A vi a muito saltitando e rindo, falando às escondidas com
os amigos com um olhar curioso que nos vasculhava e investigava à distancia.
Você sorriu e eu retribui e buscando novas experiências resolvi sair de quem eu
sou para tentar te alcançar e assim você se permitiu fazer, se permitiu ser
alcançada e sorriu um sorriso branco e resplandecente, estonteante perfeição, hálito
fresco de menta, inebriante sorriso.
Com trejeitos alegres conquistou a todos e envolveu-nos em
seu mundo paralelo, um mundo que fazia com que acreditassem que era real, mesmo
sem querer. Com um gostos marcantes e incomuns você se deixou aproximar e se
fez envolver sem querer se comprometer. – Pena que não percebi que você não
queria se comprometer.
Os dias, poucos dias, se passaram e seus saltos foram
ficando menores e você começou a dar os primeiros sinais de sufocamento, sua
seriedade estranha começou a surgir. Seus sorrisos foram desaparecendo com o
tempo e até o jeitinho diferente que antes era fofo foi desaparecendo na
indiferença e na aspereza de um tratamento para com uma pessoa que você não
quer ver.
Envolta em linguetas de fogo você se consumiu e desapareceu.
Seu silêncio foi cortando nossa relação de uma imatura e doce amizade que
estava sendo tecida como uma faca perfura o tecido do miocárdio de um inocente
na calada da noite, nos mistérios da escuridão e por engano é morto mais uma
pessoa que só queria-lhe o bem. Sem saber o que fazer, silenciei-me, recolhi-me
e resolvi fazer de meu pranto minha oração, no silêncio, no escuro da noite, no
meu íntimo, peço pelo seu bem!
Ainda guardo muito sobre ela, mas já não sei se seria a
mesma coisa. Gosto de me lembrar da intensidade do sentimento que tive por ela.
Gosto de me lembrar de seu jeito extrovertido, de seu jeito alegre, de seu
jeito singularmente peculiar. Gosto de me lembrar de sua filosofia, de suas
músicas, de sua arte. Gosto de me lembrar do quanto entristeci-me por não pedir
para ver você sendo engolida pelas linguetas de fogo de seu belo vestido
vermelho rodado.
Sim, jovem menina dos cabelos negros, sou eu. Sim, jovem
menina dos cabelos negros, é você. Sim, jovem menina dos cabelos negros, somos
nós. Nossa amizade tão púeri, tão singela, tão doce, tão imatura, tão pequena,
tão intensa, ao menos para mim.
Não tem problemas, jovem menina, um dia eu voarei por aí, de
sonho a sonho, até achar o meu e quando assim eu encontrar e pousar, quando eu
calcar os pés em meu mundo e conseguir subir ao topo da montanha dos vitoriosos
eu irei gritar ao mundo em voz tênue os nomes e os feitos de todos que me
ajudaram a chegar lá e assim não esquecerei de você. Pois você, jovem menina
dos cabelos negros, sorriso radiante e vestido de fogo, você, com todos seus
defeitos e qualidades, você me ajudou, sem querer, a me encontrar em um momento
que pensei jamais sair.
Em seus singelos toques de piano, com sua orquestra suave às costas você abre o palco, com a luz dos holofotes ao seu rosto, você treme, sua carne trepida sob sua pele, seus olhos brilham de medo e seu rosto fica paralisado de estatelamento. Você não sabe o que fazer, até que seu príncipe encantado, roqueiro dos anos 70, te salva. Eu venho perguntar o que houve e ordeno que volte ao palco. E ao decorrer da discussão entre eu e o roqueiro dos anos 70 você escapa por entre nossos dedos e proferindo notas suaves como o canto das sereias, você toca as almas expectadoras. Você as ajuda com palavras pobres, porém cheias de significado, filosofia, amor e sangue daquela que lutou para estar onde está.

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