quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

sem título

Um toque na seda da pele morena, um suave vinho tinto, um beijo molhado de amor, um perfume no ar...
O arrepio começa a subir-me pelos pés e o suor frio desce-me a espinha.
Como numa dança indomada e sem fim sinto-me conduzido por vocês.
Ébrio com meu próprio destino, tonto pelo sono embalado que envolve-me sem perdão.
Nu, apenas vestido com as belezas do cosmos, danço.
Danço para o mundo, danço para meu público, danço de olhos fechados, de máscara e exalando um perfume que não é meu.
Pela primeira vez minha pele foi marcada por um beijo sem amor.
Pela primeira vez minha pele foi marcada por um toque sem paixão.
Com a pele manchada pelo meu pecado.
Com a pele manchada pela minha própria maldição.
Não consigo tirar minhas máscaras, não consigo voltar para mim.
Então bebo meu fim, findo minha bebida.
Olho ao relógio apreensivo vendo o esguio ponteiro vermelho a girar e girar e girar e girar.
A noite cada vez fica mais escura e finalmente o breu toma conta da minha visão.
Sinto a vida se esvaindo.
Já não há mais tempo de perdão.
Peço à Deus piedade e clamo ajuda pela dor ao coração.
Mas os goles já foram dados, a bebida foi findada.
Logo a vida já terá sido ceifada e o copo quebrado ao chão será, por fim, meu último amigo, companheiro, consolo.
Sem vida deixo-o ao meu lado, em pedaços, como meu coração, pobre, infeliz, obscuro, sem vida.
Agora já não bate mais.
Voltei!
Voltei para onde jamais deveria ter saído.
Voltei para onde jamais deixei de estar!

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

De sonho à sonho um sonho acontece

Tive você em minhas mãos, mas você não gostou do conforto que lhe dei. Tive você como meu raio de sol, mas hoje você está tão distante que mau aparece a noite para me dizer um breve adeus.
A vi a muito saltitando e rindo, falando às escondidas com os amigos com um olhar curioso que nos vasculhava e investigava à distancia. Você sorriu e eu retribui e buscando novas experiências resolvi sair de quem eu sou para tentar te alcançar e assim você se permitiu fazer, se permitiu ser alcançada e sorriu um sorriso branco e resplandecente, estonteante perfeição, hálito fresco de menta, inebriante sorriso.
Com trejeitos alegres conquistou a todos e envolveu-nos em seu mundo paralelo, um mundo que fazia com que acreditassem que era real, mesmo sem querer. Com um gostos marcantes e incomuns você se deixou aproximar e se fez envolver sem querer se comprometer. – Pena que não percebi que você não queria se comprometer.
Os dias, poucos dias, se passaram e seus saltos foram ficando menores e você começou a dar os primeiros sinais de sufocamento, sua seriedade estranha começou a surgir. Seus sorrisos foram desaparecendo com o tempo e até o jeitinho diferente que antes era fofo foi desaparecendo na indiferença e na aspereza de um tratamento para com uma pessoa que você não quer ver.
Envolta em linguetas de fogo você se consumiu e desapareceu. Seu silêncio foi cortando nossa relação de uma imatura e doce amizade que estava sendo tecida como uma faca perfura o tecido do miocárdio de um inocente na calada da noite, nos mistérios da escuridão e por engano é morto mais uma pessoa que só queria-lhe o bem. Sem saber o que fazer, silenciei-me, recolhi-me e resolvi fazer de meu pranto minha oração, no silêncio, no escuro da noite, no meu íntimo, peço pelo seu bem!
Ainda guardo muito sobre ela, mas já não sei se seria a mesma coisa. Gosto de me lembrar da intensidade do sentimento que tive por ela. Gosto de me lembrar de seu jeito extrovertido, de seu jeito alegre, de seu jeito singularmente peculiar. Gosto de me lembrar de sua filosofia, de suas músicas, de sua arte. Gosto de me lembrar do quanto entristeci-me por não pedir para ver você sendo engolida pelas linguetas de fogo de seu belo vestido vermelho rodado.
Sim, jovem menina dos cabelos negros, sou eu. Sim, jovem menina dos cabelos negros, é você. Sim, jovem menina dos cabelos negros, somos nós. Nossa amizade tão púeri, tão singela, tão doce, tão imatura, tão pequena, tão intensa, ao menos para mim.
Não tem problemas, jovem menina, um dia eu voarei por aí, de sonho a sonho, até achar o meu e quando assim eu encontrar e pousar, quando eu calcar os pés em meu mundo e conseguir subir ao topo da montanha dos vitoriosos eu irei gritar ao mundo em voz tênue os nomes e os feitos de todos que me ajudaram a chegar lá e assim não esquecerei de você. Pois você, jovem menina dos cabelos negros, sorriso radiante e vestido de fogo, você, com todos seus defeitos e qualidades, você me ajudou, sem querer, a me encontrar em um momento que pensei jamais sair.










  Em seus singelos toques de piano, com sua orquestra suave às costas você abre o palco, com a luz dos holofotes ao seu rosto, você treme, sua carne trepida sob sua pele, seus olhos brilham de medo e seu rosto fica paralisado de estatelamento. Você não sabe o que fazer, até que seu príncipe encantado, roqueiro dos anos 70, te salva. Eu venho perguntar o que houve e ordeno que volte ao palco. E ao decorrer da discussão entre eu e o roqueiro dos anos 70 você escapa por entre nossos dedos e proferindo notas suaves como o canto das sereias, você toca as almas expectadoras. Você as ajuda com palavras pobres, porém cheias de significado, filosofia, amor e sangue daquela que lutou para estar onde está.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Vida de peixe Part. I



Acordo ao meio da madrugada, no silêncio da escuridão profunda. Sem acender nenhuma lâmpada caminho pelos corredores da casa e somente vestindo um roupão saio de chinelos pela rua. Caminho sem rumo em busca ou em fuga.
A confusão me consome, a dor ainda mais. Muito mal consigo respirar. Não consigo trabalhar, não consigo estudar, não reter a comida ou líquido algum. Não consigo viver.
Meus passos são calmos, apesar de minh’alma gritar e se agitar dentro de mim como um revolto preso. Caminho pelos paralelos tortuosos das estradas banhadas de sangue inocente pela história.
Paro em frente o rio, ao meio duma ponte cor de rosa. O rio flui com tranquilidade. Os peixes cintilam e nadam em paz. O brilho desses peixes iluminam o fundo do rio, cada pedra, cada acidente, cada tronco.
Subo sobre o corrimão da ponte. Respiro fundo. Fecho os olhos. Sinto a brisa envolver-me enquanto abro os braços para abraçar meu destino. Sinto-me ser pintado de pálido, de dor, de morte. O vento uiva a morte que vim buscar.
- Se eu fosse você não faria isso! – Olho imediatamente em direção à voz rouca e vejo um homem misterioso acendendo um cigarro escorado ao outro corrimão da ponte cor de rosa.
Deixo uma lágrima cair na calmaria fúnebre e respirando fundo fecho novamente os olhos e ignoro o concelho. Inebriado com meu próprio pânico começo a bambear para os lados, para frente e para trás. Quase caindo.
- Ainda acho besteira o que você está fazendo! – Com ar de insolência exprime ele, agora ao meu lado. Eu me assusto e pulo ereto ao meio fio.
- O senhor pode me deixar me matar em paz? – Com arrogância.
- Convenhamos amigo, se você quisesse se matar mesmo você já teria feito! – Ele tem razão. – E pensando bem, há algum jeito mais patético que se jogar de uma ponte como essas? – Ironiza.
Reflexivo desço do corrimão e sento-me olhando para o horizonte negro a minha frente.
- O que devo fazer então? – Sem se quer me olhar ele caminha em direção a um pequeno declínio na costa do rio. – Onde você está indo? – Grito. E sem sucesso ou se quer um olhar de troca ele continua seu caminho. Sigo-o.


Vida de peixe Pert. II



Ele senta-se há uma pedra bem a beira do rio e sento-me ao lado dele, em silêncio, observando-o observar a água e os peixes. Sem entender muito bem mantenho-me me silêncio por alguns minutos e olho o brilho estranho dos peixes.
- Mas que mer...
- Você não se pergunta de onde vem esse brilho extraordinário dos peixes deste rio? – Sem entender muito bem a pergunta não respondo-o, somente torno a fitar os peixes e não vejo a fonte da luz, somente percebo que eles são transparentes e que consigo ver com perfeição seus órgãos se movimentando.
- São suas almas? – Pergunto insanamente como em um impulso.
- Já se perguntou o porque deste rio. Por que este? Dentre tantos na cidade, tantas alturas deste mesmo rio, só aqui os peixes cintilam, só aqui tem uma ponte velha cor de rosa, só aqui. Por que não em outro lugar? Um lugar mais bonito? Ou em outro horário? Por que não conseguimos ver os peixes brilharem pela manhã? Por que? – Acompanho toda sua aflição. Vejo cada feição que ele faz em cada pergunta. E não compreendo nem onde ele quer chegar ou as respostas para suas indagações.
Realmente, dentre todas as pontes da cidade, somente é cor de rosa, somente esta tem teias de aranha, somente esta é feita de concreto e jamais foi reformada. Dentre todas somente esta é cor de rosa e, o mais engraçado, é que esta ponte é a ponte de entrada e saída da cidade. Uma pequena ponte, estreita, a mais feia, mais antiga. E porque somente aqui? Jamais havia visto o cintilar dos peixes deste local. Jamais havia percebido o brilho deles. Jamais vi um peixe brilhar pela manhã. Por que? O que há na manhã? Eles se acanham? Eles ficam com medo da multidão passando aqui? Mas o mais importante. O que é este brilho intenso e extraordinário?
- É, acho que jamais saberemos! – Com autoridade e sutil simplicidade ele levanta-se e joga a guimba de cigarro no rio. Por pouco não consigo pegar antes d’ele poluir tal perfeição divina.
- Está louco? Como pode me trazer aqui, se espantar com tantas coisas sobre este trecho da cidade e depois tentar destruí-lo? – Apago o cigarro na pedra onde estava sentado e seguro-o em minha mão esquerda.
- Mas, afinal, não fiz a mesma coisa que você? – Fico em silêncio sem compreender. – Da mesma forma que me surpreendi com este trecho, você se surpreendeu om a fase ruim da sua vida. Da mesma forma que olhei a fundo para tentar compreender este determinado e específico lugar, você, assim, fez. Você se afundou na obscuridade do momento que está passando e esqueceu-se de tudo que o sucedeu e o que está, ainda, por vir. – Em silêncio e desalento choro lágrimas veladas no calar fúnebre da minha dor. – E sim, este brilho são as almas deles.

Vida de peixe Part. III - Final



E você sabe o que faz este trecho do rio tão importante nas madrugadas de lua cheia como hoje? – Olho com atenção seus olhos negros e profundos. – As almas tendem a ele. Aqui é a passagem das almas do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. A alma dos pequenos peixinhos brilham para guiar as almas vagantes e perdidas. Agora eu te pergunto. Por que peixes? Não poderiam ser zebras, ou macacos, ou até mesmo garças?
- Devido o seu silêncio e pela nuvem de mistério que eles ostentam à sua volta? – Arrisco-me.
- Que tipo de peixes são? – Olho atento, mas não sei identificar. – São carpas. As carpas nadam contra a corrente para se reproduzirem, para não deixarem sua espécie acabar. São símbolo de luta. De constante luta. E será sempre assim, na terra dos viventes e na terra dos que já não vivem mais. – Fito uma carpa com um brilho amarelo alaranjado e fico refletindo sobre o que ele falou.
Conforme vou olhando-a parece que seu brilho vai aumentando, e aumentando, e aumentando cada vez mais, e mais. Até que um velho senhor entra ao rio e deita-se, o peixe para sob seu corpo que flutua e seu brilho é intenso até se dissipar. Seu brilho é forte e ofuscante. Até que quando se dissipa o corpo desaparece e só sobra um peixe morto e um peixe acinzentado com um brilho branco.
- E você sabe o por que do cintilar delas? – Com um sorriso bobo ao rosto.
- Elas cintilam para chamar suas sucessoras no rio.
- Cada carpa é uma alma. As pessoas são criadas em pares e quando um a pessoa do par morre acende-se uma luz em sua alma para guiar seu par até ela e quando seu par morre uma nova alma nasce de dentro dos restos do par e esta alma brilha para guiar o par sucessor e assim dar-se um ciclo. – Sem saber muito bem sobre o que está acontecendo ou sobre de onde tudo isso se originou coço a cabeça com a mão esquerda e me lembro da guimba de cigarro que guardo. Abrindo a mão fito-a e questiono-me.
- E por que não posso acabar com minha vida que se consumiu como este cigarro?
- Você não é o cigarro. Você é uma carpa. Se você fosse o cigarro você estaria neste momento no chão, ou no fundo de uma lixeira suja. Mas você está aqui, querendo compreender o fim de seu brilho e seu princípio.
- Não há brilho em mim. Somente trevas.
- Se não houvesse brilho você não teria me impedido de findar o lixo. Você não teria me dado ouvidos, não teria se quer vindo aqui, teria se matado em casa mesmo. Mas você veio em busca de algo. Em busca de respostas, em busca de sua luz.
Escoro ao corrimão da ponte, respiro fundo um ar doce de morangos silvestres e ao inclinar minha cabeça para trás desequilibro e caio ao rio acordando em minha cama. Um tanto desorientado levanto-me e caminho pela casa. Já é de manhã.
Faço minhas tarefas matinais em silêncio e seriedade até começar a tomar café e reparo uma coisa sobre a bancada da cozinha. Um peixinho dourado morto ao aquário.

domingo, 17 de novembro de 2013

Você distante



Não sei muito bem o que estou fazendo. Não sei muito bem o que estou procurando. Mas procuro.
Seus olhos são o mar mais profundo que mergulho e me perco, em ti, em mim.
Não compreendo por que fico tão abobado, tão perdido, tão (...) quando vejo que você está perto de mim. Não compreendo como você consegue me deixar tão desconcertado só pela sua presença.
Gostaria de, por ao menos um segundo, nunca vê-lo. Como gostaria de jamais tê-lo conhecido.
Dói-me não conseguir chegar perto de você propositalmente. Dói-me não conseguir olhá-lo sem sentir, ao menos, trinta mil sentimentos controversos. Dói-me querer te conhecer e não conseguir me aproximar.
Quero saber a suavidade e o sabor de seu beijo, mas não consigo, se quer te abraçar.
Seus olhos são o mais profundo oceano cujo afundo, me sufoco e me apaixono. Afogo-me e me embebedo de ti.
Seus lábios tem a tonalidade da mais suave e aveludada rosa do campo cujo mel escorre e seduz os pobres e reles mortais.
Seu corpo juvenil, tênue imaturidade, sutil pureza, transcende a natureza humana, avassala a alma dos homens. Sua perfeição fere nossos corações, agonia nossa alma.
Seu sorriso torto cativa. Seu olhar feroz penetra e eleva. Sua risada conforta. Seu amor constrói e destrói o infeliz atingido por seu poder avassalador.
Suas mãos não me envolvem, seus beijos não me acariciam, seus olhos não me queimam, seu calor não me beija.

Pequenas mudanças

Me perdi de mim
E me tornei quem não gostaria de ser.
Ou gostaria e me esqueci.
Agora não quero mais ser.
...
No entanto
Se um dia quis assim ser,
Devo então abraçar quem me tornei,
Já que quando criança  era mais sábio.
Sendo assim sou melhor,
Ou mais evoluido
Do que já fui!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CataVento - O sol e o vento



Um tanto desolado, sem norte e sem eixo caminho pela casa vazia, procurando por algo ou alguém, mesmo sabendo que estou sozinho.
Como tudo parece estranho, claro e solitário, cada cômodo cada fresta cada lugar.
Vejo os cômodos vazios e me abraço esperando pelo seu abraço. Abraçado a mim mesmo vou até a varanda e sento-me ao banco e olho o cata-vento de sua filha girando e girando ao vento. Uma peça rara e linda, singular como o nosso amor. Ele tem partes brilhantes e que refletem os raios de sol fazendo feixes de luz colorida.
Conforme ele gira o reflexo do sol vai batendo ao meu rosto e isso me faz fechar os olhos e me lembrar de como foi conhecer você.
É como se o tempo voltasse e cada móvel girasse para seu respectivo lugar e saíssem novamente. Nós subimos as escadas rindo e brincando, abraçados e radiantes. Nossa primeira casa. Nosso cantinho. – Sorrio sozinho.
Seus olhos naquele dia estavam ainda mais azuis do que eu me lembrava. Um azul profundo, quase violeta. Com esse olhar você me abraçou, me envolveu, me encorajou e me deu força para te amar cada instante mais.
Cada pincelada às paredes, cada guerrinha de tinta, cada beijo sujo, molhados, suados, cálidos beijos e fortes abraços. Cada transa sobre os jornais que pusemos para não sujar o assoalho. – Sorrio de olhos fechados. – Como essas memórias me fazem apertar o coração.
Moramos por alguns meses somente com um colchão, um fogão, uma geladeira e alguns eletroeletrônicos indispensáveis. Tirando as coisas básicas para sobrevivência. Mas o mais essencial e mais divertido era o nosso amor que preenchia toda a casa e nos deixava satisfeitos até na dor. Simplesmente por nos amarmos incondicionalmente.
Você foi, sim, meu arco-íris no momento chuvoso, você foi minha luz no fim do túnel, você foi o alívio quando a dor parecia não cessar.
Quando nossos móveis chegaram você nós os arrumamos e organizamos nossas coisas em seus respectivos lugares. Levamos três dias para arrumarmos e rearrumarmos tudo. Toda hora parávamos, cansados, bebíamos algo gelado, refrescávamos, nos beijávamos com aquele hálito gelado e nos amávamos em cima do que estivéssemos empurrando.
Eu adorava curtir cada segundo ao seu lado, cada toque da sua pele na minha, cada vez que você exalava aquele aroma doce de limonada suíça que só encontrei em você. Cada beijo, cada vez que sua língua acariciava a minha. No intervalo entre um beijo e outro minha boca já sentia sua falta. Sentir com minhas mãos o desenho perfeito de seu corpo escultural. Ver meu reflexo radiante aos seu olhos azuis como o oceano. Ver seu sorriso retribuindo o meu. Ver seu olhar sério, ao amanhecer, admirando-me, as vezes com um sorriso leve aos lábios e um beijo matinal. – Respiro fundo.
Ainda sentado ao banco de olhos fechados me levanto sem sair do lugar e caminho pela casa vendo cada cena de nossa vida juntos. Passo pela sala e vejo-nos transando loucamente ao canto, derrubando nossas fotos, logo pego a foto caída e vejo-nos brigando, gritando e xingando-nos, olho para outro canto e vejo-nos abraçados pedindo desculpas. Caminho e vejo-nos discutindo e nos beijando ao corredor, passo pelo quarto e vejo-nos em diversas cenas, à cama, dormindo, nos beijando, quebrando tudo, brigando, gritando, cantando pintando. À cozinha cantando. Ao banheiro tomando banho. À área lavando roupa e brincando de guerrinha de toalha molhada. À copa almoçando. E volto para a varanda onde vejo-nos sentados olhando um para o outro, em silêncio, numa harmonia perfeita. Nos amando.
Vejo você indo com sua filha pela porta, com uma mala caramelo à mão esquerda e segurando-a pela mão com a outra. Você olha para mim por sobre os ombros e eu despeço-me com um simples aceno com uma mão e abraçando meu tronco com a outra.
- Eu te amo! – Suspiro, inaudivelmente. E você me responde com um olhar desconcertado.
- Bruno. – Você me toca ao ombro e eu abro os olhos. Você está com um olhar atento aos meus. Estamos à varanda e eu ainda estou sentado ao banco. – Está tudo bem? – Sorrio.
- Melhor impossível. – Sorrio largamente, levanto-me e beijo-o como nunca. Kimberli faz som de nojo. E acabamos indo olhando para ela.
- Vamos então? – Fala animado. Pega a mão dela e desce as escadas. – E você, não vai? – Brinca olhando para mim.
- Precisava me despedir. – Sorrio caminhando em direção ao portãozinho da frente. E antes de sair pego o cata-vento que girava com fervor e iluminava a todos os continentes com os raios do sol, guiado pelo vento de nosso amor.