Chegando em casa vejo que pretinha, minha sobrinha, foi
acertada por algo, não sei se foi um tiro de raspão, ou sei lá. Ela está toda
machucada e cheia de marcas de espancamento, mas recuso-me a acreditar que isso
foi em casa, conheço minha família.
Deixo minhas malas na porta do barraco onde chamamos de casa
e vejo tudo muito escuro e entulhado. É um lugar sujo e vejo uma pessoa jogada
na sala, ela fede e parece ter uma ferida no joelho, ela está segurando uma
garrafa de bebida alcoólica. Vou andando e seguindo o caminho pela casa e vejo
mais algumas pessoas que me são desconhecidas. Vejo Sebastiana com o que parece
ser um “cliente”, a mesa de seu quarto está coberta de drogas ilícitas que ela
não faz questão de cobrir, ela fecha a porta olhando para mim e sorrindo.
Continuo meu caminho procurando algo, quando encontro Marcos que esbarra em mim
e vai para a área fitando-me profundamente. Sigo-o um pouco atrás até lá, mas
em algum momento perco-o de vista.
Chegando a onde deveria ser a área de serviços vejo um lugar
vazio com lonas cobrindo os buracos na parede, vejo um lugar escuro e sujo onde
Marcus está brincando com Iana, sua irmã mais nova, mas ele não tem as pernas e
está sentado em um triciclo infantil velho de ferro, ele fita-me como antes,
mas agora sei que é real.
Começo a pensar que nem tudo o que vejo aqui é real e sim
que algumas coisas que vejo são lembranças conturbadas, desejos íntimos e as
horroridades sim, elas são reais, são o que restou para o desfrute da sobrevivência
de uma família em declínio.
Vou até a porta da área e pela grade da porta vejo o papai
discutir com um homem que aparentemente que pegar pretinha para alguma coisa.
Desespero-me e tranco a porta com urgência, ainda pela grade vejo o homem com
um urso vermelho de pelúcia com um metro, aproximadamente, de altura, papai
toma-lhe o urso e joga-o longe e eles começam a discutir. Sinto que esse homem
é um dos Tirulipa-pegajosos. Apavorado, tiro a chave da porta e jogo-a ao chão
bem longe e corro para pegar pretinha.
Ela está próxima da porta que liga a cozinha com a área,
pego-a no colo e levo-a para o banheiro falando que precisamos ir ao hospital
para cuidar de seus ferimentos. Ela questiona um pouco, mas falo que é o melhor
e não paro de repetir que devemos ir ao hospital. Ponho-a de pé em frente o
banheiro e com pressa e cuidado vou tirando sua roupinha.
- Temos que tomar um banho para irmos ao hospital e cuidarmos desses machucados se não vai ficar pior. – Estou com um misto de pânico e desespero e um cuidado imenso sobre ela não sei o porque, só sinto que ela é muito valiosa para todos nós.
- Temos que tomar um banho para irmos ao hospital e cuidarmos desses machucados se não vai ficar pior. – Estou com um misto de pânico e desespero e um cuidado imenso sobre ela não sei o porque, só sinto que ela é muito valiosa para todos nós.
- Vai doer muito tio Ernesto? – Ela pergunta com um olhar
triste que atravessa minha alma como uma espada sem pudores de dor. Quando ela
me pergunta isso paro imediatamente com meu pavor e o amor e o zelo de pai toma
conta de meu ser. Algumas lágrimas rolam pelo meu rosto e eu não consigo evitar
e nem saber o porquê.
- Sim meu amor, vai doer um pouco sim, mas você precisa ser
forte por que é uma dor boa, ela vai te deixar melhor, vai te deixar curada. –
Sei que ela vai sofrer muito, por isso continuo chorando. Continuo a tirar suas
roupas para pô-la abaixo do chuveiro.
Terminamos o banho e ela está pronta para ir ao hospital,
ela está ao meu colo com um pouco de medo, mas não deixa isso abate-la. Minha
maior preocupação é “Como vamos sair dessa casa vivos se aqui parece um
pesadelo sem fim?”
Agora parece que até eu estou envolvido nesse pesadelo e
terror. Vejo uma imagem minha saindo de algum lugar com malas, eu sorrio para
mim mesmo e desapareço no labirinto da casa. Preocupo-me com as pessoas da
casa, preocupo-me com o homem lá fora, preocupo-me com o caminho, mas
principalmente, preocupo-me em manter Estefani viva no meu colo.

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