Depois de muito tempo, acordo de um cochilo com um grito de
criança, olho a minha volta, mas tudo está normal, com exceção do menino que
anda, ele está sentado em uma cadeira apoiando a cabeça na parede. Pareceu um
menino, mas com certeza não conheço a voz. Desenrolo meu braço e olho a
navalha, a dor amenizou, ainda dói, mas essa é menos intensa que a outra. Olho
em volta, todos parecem dormir ou estarem cansados demais para reagir. Hesito
um pouco, mas logo começo novamente a mexer na navalha, pego o lençol e mordo
enquanto em mutilo. A dor parece pior que antes, o sangue que escorre é quente
e não ajuda em nada, só faz escorregar e doer mais onde está machucado. Já dá
para ver a lamina, bufo de alívio, mas a dor não da trégua. Enrolo novamente o
braço e finjo estar dormindo, mas a dor não me deixa.
Pensamentos mil rodeiam minha cabeça e não me deixam dormir.
A dor lateja em meu braço e não consigo pensar em quase nada além de tirar essa
merda de mim e de sair daqui com o pessoal. Mas como?
Os outros estão acordando, eles colocam por uma escotilha
quatro vasilhas de cachorro com uma espécie de mingau e assustadoramente
reconheço a mão que coloca as vasilhas lá, mas não associo a ninguém. Logo
penso em Yago, mas não sei o que fazer. Ugo se levanta e pacientemente vai
pegar seu dejejum, o outro menino pega, coloca sobre as pernas e fica olhando,
mexendo e revirando com a mão, ele passa um pouco sobre a boca, mas não come.
Isis pega, ela só estica a mão e já está com a vasilha, ela coloca a gosma
branca na boca e cospe do lado faz isso algumas vezes, então encorajo-me e vou
cambaleando de dor até lá, pego a última vasilha e mexo, reviro e levo a boca,
quando olho para o menino que anda ele faz um sinal com a cabeça, ele diz que
não e com os lábios, sem emitir som ele diz que é remédio, ele repete isso
algumas vezes, então, eu finjo comer e depois largo de lado.
Um bom tempo depois aproximadamente umas 8 ou até 9 horas
depois ouço um grito grave com um som conhecido, Isis olha para mim aflita e eu
para ela, ficamos imóveis e esperamos a confirmação. Uma hora depois há outro
grito similar. Levanto bruscamente com a vasilha de mingau e jogo-a contra a
porta de ferro, começo a gritar e a quebrar tudo, os outros que estão no quarto
comigo ficam apavorados, arranco o lenço do braço e coloco na boca, então cai
dele uma bonequinha ainda na caixa. Vou andando para traz até encostar na
parede e estou forçando a navalha a sair do meu braço. Está doendo muito, uma
dor que mal consigo me aguentar de pé e caio de joelhos, cuspo o lençol e
começo a gritar, Ugo calmamente vai em direção a bonequinha caída e pega.
- Que bonequinha linda. – Ele fala calmamente olhando para
ela. Parece que ele não vê o meu desespero. Dá para ouvir o desespero, também,
das pessoas que estão correndo lá fora.
– Você me Deu? – ele olha para mim sorrindo.
- Pode ficar, não vamos precisar dela no inferno... – Grito
com ira para esse gordo estúpido. Então ele ainda sorrindo vem em minha
direção, arranca com força a navalha de meu braço, coloca-a em minha mão
direita e olha profundamente em meus olhos.
- Eu sonhei que um menino estranho faria isso e que era para
eu ajuda-lo que ele salvaria a todos nós. Estou com você é só você falar que te
ajudo. – Ainda estou abobado com ele ter arrancado a navalha de mim, a dor está
tão intensa que não consigo pensar, o sangue que esguichou foi
incomensuravelmente assustador.
Uns homens começaram a entrar e vieram em nossa direção,
estão andando rápido e furiosos, a mulher esguia, Cíntia, ela está gritando para
que eles me detenham.
- Detenha-os Ugo. – Peço e ele logo atende segurando-os em
um abraço brutal e jogando-os contra a parede de brinquedos e cortinas de
hospital. Levanto Isis com o braço dilacerado. – É AGORA, AGORA, O SINAL... –
Grito com ela e logo ela corra comigo, vem mais alguns homens em direção de Ugo
e o menino que anda vai ajuda-lo. Vou com a navalha na garganta de Cíntia e
corto profundamente com ira. – TO COM A CHAVEM, CORRAM. – Os meninos correm e
trancamos os homens lá dentro, correndo e procurando a saída o menino que anda
vai em direção estranha e se aprofunda na casa. – AONDE VOCÊ VAI, NÃO É POR AÍ.
- AQUI TEM FECHADURAS ELETRÔNICAS, VOU À SALA DE CONTROLE. –
Falo para Ugo ir com ele e logo o gordo corre atrás do amigo. Continuamos correndo
e logo vejo todas as portas abrirem, ouço algumas pessoas correrem e vejo em
uma janela que é noite. Correndo desorientando vejo Yago bem marcado por
experiências cirúrgicas da Cíntia.
- Você sabe de Evelin? – Paramos por alguns segundos. Mas
ele diz que não com a cabeça e corre para uma saleta onde estão as crianças.
Chegando lá só vejo Ivana com o mesmo vestido de quando desapareceu. Pego Ivana
no colo e pergunto por nosso irmão. Ela desse do meu col e vai me puxando para
uma sala no fim do corredor.
- ISIS, LEVE AS OUTRAS CRIANÇAS PARA A SAÍDA, NOS VEMOS LÁ.
– Grito para ela enquanto corro com Ivana e Yago. Chegando no quarto vejo um
monte de meninos apavorados e com muitos ferimentos, Igor está deitado e muito
abatido, muito machucado. Pego-o no colo com um misto de lágrimas de ódio nos
olhos, Yago pega mais dois e vamos para a saída, um Homem para em frente a
porta e eu cravo a navalha em sua barriga abrindo-a de cima a baixo. Corremos
com os meninos e conseguimos fugir.
Chegando lá fora vemos o menino que anda nos esperando.
- AGORAAAAA! – E a porta fecha-se atrás de nós.
- Onde está Ugo? – Pergunto ao menino.
- Ele disse que iria se sacrificar por nós e vai explodir o
lugar com os “bandidos”. – Não faço mais perguntas e logo saímos correndo em
direção a rua. Chegando a rua pedimos a uma senhora para ligar a polícia e
algumas viaturas levam todos sãos para minha casa onde minha família em peso
está esperando por nós.
- Vó, me desculpe, mas foi...
- Para menino, vai pro banho agora, já sei de tudo, vou
levar eles para um banho relaxante e vou cuidar deles, vocês que já são de casa
vão para o banho e se arrumar.
Sem hesitar vou para meu quarto e Isis vai para o seu com
Yago, enquanto isso vovó está tomando conta deles. Agora despreocupado e mais
relaxado, me limpo, como, me visto decentemente, faço um curativo em meus
machucados e vou procurar Isis. Encontrando-a com Yago, ambos já limpos e
arrumados sentamos um pouco e vamos conversar.
- Yago o que você sabe sobre Evelin? – Pergunto sem
pestanejar.
- Eles disseram que
ela dava muito trabalho para eles então eles... – Ele sem pudores começa a
falar, mas vê que tudo começa a ficar muito obscuro e para olhando para a mesa.
– E mutilaram-na vendendo seus órgãos.
- Então é sério isso? – Isis fala com pavor nos olhos. – Foi
Deus, graças a Ele que saímos dessa e nunca mais pretendo entrar numa dessas
ouviu mocinhos. – Ela fala com certeza na voz, mas sabemos que falou com um
pouco de brincadeira no ar. Sempre fomos assim.
- Então meninos, vocês são os heróis e cadê Evelin? – Meu
tio Silvio para na porta da sala de jantar e meche conosco.
- Pois é, ela foi a Mártir. – Yago responde com tristeza. –
E onde estão os outros?
- Mamãe está lá em baixo com minha tia cuidando deles e
Ivana e Igor já forma para casa de carro, eu os levei. – Ele fica nos encarando
e logo vai para o banheiro. Nos entreolhamos e vamos pé por pé ver vovó com os
outros sequestrados.
Chegando lá em baixo não vemos nada nos quartos de hospedes,
continuamos procurando-os quando ouço uns barulhos vindos de debaixo da casa,
no porão. Vamos cuidadosamente sem fazer barulho lá.
- Então esses patifes deixaram quatro meninos mongoloides
passar a perna neles e tirar de suas mãos mercadoria de primeira como essa? –
Vovó está falando com titia. Olhamos uns para os outros e não acreditamos no
que vemos e ouvimos. Elas estão colocando as crianças no porão, um novo cárcere
dentro de nossa própria casa e nunca percebemos. Como nunca percebi?
- E agora Vera? Eles vão descobrir, como vamos fazer com
esses meninos? – titia fala para vovó.
- Vamos entrar e discutimos isso mais tarde. – Elas caminham
para a porta de traz da casa. Vamos cautelosamente atrás delas para o porão.
Entramos lá, vemos umas salas bem “organizada”, os novos cativeiros. Os
cativeiros são feitos com espelho falso, no nosso lado dá para ver o que se
passa do lado de dentro, dentro é uma sala de criança normal, parece uma nova
casa, é até direitinho, mas sabemos bem o que é...
Olhamo-nos uns para os outros indignados.
- E agora, por essa ninguém esperava não é? – Isis fala
olhando para mim e Yago, mas Yago não está tão surpreso. –Desembucha Yago...
- Eu ouvi alguma coisa em relação a isso, mas não tinha
certeza, por isso não falei nada. Mas e agora? – Ele fala olhando-nos. Saindo
de lá nos deparamos com nosso Tio Silvio que me pega pelo braço.
- Acho que vocês sabem de mais não? – Ele fala sério
olhando-nos fazendo com que todos voltem sua atenção para nós pela janela de
casa. Olhamos uns para os outros sem reação.
E agora, foi tudo em vão, como faremos agora e o mais
importante, o que faremos agora?
The End?
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