partida foi estonteante, foi dilaceradora, foi inenarravelmente devastadora para minha alma. Por que você me abandonou, por que abandonou todo o que construímos juntos? Poderíamos ter um futuro se você não tivesse nos abandonado.
Quando eu vi, ainda ébrio de sono, você saindo pela porta, com as malas, quando eu vi você contra a luz, sua silhueta aparente na luz amarelada do corredor do condomínio escuro por ser 02:30 da manhã. Não dei muita atenção ao fato no início, achei que fosse brincadeira da minha mente, achei que fosse só um sonho. Mas não, você se foi e não me deixou nada, me deixou aqui, só, em um apartamento, apertado, escuro, sem vida, sem dinheiro, sem nada, só com contas atrasadas.
Você nos deixou e o fez na hora certa, estou sem dinheiro até para comer, estou sem grana para poder viver da pior forma possível. Deveria ter que começar a mendigar, mas até para isso sou inútil. Não, não sirvo para mendigar, deixe-me aqui apodrecendo como você já fez antes. Deixe-me aqui morrendo lentamente, vivendo meu luto, passando fome e frio sem ter você, se quer, você tão magrinha, para me aquecer os ossos aparentes em minha pele já desnutrida.
Ninguém vem ver de onde vem esse mau cheiro, ninguém vem ver se estou vivo ou morto, ninguém vem me ver... Deveras não sabia que era inútil a ponto de não conseguir, se quer, amigos de verdade.
Gostaria de poder recomeçar, de poder voltar ao ponto de partida e recomeçar o jogo, recomeçar a vida, mas não dá. Gostaria de ter uma nova chance, mas nem isso dá. Já é tarde, ele veio me buscar, veio com sua toga negra, uma espada prateada afiada na mão esquerda e a direita vazia, esperando para carregar-me. Com ele está Cérberus, o seu cão guardião. Ele parece feliz em me ver, mas não mantemos muito contato, simplesmente ele me pega pela pele que está sobressalente em minha nuca e leva-me arrastando meu corpo sem vida até os portões do submundo.
Finalmente em casa, um lugar estranhamente familiar, quente, fedorento, barulhento, tumultuoso, mas é o meu verdadeiro lar.
Apesar de agora estar em casa com meus verdadeiros pais, nunca vou esquecer os poucos e ótimos momentos que estive com ela. Ela/você, que parecia tanto com mamãe, tanto com Perséfone, minha mãe, mera mortal, mera prisioneira de Ades, mera prisioneira de meu pai, prisioneira de seu amor doentio.
Eleonor, quero novamente sentir o cheiro de seus cabelos negros, quero ver seus olhos castanhos olharem para os meus deixando escapar todos os seus pensamentos sórdidos e mais íntimos, quero novamente poder beijar seus lábios sem temer o futuro, quero tomar seu corpo como meu, como um dia fizemos, quero poder te chamar de minha amada sem te sufocar e assim podermos viver como marido e mulher, subindo um dia, talvez, até ao Olimpo...


terça-feira, 26 de março de 2013

Bom pranto Part. I



Não gosto de te ver chorosa assim, uma mulher tão feliz e determinada na vida como você, não merece ficar tão triste como um ser pútrido como eu.
Nesse domingo eu fiquei muito feliz por você ter vindo me visitar, pena que você estava com tantas lágrimas aos olhos. Mesmo com tanta tristeza e com esse ar fúnebre que está no salão da igreja você e nem ninguém deixou que minha vontade mais súbita fosse esquecida.
Sim, você bailará, dançará meu último baile e festejará com lágrimas ao rosto minha partida.
Por favor, não chore minha bela amiga, não chore, pois isso borra a maquiagem que você fez para se despedir de mim pela última vez.
Apesar de ninguém perceber eu vejo tudo, cada segundo, cada lágrima, cada despedia.
Até sinto meu coração, que não palpita mais, apertar-se em um só nó na garganta.
 Deitei-me a vida sobre esta caixa forrada como meu leito final.
Levaram-me, vestiram-me, cuidaram de mim como quem cuida de um qualquer e trouxeram-me para a igreja.
Fui acompanhado pela minha família até que a treva dissipou-se com os primeiros raios de sol e meus amigos, colegas, conhecidos e familiares mais distantes foram se achegando devagar.
Você veio encolhida sob o braço de Vitor, que a enroscava em um abraço. Você veio chorosa e triste, mesmo assim veio despedir-se pela última vez.
Chorou-me o desterro e o pranto caiu sobre o meu corpo já sem vida. Suas lágrimas quentes já não me trazem nenhuma sensação, pois meus nervos já estão mortos. Meu corpo está aqui testemunhando o pranto de cada um de vocês, mas está deitado sobre a morte, que chora sobre minha alma. Porque eu não sei.
Minha irmã finalmente recompõe-se e alerta sobre minha vontade. Briga as lágrimas dos presentes. Liga o som e prepara Larissa para dançar.
Aqui se encontram todo tipo de artista e sim, é um sarau em minha memória. Meu último sarau.
Primeiro declamam poemas e leem textos de minha autoria. Posteriormente vários atores falam sobre mim e expressam os pêsames e até choram as dores da minha perda.
Cantores cantam diversas músicas de meu melhor gosto, cantam até músicas que ajudei a compor. Cantam poemas que escrevi, ajeitam textos meus e cantam contos e crônicas que escrevi com tamanha atenção. Atenção á mesma que eles reajustaram para cantar em minha memória.
Escritores e compositores declamam obras próprias sobre mim, eu como muso inspirados. Inspirando e fazendo-os espirar. Até hoje.




Bom pranto Part. II - Final



Finalmente a hora mais esperada, você, sem se aquecer, vestida em um belo tutu negro, com o cabelo solto e maquiagem sombria, sapatilhas negras e tristeza ao olhas, com uma dor á alma.
Você começa a dança do jeito que sabe que iria aplaudi-la se pudesse. Começa com paços de ballet clássico, depois solta-se em uma dança mais contemporânea e entrega-se ao seu jeito original como eu adoro ver.
Você se meche e remexe de uma maneira que só você sabe fazer. Outras bailarinas aparecem e lhe acompanham em paços prontos, mas você faz uma dança original, uma dança que expressa seus sentimentos, uma dança que desenha a nossa vida de amizade, uma dança que só eu entenderia você dançar. Uma dança nossa, como amigos. Nosso segredo, nosso código.
Uma chave que só abre meu coração você entregou ao mundo e todos viram a beleza de nossa amizade pura como um sorriso de bebê. Você transpareceu o que nós fomos.
Você chora e acaba ao chão, alguns bailarinos tentam levantar e ao som da ópera e da orquestra você continua a dançar por mim, para que saibam quem fui por você. Pelo molejo de quem nunca tocou-me vulgarmente todos conhecem a parte mais pura de um homem que nunca era visto como puro.
Quem a vê chora e se encanta, você desabrocha uma beleza impar e exala nosso amor uma amizade única. Um amor unanime, um amor que não excluía ninguém, mas que era só nosso.
Ao terminar a dança você faz um passo de que diz como fui morto, mas as asas da minha atual parceira não deixam-me ver. Ela briga comigo e beija-me os lábios. Sua fala é grossa e forte, muito marcante. Minha amada das trevas baila e leva-me á um lugar de uma escuridão densa. Ela expressa palavras em uma língua que nunca ouvi e não sinto mais nada além de um agitar em mim.
Não vejo nada e começo a ouvir claramente o povo cantando pelas ruas de minha cidade natal minha despedida. O caixão está sendo carregado sobre os ombros amigos pela rua até o cemitério.
Começo a sentir os raios de sol a acariciarem meu rosto e alarmo-me quando sinto uma gota gélida a pingar sobre minha bochecha. Limpo com a mão e abro os olhos.
Vocês, amigos meus, vocês me trouxeram a vida.
Sento-me ao caixão e peço que me tirem daqui.
Vamos todos á um salão e bailamos a vida, brindamos a vitória e rimos o desterro vão.
De repente acordo com a luz do banheiro á minha cara. É você querida amiga, está vomitando, provavelmente, as treze doses de tequila que bebeu naquela aposta. Continuo invicto com minhas 26 doses em cinco minutos.
Sorrio vendo a sena e suspiro o pesadelo. Continuo feliz, pois sei que, no sonho, meus amigos, o amor da minha família e sua dança trouxeram-me de volta a vida.
Bons sonho bela bailarina bêbada e bom pranto para mais tarde, pois após a farra de ontem, a ressaca vai ser forte e as dores e o mal estar também.



Essa é ela Part. I


Estou caminhando pela orla de Copacabana e vejo-a passando com esse shortinho jeans e esse biquíni amarelo com as marcas do calçadão em cada seio, com seu headfone ouvindo algo bem animado, pois ela está dançando e desviando de todos que caminham em sentido contrário.
É interessante vê-la passando deixando todos atrás sorrin
do e mais felizes. - O que é isso morena? – Questiono-me.
Com esse seu jeito característico de brasileira, com suas curvas e seu gingado de passista você arrebata corações. Não intendo de onde vem todo seu ânimo em uma manhã tão cinza. Você passa por mim e joga seu cabelo encaracolado, cheirando a pêssego no meu rosto, se quer olha para mim, só dança e desfila.
Agora percebo, ela passa e deixa um rastro de luz, um rastro de calor carioca. - Você é o verão, você é o samba, você é a alegria carioca em uma só mulher. -
Após uns metros de distância de mim ela se vira e jogando seu cabelo de forma celestial, dando um efeito de brilho no ar, olha para mim com lubricidade, sorri com malícia e continua dançando e percorrendo seu caminho, de costas, olhando para mim. Gesticulo com a cabeça para cumprimenta-la de longe, se alarga seu sorriso e segue, de frente, o seu caminho.
Um pouco mais distante que antes ela para em frente um quiosque de água de coco, abraça um rapaz e o beija. Vejo-a cochichar algo para ele e ambos olham para mim parado ao meio da calçada, invisível para todos menos eles.
Fico parado questionando-me a situação por alguns segundos, mas logo dou sequencia ao meu caminho. Troco-me, visto uma sunga e vou até o mar, mergulho, saio, paquero, faço mais algumas coisas e volto ao me quarto de hotel.
Chegando ao meu quarto recebo uma mensagem ao celular que diz: “Vejo você na Nuth Lounge da Barra”. Logo se abre um sorriso no meu rosto, tenho certeza que é aquela morena do calçadão.
Arrumo-me de forma singela, um jeans cinza, camiseta branca, colete cinza claro e tênis branco. Um contraste perfeito para ressaltar minha pele morena e meus olhos castanho escuro.
 Meu jantar chega, como qualquer coisinha do prato com a mão mesmo e desço, pego um taxi e logo estou na boate. Entro sem enfrentar fila.
Ao entrar vou direto ao bar pedir uma caipirinha. Logo a vejo dançando sozinha á pista. Seu bailar é bem ritmado, com jogadas de cabelo e pequenos saltos. Quanto troca a música vou chegando próximo á ela com duas bebidas. Uma para mim e outra para ela.
Ela sorri ao me ver e pega a bebida, ela dá um gole e começa a pular no ritmo da música. Ela joga o cabelo e dança olhando-me de um jeito único, só dela.
Nós conversamos sobre diversas coisas, descubro que seu nome é Larissa e que o nome daquele rapaz com quem ela esteve conversando é Vitor, disse que são namorados e que eles também tem “dons especiais”.  Nós rimos, brincamos, zuamos e tornamos a rir.
De repente ela sorri, para e me abraça. Ela parece um pouco temulenta. Vamos rindo até uma mesa. Logo chega o outro rapaz. Sério.
- Tudo bem amor, esse é Hugo, ele é como nós.
- O que você quer dizer com isso? – Parece um pouco indignado
- Consigo ver coisas que outras pessoas não veem. – Respondo-o.
- Como o que? – Continua sério. (Não sei se ele quer me testar ou só quer saber.)
- Não sei, ás vezes vejo como a pessoa realmente é sem precisar falar com ela, às vezes vejo o futuro, às vezes... Áh sei lá! – Estou um pouco ébrio.
- Você sabe que não gosto de te ver assim, não gosto que beba. – Se dirige a ela. Logo me recomponho e fico sério.
- Ah amor, relaxa e aproveita.
- O que você pode fazer? – Dirijo-me a ele.
- Posso fazer as pessoas sentirem dor se não me controlar.
- Por isso que ele é tão controlador e vive com essa cara de dor. – Além de escarniar do namorado ri na cara dele. Ele enrijece.
Logo, vendo a situação em que nos colocamos Larissa se levanta, pega as mãos do namorado e puxa-o para dançar, ele reluta, diz que não sabe e que não gosta, mas acaba sendo envolvido por ela com esse seu jeito enérgico, explosivo e autentico.
É perceptível até na China que ambos estão se amando, eles explodem em amores.
A dança deles é algo desengonçado, ela cheia de ginga, malícia e desenvoltura e ele todo duro tentando acompanha-la. Ela o olha com maledicência e envolve-o em seus laços de amor, paixão e luxúria. Ela o abraça com sensualidade e o encara olho no olho.
Ele sorri e pergunta “O que foi”. – Estou longe, mas consigo entender tudo. – Eles parecem estar a sós na boate, ninguém os percebe e, de repente, parece que uma clareira se abre e os dois ficam ao meio.
Ela sorri e o beija loucamente como só os dois sabem fazer. Todos no local acabam se beijando, envolvem-se na união deles dois.
Acho que esse é o “dom” de Vitor, ele faz quem está a sua volta sentir o que ele sente. Ele se controla para não afetar de mais os sentimentos dos outros. Mas quem pode se controlar com Larissa? 
Com ela você pode ir de um extremo ao outro em segundos, ela começa fazendo-lhe sorrir e gargalhar com suas brincadeiras e logo ela pode contar-lhe uma história para você debulhar-se em lágrimas. Ela é a perfeição de Vitor e ele é a dela. O controlado e a descontrolada. O discreto e a espalhafatosa. O opaco, impenetrável e a transparente, vulnerável.
Ele é a fortaleza que abriga a rosa bailarina (ela). São os opostos perfeitos, é o casal perfeito, são a laranja completa e todos esses clichês.
Eu saio da boate e mando uma mensagem para ela avisando da situação. Saio sorrindo pela sena que vi.
Volto para meu quarto e vejo o meu jantar no mesmo lugar me esperando. Já está frio. Rejeito-o e peço um lanche no quarto. Como e durmo.

Essa é ela Part.II - Final



No outro dia pela manhã sou acordado por Larissa que corre e se joga á minha cama.
- Como chegou aqui?
- Não me questione e me responda... – Fico olhando-a eufórica e espero com uma cara de paspalho pela pergunta. Ficamos em silêncio por alguns segundos nos olhando

igual a dois dementes.
- E então? – Indago-a irritado.
- Ah é, tinha me esquecido. – E ri de si mesma. (- Só ela mesmo - Penso)- Quer me acompanhar no balé da manhã?
- Hã? Como assim? – Apavorado com tamanha estranheza no convite.
- Sou eu quem trago a suavidade e a beleza da cidade maravilhosa pela manhã com meu bailar.
Digiro a situação, questiono-me um pouco e finalmente respondo. – Por que não?
Ela se levanta sentando sobre uma perna e com a outa para fora da cama. Estende a mão em minha direção e olha-me por cima. Hesito um pouco, olho para sua mão e depois fito seus olhos. É quase como se ela me perguntasse, sem falar nada, se eu estava realmente disposta a ir. Finalmente pego sua mão e somos sofregamente arrebatados até um lugar escuro, não consigo ver dana. De repente abre-se uma luz ao meio da densa escuridão.
Larissa começa a se mexer devagar e começo a perceber que estamos sobre a cabeça do Cristo Redentor. No começo eu fico um pouco assustado com a altura, mas Larissa fala comigo para que eu me acalme e aprecie. É difícil se acalmar á essa altura, mas estou tentando.
Finalmente consigo apreciar a paisagem e sua dança que ainda está no início.
Ela se movimenta com leveza, está levantando-se do chão como quem está acordando. Seus movimentos são leves e envolventes. A cada movimento seu surge um rastro de cor amarela, um perfume emana desse rastro, um perfume único, perfeito, de aroma característico. Algo doce, envolvente, delicado e sedutor.
Ela levanta-se em uma bela pirueta, envolta por sua própria luz amarela, com pequenos focos que cintilam. Ela está usando um leve vestido de seda. É tão belo que parece que o tempo corre diferente enquanto ela está no ar contra a luz do sol que acaricia sua pele morena. Seu cabelo está girando com seu corpo e varre toda a tristeza, sonolência e a insegurança para fora do mundo com seus belos cachos. Seu semblante é limpo e às vezes ela esboça leves sorrisos singelos e delicados.
Ao tocar os pés no chão ela volta a rodar e dançar como uma bailarina. É, verdadeiramente a dança perfeita, delicada e forte ao mesmo tempo, transparente e cheia de cor. É a vida do carioca, é o aroma do mar, é a luz do sol, é o molejo da mulata, é o samba no ar, o cheiro de paixão é a educação da atendente e a desenvoltura do ambulante. Sua dança transcende a normalidade e explicita a vida do Rio.
É como uma fita de cetim multicolorida que se meche ao vento. Muda de cor conforme se movimenta, diz tudo sem emitir uma palavra. É a dança dessa morena carioca que conheço na calçada á orla da praia.
É essa a morena que conheci, alguém forte, guerreira, destemida e vulnerável, alguém apaixonada pelo que faz e por quem a faz ser apaixonada. Essa é a minha Larissinha, minha amiga, minha pequena Notável bailarina dos palcos da vida.
 








Essa é ela!