Ao chegar ao lugar do cativeiro eles deixam eu e Isis onde
deveria ser a sala de estar da casa, parece uma sala de espera de um
consultório. A mulher esguia está conversando com um homem malhado que parece
ser o chefe do bando, eles conversam algo sobre nosso respeito e ele manda-a
fazer os procedimentos com o rapaz, pois a mocinha vai para o “Carlos” se
divertir um pouco e o homem esguio aparece em uma janelinha e sorri segurando
Evelin sobre o ombro esquerdo, ela grita e esperneia com ele ainda a segurando.
- NÃÃOOOO... – Grito pulando para frente e caindo de cara no
chão. Um homem chuta minha cabeça e me levanta socando minha cara e jogando-me
no banco novamente. Vejo claramente a feição de pavor de Isis.
Um tempo se passa e nada muda, só que durante esse tempo de
espera comigo olhando para o rosto de minha irmã ouvimos muitos gritos de
Evelin, de Yago e de outras pessoas, crianças e jovens, Isis não faz nada além
de cara de pavor e chorar, não emite nenhum som inteligível. Logo a mulher
esguia sai da sala com uma roupa de médico suja de sangue, com luvas até o ante
braço e com muito sangue no corpo, até o cabelo está um pouco grudado de sangue,
mal vejo Yago sair arrastado e não consigo identificar o que nele foi feito e
me arrastão para lá, eu me debato, mas não adianta. Eles me amarram em uma cadeira como a de dentista, amarram-me na cintura,
nos pulsos, na testa, nos tornozelos.
A mulher corta todas as minhas roupas e começa os cortes, dá
para ver seu sorriso sádico, no começo a dor é bem forte, mas tolerável, os meu
gritos são exagerados.
- Por que está gritando filho, a brincadeira nem começou. –
Vejo um sorriso sombrio em seu rosto e um bisturi em sua mão direita. Ela se
dirige em direção a minha testa e começa a cortar a minha pele entre o olho e a
orelha, a dor é absurda, inenarrável, meus grito misturam pavor, dor e pânico.
Mexo-me para tira-la de lá, mas só o que faço é ajuda-la a me cortar. Sinto-a
fazer uma incisão alí e partir para outro lugar.
A dor é tanta que não consigo ficar cem por cento acordado e
entre desmaios e acordes eu grito, solto gemidos, mexo-me, xingo e vejo-a
compenetrada em mutilar minha carne.
Já não sei quanto tempo estou aqui e nem o que é pele e o
que é sangue em mim, tudo está sujo por sangue quase seco, o ventilador de teto
ajuda a secar e espalhar poeira por meu corpo nu e dilacerado por essa sádica.
Estou cansado e ainda gemo sentindo-a suturar-me.
Sou levado para um quarto escuro como de uma prisão, ele é
todo de pedra e a única coisa que posso ver é que tem uma janelinha gradeada lá
em cima, tem um colchão branco e três panelinhas, uma com ração, outra com água
e outra vazia, suja com excrementos de outras pessoas. Fico aqui por muito
tempo só deitado, ouvindo vozes e conversas diversas, mas nada que eu consiga
entender. Estou demasiadamente cansado e mal sei distinguir se é dia ou noite,
se já são dez dias que passei aqui ou sem, não sei se durmo e tenho pesadelos
ou se estou apodrecendo nesse quarto. Quando ouço a voz de Ivana e de Igor me
chamando.
Desperto, olho para os lados, enfim consigo ficar de pé e um
homem me amarra e me leva para um outro quarto, como um quarto de criança, nele
há um menino com aproximadamente 15 anos que fica repetindo “Paredes, quantas
paredes, paredes, paredes. Navalhas, arrancar, navalhas, garganta, navalhas.”,
ele fica andando freneticamente de um lado para o outro, ele está vestindo um
tipo de moletom com tornozeleirsa grossas demais para esse calor que faz, ele
usa uma camiseta azul meio esbranquiçada rasgada e muito surrada, há outro
rapaz no quarto, um garoto grande e sério, ele não fala, só usa uma camiseta
amarela com uns desenhos e tem uns desenhos queimados no próprio corpo como
algo parecido com um bigode feito com ferro quente e usa uma bermuda marrom bem
surrada, rasgada e feia e também está no quarto Isis, encolhida em um canto com
alguns brinquedos, reconheço-a só pro que sou seu irmão e por que está com a
mesma roupa, só que suja, rasgada, surrada, ela está com algumas marcas de
espancamento pelo corpo.
Quando os homens me deixam no quarto e saem, corro e me jogo
em direção a Isis que chora sem parar.
- Mana... – Falo com ela em tom preocupado tocando em seu
braço marcado pela flagelação. Ela reclama de dor emitindo um som com a boca.
- Você, também tem aquele negócio no braço? – Ela fala sem
olhar para mim.
- O que? – Olho para o meu braço esquerdo e vejo algo
estranho que me já estava me incomodando muito a um tempo, mas nunca tinha
visto antes, é algo alto com uma forma estranha. – O que é? Você também tem?
- Não. – Ela olha para meus olhos, seus olhos cor de avelã
estão vermelhos de tanto chorar. – É uma navalha no seu braço...
- Navalha, navalha, eles colocaram uma navalha em nós. – O
garoto que anda de um lado para o outro interrompe-a sem parar de andar. Ela o
encara, mas continua falando.
- Eles mutilam os rapazes e as mulheres eles estupram e
quando não os servem mais eles cortam em pedaços e vendem. – Ela está com uma
cara de nojo e desprezo com um misto de ódio e pavor.
- E com você, o que fizeram? Sabe o por que? O que sabe? –
Insisto olhando seriamente em seus olhos que a cada momento se enchem mais de
lágrimas, ódio, amargura, ira e pânico.
- Eles... – Ela é interrompida pelo garoto que anda pelo
quarto, agora eles está quase correndo. - Eles...
- NÃO FA, NÃO FAL, NÃO FAFAFA, NÃO FALEM, CALEM A BOCA,
CABEL A BOCA... – O garoto corre em nossa direção e grita conosco, depois
começa a sussurrar. – Vocês não veem o que estão fazendo? Acha que são os
primeiros a fazer isso? Eu Ugo, todos que passaram por aqui, são todos parentes
de crianças desaparecidas de Green Ville e o último que tentou conspirar e que
falou em voz alta coisas sobre eles aqui nesse quarto coisas sobre eles acabou
sendo horrivelmente destroçado, eles jogaram os restos do corpo dele em coma de
nós, eu e Ugo, desde então, Ugo só sabe engordar e não fala mais nada, só fica
com aquela cara e acabou sendo arrastado para a sala do dentista com a Cíntia
Simone para ser queimado a ferro . - É visível o garoto gordo, o Ugo tremendo
quase chorando de pavor. - Então, por favor, parem de falar, se não serão os
próximos. Menina continue agindo como louca e você menino, arranje alguma
maluquice para você. – Então ele do nada volta a caminhar pelo quarto e fica
repetindo qualquer coisa. Fiquei pensando no que ele falou, ele é muito
esperto, ele tem razão, mas não sairemos aqui de mãos vazias. Olho em silêncio
para Isis esperando resposta. Ela me abraça e começa a sussurrar uma música em
meu ouvido.
- Eles não fizeram nada
comigo ainda, eu mordi a língua de um homem, chutei e machuquei alguns deles,
então eles me bateram e prometeram que futuramente me fariam... – Ela engole o
sussurro a seco. – A navalha dos rapazes eu entendi que é para algum jogo, só
ouvi isso. Não sei o por que que eles nos sequestram, ouvi uns falarem de algum
jogo conosco, outros falaram de nos vendes, outros... – Ela pensa e sinto que
derrama lágrimas em mim. – Eu só sei isso irmão, enquanto isso melhor entrarmos
no jogo. – Sinto uma dor me consumir, algo que não sei dizer o que é, é algo
totalmente estranho para mim.
-Tem notícia dos outros? – Sussurro esperando por respostas.
Mas sinto ela suspirar e chorar em meu ombro.
- Nós vamos sair daqui sim, fique tranquila, Quando Yago der
o sinal, vamos sair. – Falo com liderança.
- Qual é o sinal? você o viu? E Evelin, como vai ser? – Sou
bombardeado por perguntas sussurradas.
- Eu não o vi, mas sei que ele vai nos dar um sinal,
qualquer coisa que ambos tivermos certeza de que é ele, aí sim é o sinal e
Evelin, bem, ela nós vamos descobrir... – Engulo minhas próprias palavras a
seco. Empurro-a olhando em seu rosto como quem está com raiva, mostro-lhe com
um olhar onde estão as câmeras e vou para o outro canto do quarto e encolho-me.
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