O dia já estava chuvoso quando acordei. Ainda sonolento fui
para a cozinha, ajeitei as coisas do café da manhã e fui para o banheiro tomar
uma boa chuveirada quente.
A água está fervendo e é assim que gosto. Fecho a válvula
d’água e seco-me enrolando na toalha. Limpo parte do espelho embaçado com a mão
e vejo meu próprio reflexo nele. Estou fitando meus olhos e como um estalo um
abrupto despertar, lembro-me de ver Laura, não a ouvi hoje cedo.
Visto-me e vou ao quarto dela. No caminho recordo-me que ela
sempre acorda comigo e me chama ainda na cama. Ao chegar lá meu coração se
aperta, um nó sobe do meu estômago a minha garganta, um suor frio desce minhas
costas com o medo e o frio da barriga. Apavorado procuro-a sofregamente.
Agitado não acho-a. Ligo para a polícia e registro o desaparecimento .
Estou procurando uma boa foto dela e ouço um forte trovão lá
fora. Olho pela janela e vejo a forte tempestade cair torrencialmente no
quintal fazendo lama no gramado verde. No mesmo instante recordo-me dela ter
dito algo, ontem , sobre viver suas últimas experiências enquanto criança.
Apavorado corro até o quintal e procuro por ela em cada
canto e não acho-a. Debaixo da chuva forte e fria, vestindo um moletom cinza
claro e uma regata branca, olho para o
seu quarto pelo vidro da janela, os aparelhos, os remédios e o soro estão
solitários sem ela para os dar vida e logo penso em ir ao parque de diversões
aqui próximo a praia procura-la.
Corro pela rua com meu cabelo molhado colando no rosto, a
chuva atrapalha minha visão, meus chinelos estalam alto ao baterem no chão
empoçado. A chuva é cada vez mais forte e os trovões mais frequentes. Não há
vizinho algum, se quer, na janela.
Chegando ao parque corro direto á administração do local. O
homem que está no quiosque informa-me, calmamente, que viu uma menina
caminhando por aqui mais cedo, desacompanhada, e conversou com o faxineiro que
já saiu.
Vejo um homem velho com jaleco laranja caminhando devagar no
horizonte, sinto uma forte preção sobre meu peito enquanto corro, meu coração
parece esmagar-se contra minhas costelas atravessando meu pulmão esquerdo e
quebrando os ossos do meu tórax. As primeiras lágrimas começam a escorrer sobre
meu rosto misturando-se com a chuva que cai do céu ensopando-me.
- Meu senhor, você viu minha filhinha no parque?
- Sim senhor. Ela disse que iria dar comida as gaivotas já
que o parque está fechado pela chuva. Eu a avisei que não teriam gaivotas nessa
tempestade, mas...
- Muito obrigado. – Interrompo-o já correndo para a praia,
não penso duas vezes.
A chuva parece cada vez mais forte e parece derreter-me com
meu cansaço.
Chegando a área da praia vejo uma meia, cor de rosa, boiar
em uma poça d’água. Pego-a e corro para o mar para procura-la. A busca
implacável parece cada vez mais vã, mais inútil, dolorosamente boçal. Com um
misto de pânico, choque e muitos outros sentimentos conturbados, choro,
esperneio e grito segurando sua meia contra meu peito que já parece oco. Caio
ao chão molhado pela chuva e banhado pelo mar. Grito, com a dor da perda de um
pai, o nome dela.
A chuva enfraquece e me possibilita, em meio aos meus
gritos, ouvir o clamar das gaivotas por mim. Já desanimado e cansado olho em
direção das pedras onde estão as aves. Com dificuldade vejo um corpo. A visão
embaçada enche-me de força e uma energia sobrenatural toma meu ser fazendo-me
correr para ver o que é aquilo.

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