domingo, 6 de janeiro de 2013

Sonho: Os sequestradores... Part. IV - Final

 Ficamos alí fazendo a mesma coisa por muito tempo, não temos luz natural então, não temos noção de hora. Já mal tenho cicatrizes profundas das incisões. A navalha no meu braço, em baixo da minha pele, está me incomodando muito e começo a mexer nela. Logo o local começa a doer, uma dor profunda e cortante, sinto que ele está me cortando de dentro para fora. Fico horas mexendo nele até que começa a sair sangue, Isis vê e começa a entrar em pânico e apesar de saber o quanto isso pode ser prejudicial para nosso plano ela não para de ficar apavorada comigo. Mordo o lábio e continuo a me rasgar. Quando começo a sentir gosto de sangue na boca e dor dentro da boca e nos lábios eu paro com tudo. Pego um lençol rasgado, um que parece mais limpinho, enrolo-o em meu braço e bebo água da vasilha que lá há e volto a ficar agachado em meu canto, Isis parece mais calma.
Depois de muito tempo, acordo de um cochilo com um grito de criança, olho a minha volta, mas tudo está normal, com exceção do menino que anda, ele está sentado em uma cadeira apoiando a cabeça na parede. Pareceu um menino, mas com certeza não conheço a voz. Desenrolo meu braço e olho a navalha, a dor amenizou, ainda dói, mas essa é menos intensa que a outra. Olho em volta, todos parecem dormir ou estarem cansados demais para reagir. Hesito um pouco, mas logo começo novamente a mexer na navalha, pego o lençol e mordo enquanto em mutilo. A dor parece pior que antes, o sangue que escorre é quente e não ajuda em nada, só faz escorregar e doer mais onde está machucado. Já dá para ver a lamina, bufo de alívio, mas a dor não da trégua. Enrolo novamente o braço e finjo estar dormindo, mas a dor não me deixa.
Pensamentos mil rodeiam minha cabeça e não me deixam dormir. A dor lateja em meu braço e não consigo pensar em quase nada além de tirar essa merda de mim e de sair daqui com o pessoal. Mas como?
Os outros estão acordando, eles colocam por uma escotilha quatro vasilhas de cachorro com uma espécie de mingau e assustadoramente reconheço a mão que coloca as vasilhas lá, mas não associo a ninguém. Logo penso em Yago, mas não sei o que fazer. Ugo se levanta e pacientemente vai pegar seu dejejum, o outro menino pega, coloca sobre as pernas e fica olhando, mexendo e revirando com a mão, ele passa um pouco sobre a boca, mas não come. Isis pega, ela só estica a mão e já está com a vasilha, ela coloca a gosma branca na boca e cospe do lado faz isso algumas vezes, então encorajo-me e vou cambaleando de dor até lá, pego a última vasilha e mexo, reviro e levo a boca, quando olho para o menino que anda ele faz um sinal com a cabeça, ele diz que não e com os lábios, sem emitir som ele diz que é remédio, ele repete isso algumas vezes, então, eu finjo comer e depois largo de lado.
Um bom tempo depois aproximadamente umas 8 ou até 9 horas depois ouço um grito grave com um som conhecido, Isis olha para mim aflita e eu para ela, ficamos imóveis e esperamos a confirmação. Uma hora depois há outro grito similar. Levanto bruscamente com a vasilha de mingau e jogo-a contra a porta de ferro, começo a gritar e a quebrar tudo, os outros que estão no quarto comigo ficam apavorados, arranco o lenço do braço e coloco na boca, então cai dele uma bonequinha ainda na caixa. Vou andando para traz até encostar na parede e estou forçando a navalha a sair do meu braço. Está doendo muito, uma dor que mal consigo me aguentar de pé e caio de joelhos, cuspo o lençol e começo a gritar, Ugo calmamente vai em direção a bonequinha caída e pega.
- Que bonequinha linda. – Ele fala calmamente olhando para ela. Parece que ele não vê o meu desespero. Dá para ouvir o desespero, também, das  pessoas que estão correndo lá fora. – Você me Deu? – ele olha para mim sorrindo.
- Pode ficar, não vamos precisar dela no inferno... – Grito com ira para esse gordo estúpido. Então ele ainda sorrindo vem em minha direção, arranca com força a navalha de meu braço, coloca-a em minha mão direita e olha profundamente em meus olhos.
- Eu sonhei que um menino estranho faria isso e que era para eu ajuda-lo que ele salvaria a todos nós. Estou com você é só você falar que te ajudo. – Ainda estou abobado com ele ter arrancado a navalha de mim, a dor está tão intensa que não consigo pensar, o sangue que esguichou foi incomensuravelmente assustador.
Uns homens começaram a entrar e vieram em nossa direção, estão andando rápido e furiosos, a mulher esguia, Cíntia, ela está gritando para que eles me detenham.
- Detenha-os Ugo. – Peço e ele logo atende segurando-os em um abraço brutal e jogando-os contra a parede de brinquedos e cortinas de hospital. Levanto Isis com o braço dilacerado. – É AGORA, AGORA, O SINAL... – Grito com ela e logo ela corra comigo, vem mais alguns homens em direção de Ugo e o menino que anda vai ajuda-lo. Vou com a navalha na garganta de Cíntia e corto profundamente com ira. – TO COM A CHAVEM, CORRAM. – Os meninos correm e trancamos os homens lá dentro, correndo e procurando a saída o menino que anda vai em direção estranha e se aprofunda na casa. – AONDE VOCÊ VAI, NÃO É POR AÍ.
- AQUI TEM FECHADURAS ELETRÔNICAS, VOU À SALA DE CONTROLE. – Falo para Ugo ir com ele e logo o gordo corre atrás do amigo. Continuamos correndo e logo vejo todas as portas abrirem, ouço algumas pessoas correrem e vejo em uma janela que é noite. Correndo desorientando vejo Yago bem marcado por experiências cirúrgicas da Cíntia.
- Você sabe de Evelin? – Paramos por alguns segundos. Mas ele diz que não com a cabeça e corre para uma saleta onde estão as crianças. Chegando lá só vejo Ivana com o mesmo vestido de quando desapareceu. Pego Ivana no colo e pergunto por nosso irmão. Ela desse do meu col e vai me puxando para uma sala no fim do corredor.
- ISIS, LEVE AS OUTRAS CRIANÇAS PARA A SAÍDA, NOS VEMOS LÁ. – Grito para ela enquanto corro com Ivana e Yago. Chegando no quarto vejo um monte de meninos apavorados e com muitos ferimentos, Igor está deitado e muito abatido, muito machucado. Pego-o no colo com um misto de lágrimas de ódio nos olhos, Yago pega mais dois e vamos para a saída, um Homem para em frente a porta e eu cravo a navalha em sua barriga abrindo-a de cima a baixo. Corremos com os meninos e conseguimos fugir.
Chegando lá fora vemos o menino que anda nos esperando.
- AGORAAAAA! – E a porta fecha-se atrás de nós.
- Onde está Ugo? – Pergunto ao menino.
- Ele disse que iria se sacrificar por nós e vai explodir o lugar com os “bandidos”. – Não faço mais perguntas e logo saímos correndo em direção a rua. Chegando a rua pedimos a uma senhora para ligar a polícia e algumas viaturas levam todos sãos para minha casa onde minha família em peso está esperando por nós.
- Vó, me desculpe, mas foi...
- Para menino, vai pro banho agora, já sei de tudo, vou levar eles para um banho relaxante e vou cuidar deles, vocês que já são de casa vão para o banho e se arrumar.
Sem hesitar vou para meu quarto e Isis vai para o seu com Yago, enquanto isso vovó está tomando conta deles. Agora despreocupado e mais relaxado, me limpo, como, me visto decentemente, faço um curativo em meus machucados e vou procurar Isis. Encontrando-a com Yago, ambos já limpos e arrumados sentamos um pouco e vamos conversar.
- Yago o que você sabe sobre Evelin? – Pergunto sem pestanejar.
 - Eles disseram que ela dava muito trabalho para eles então eles... – Ele sem pudores começa a falar, mas vê que tudo começa a ficar muito obscuro e para olhando para a mesa. – E mutilaram-na vendendo seus órgãos.
- Então é sério isso? – Isis fala com pavor nos olhos. – Foi Deus, graças a Ele que saímos dessa e nunca mais pretendo entrar numa dessas ouviu mocinhos. – Ela fala com certeza na voz, mas sabemos que falou com um pouco de brincadeira no ar. Sempre fomos assim.
- Então meninos, vocês são os heróis e cadê Evelin? – Meu tio Silvio para na porta da sala de jantar e meche conosco.
- Pois é, ela foi a Mártir. – Yago responde com tristeza. – E onde estão os outros?
- Mamãe está lá em baixo com minha tia cuidando deles e Ivana e Igor já forma para casa de carro, eu os levei. – Ele fica nos encarando e logo vai para o banheiro. Nos entreolhamos e vamos pé por pé ver vovó com os outros sequestrados.
Chegando lá em baixo não vemos nada nos quartos de hospedes, continuamos procurando-os quando ouço uns barulhos vindos de debaixo da casa, no porão. Vamos cuidadosamente sem fazer barulho lá.
- Então esses patifes deixaram quatro meninos mongoloides passar a perna neles e tirar de suas mãos mercadoria de primeira como essa? – Vovó está falando com titia. Olhamos uns para os outros e não acreditamos no que vemos e ouvimos. Elas estão colocando as crianças no porão, um novo cárcere dentro de nossa própria casa e nunca percebemos. Como nunca percebi?
- E agora Vera? Eles vão descobrir, como vamos fazer com esses meninos? – titia fala para vovó.
- Vamos entrar e discutimos isso mais tarde. – Elas caminham para a porta de traz da casa. Vamos cautelosamente atrás delas para o porão. Entramos lá, vemos umas salas bem “organizada”, os novos cativeiros. Os cativeiros são feitos com espelho falso, no nosso lado dá para ver o que se passa do lado de dentro, dentro é uma sala de criança normal, parece uma nova casa, é até direitinho, mas sabemos bem o que é...
Olhamo-nos uns para os outros indignados.
- E agora, por essa ninguém esperava não é? – Isis fala olhando para mim e Yago, mas Yago não está tão surpreso. –Desembucha Yago...
- Eu ouvi alguma coisa em relação a isso, mas não tinha certeza, por isso não falei nada. Mas e agora? – Ele fala olhando-nos. Saindo de lá nos deparamos com nosso Tio Silvio que me pega pelo braço.
- Acho que vocês sabem de mais não? – Ele fala sério olhando-nos fazendo com que todos voltem sua atenção para nós pela janela de casa. Olhamos uns para os outros sem reação.
E agora, foi tudo em vão, como faremos agora e o mais importante, o que faremos agora?



The End?

Nenhum comentário:

Postar um comentário