Descendo da minha embarcação com aquele monte de gente
estranha em com roupas, cheiros e feições repugnantes procuro logo meu lugar.
Seguindo alguns dos meus companheiros de viagem procuro meu lugar e encontro-me
andando descalço sobre a areia da praia, a água está escura e evidentemente
suja. Estou seguindo os passos de um homem enorme de gordo mas não sei o porque
sei que ele vai me ajudar a encontrar meu caminho, meu lugar nesse habitat
ainda estranho para mim. Das pegadas dele brotam água, uma água azul turquesa.
A coisa começa a parecer estranha ele está segundo em direção ao mar, dou meia
volta e volto-me para a ponte, ou melhor, para baixo dela. Muitas pessoas estão
aqui e eu encontro aqui minha irmã que estranhamente viajou comigo todo esse
tempo e eu se quer lembrava.
Uma menininha negra corre para há frente da catraca do que
parece um viaduto, mas é algo que liga há terra firme com a ponte Rio-Niterói.
O formato é idêntico aos viadutos da Washington Luíz. Minha irmã Sebastiana
corre atrás dessa menina.
- Você está cobrando para ver o “Tirulipa pegajoso”? Eu
adoro ele, sabia que eu já fui uma Tirulipa pegajosa? – Tiana fala com muito
entusiasmo para com a menina negra, mais entusiasmo que estou acostumado. Elas
parecem se conhecer e serem íntimas. Ouço a conversa ainda de longo,
aproximando-me vagarosamente.
- Cinco reais tia. – Tiana praticamente joga a nota nas mãos
da menina e voa ao encontro do palhaço. Ele, por sua vez, é um palhaço com
roupa com listras em preto e branco, tem uma peruca cor de fogo e um nariz
vermelho, uma maquiagem quase derretida e uma aparência suja e remelenta. A
menina não demora muito para também rodar a catraca e ficar aos pés do palhaço
pegajoso. Ambas ficam conversando com o palhaço sem graça, elas super animadas
e ele super interessado no que Sebastiana tem a lhe “oferecer”.
Subo aquele lugar com cuidado e receio por nojo das
qualidades sanitárias.
Tirulipa-pegajoso:
Depois de muito
esforço e de não conseguir abocanhar aqueles redondos e roliços melões da
menina volto a minha cabine escura e suja, venho tirar minha maquiagem que já
está completamente deteriorada. Ao me sentar e tirar quase por completo a
maquiagem Negão aparece com uma arma na mão e outra na cintura. Na mão ele está
com uma pistola imbel .380 e na cintura ele está com uma pistola dourada. Ele
está com uma camisa aberta e dá para ver a pistola cintilar em contraste de sua
pele negra.
- E então como está o serviço com os traficantes? – Ele rosna
com a voz grave e furiosa.
- Está tudo ótimo chefia, pode ficar tranquilo. – Respondo com
um pouco de medo. – Aceita alguma coisa? – Levando-me para pegar algo, mas ele
me joga novamente na cadeira de maquiagem.
- Mostre-me como você faz com eles. – Ele fala mostrando-me
a arma de sua mão direita. Mas recuso-me a fazer dando uma desculpa esfarrapada.
Ele aponta a arma para minha testa encostando o bico em minha fronte.
- É assim que se extorque o que é seu, assim que você faz
esses playboys pagarem a droga, ou faz assim, ou a bala deles vai entrar na sua
cara. – Ao terminar ele joga a arma em cima de mim e vira-me as costas.
- Só que eu trabalho do meu jeito otário. – Respondo-o pelas
costas apontando a arma de lado para o nada e falando baixo. Coloco a arma na
penteadeira e esfrego o rosto com as mãos em um suspiro de alívio. Mas antes
que meu suspiro se concretize ele volta com uma arma maior, mal posso ver o
cano e a luneta da mira da arma, ele praticamente enfia-a em minha fronte e
atira falando algo que o barulho da arma não me deixa ouvir.
Meus apelos e súplicas por manter-me vivo e sues murmúrios
são abafados por meu pânico que mal deixa eu ouvir o barulho do disparo em
direção a minha face. Meu rosto é um buraco só, não dá para se quer saber que
um dia isso foi um rosto humano. Minha cabeça ainda treme um pouco e sinto sede
apesar de ver-me agora em terceira pessoa...
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