Um tanto desolado, sem norte e sem eixo caminho pela
casa vazia, procurando por algo ou alguém, mesmo sabendo que estou sozinho.
Como tudo parece estranho, claro e solitário, cada
cômodo cada fresta cada lugar.
Vejo os cômodos vazios e me abraço esperando pelo
seu abraço. Abraçado a mim mesmo vou até a varanda e sento-me ao banco e olho o
cata-vento de sua filha girando e girando ao vento. Uma peça rara e linda,
singular como o nosso amor. Ele tem partes brilhantes e que refletem os raios
de sol fazendo feixes de luz colorida.
Conforme ele gira o reflexo do sol vai batendo ao
meu rosto e isso me faz fechar os olhos e me lembrar de como foi conhecer você.
É como se o tempo voltasse e cada móvel girasse para
seu respectivo lugar e saíssem novamente. Nós subimos as escadas rindo e brincando,
abraçados e radiantes. Nossa primeira casa. Nosso cantinho. – Sorrio sozinho.
Seus olhos naquele dia estavam ainda mais azuis do
que eu me lembrava. Um azul profundo, quase violeta. Com esse olhar você me
abraçou, me envolveu, me encorajou e me deu força para te amar cada instante
mais.
Cada pincelada às paredes, cada guerrinha de tinta,
cada beijo sujo, molhados, suados, cálidos beijos e fortes abraços. Cada transa
sobre os jornais que pusemos para não sujar o assoalho. – Sorrio de olhos
fechados. – Como essas memórias me fazem apertar o coração.
Moramos por alguns meses somente com um colchão, um
fogão, uma geladeira e alguns eletroeletrônicos indispensáveis. Tirando as
coisas básicas para sobrevivência. Mas o mais essencial e mais divertido era o
nosso amor que preenchia toda a casa e nos deixava satisfeitos até na dor. Simplesmente
por nos amarmos incondicionalmente.
Você foi, sim, meu arco-íris no momento chuvoso,
você foi minha luz no fim do túnel, você foi o alívio quando a dor parecia não
cessar.
Quando nossos móveis chegaram você nós os arrumamos
e organizamos nossas coisas em seus respectivos lugares. Levamos três dias para
arrumarmos e rearrumarmos tudo. Toda hora parávamos, cansados, bebíamos algo
gelado, refrescávamos, nos beijávamos com aquele hálito gelado e nos amávamos em
cima do que estivéssemos empurrando.
Eu adorava curtir cada segundo ao seu lado, cada
toque da sua pele na minha, cada vez que você exalava aquele aroma doce de
limonada suíça que só encontrei em você. Cada beijo, cada vez que sua língua acariciava
a minha. No intervalo entre um beijo e outro minha boca já sentia sua falta.
Sentir com minhas mãos o desenho perfeito de seu corpo escultural. Ver meu
reflexo radiante aos seu olhos azuis como o oceano. Ver seu sorriso retribuindo
o meu. Ver seu olhar sério, ao amanhecer, admirando-me, as vezes com um sorriso
leve aos lábios e um beijo matinal. – Respiro fundo.
Ainda sentado ao banco de olhos fechados me levanto
sem sair do lugar e caminho pela casa vendo cada cena de nossa vida juntos.
Passo pela sala e vejo-nos transando loucamente ao canto, derrubando nossas
fotos, logo pego a foto caída e vejo-nos brigando, gritando e xingando-nos,
olho para outro canto e vejo-nos abraçados pedindo desculpas. Caminho e
vejo-nos discutindo e nos beijando ao corredor, passo pelo quarto e vejo-nos em
diversas cenas, à cama, dormindo, nos beijando, quebrando tudo, brigando,
gritando, cantando pintando. À cozinha cantando. Ao banheiro tomando banho. À área
lavando roupa e brincando de guerrinha de toalha molhada. À copa almoçando. E
volto para a varanda onde vejo-nos sentados olhando um para o outro, em
silêncio, numa harmonia perfeita. Nos amando.
Vejo você indo com sua filha pela porta, com uma
mala caramelo à mão esquerda e segurando-a pela mão com a outra. Você olha para
mim por sobre os ombros e eu despeço-me com um simples aceno com uma mão e abraçando
meu tronco com a outra.
- Eu te amo! – Suspiro, inaudivelmente. E você me
responde com um olhar desconcertado.
- Bruno. – Você me toca ao ombro e eu abro os olhos.
Você está com um olhar atento aos meus. Estamos à varanda e eu ainda estou sentado
ao banco. – Está tudo bem? – Sorrio.
- Melhor impossível. – Sorrio largamente, levanto-me
e beijo-o como nunca. Kimberli faz som de nojo. E acabamos indo olhando para
ela.
- Vamos então? – Fala animado. Pega a mão dela e
desce as escadas. – E você, não vai? – Brinca olhando para mim.
- Precisava me despedir. – Sorrio caminhando em
direção ao portãozinho da frente. E antes de sair pego o cata-vento que girava
com fervor e iluminava a todos os continentes com os raios do sol, guiado pelo
vento de nosso amor.