Um ano, seis meses e vinte e cinto dias, todo esse pouco tempo contigo, é possível? É possível eu já ter supostamente enjoado, eu supostamente ter me cansado de Deus?
Não, não é possível!
Então o que eu sinto? Se não é tédio, se não é monotonia, se não é novamente a solidão?
O que você está sentindo Felipe?
EU NÃO, SEI! – Grito comigo mesmo. –
Eu não sei, só sei que novamente não, não é a mesma coisa, antes eu sentia o famoso vazio existencial, sentia-me só, sentia-me, INFELIZ.
E hoje, o que você sente?

Sinto-me, só, apesar de saber que estou rodeado de pessoas, de supostos amigos, de familiares, sinto-me muito, muito só. Mas ao contrário de antes, sei que há alguém comigo, eu não o vejo, não o sinto, não o toco, mas sei que ali está.
Ele sonda-me, ele sonda meus pensamentos, sonda minha história, minha família, meus círculos sociais, todos os lugares onde estou ele está, ele me vê, de tudo sabe, de tudo conhece. Mas minha solidão é do físico, sinto muita falta dele, falta da presença física dele.
Mas isso não pode ser resolvido?
Poder até pode, mas como? Quando?
Eu careço de ver a sua sagrada face, ficar face a face com o mestre, com meu único e verdadeiro amigo, não sei o porque, não sei como, mas me dói muito escrever isso, dói, ver que está tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

Como pude deixar me entregar tanto, como pude deixar-me apaixonar de tamanha forma? Responda-me, Como?
Gostaria muito de dizer que sou uma ovelha desgarrada, de dizer que sou um pecador que não quer mudar de vida e tal e coisa e coisa e tal. Gostaria até de dizer que sou a predileção de Deus dos “casos mais difíceis”, mas não sou não sou eu.
Eu simplesmente estou muito desgastado, eu me entreguei de tal forma, eu me deixei machucar mais que o normal, deixei-me ferir mais do que o costumeiro, me entreguei mais do que o cotidiano.
Entreguei-me.
Enquanto as pessoas vão se abandonando gradativamente, eu mergulhei de cabeça no mar de espinhos e rosas, ninguém se entrega de tal forma, ninguém, ninguém se deixa sofrer com tudo isso, de tal grandiosa forma.

Ninguém.
Eu me deixei, me deixei e agora não sei como sair. Estou muito ferido, muito perfumado, muito desgastado.

Deixei muitas gotas de sangue pelo meio do caminho, abandonei muitas fagulhas de pele e até alguns pequenos pedacinhos de carne, olha para minha face, olha para as marcas da dor, olhas para as consequências da paixão.
É doloroso até hoje olhar para o passado, me dói muito, me dói ver o que já fiz o que fizeram comigo e até o que eu deixei de fazer.
Quero muito mudar tudo isso, mas não consigo, quero mesmo, quero muito não sentir-me mais tão apaixonado por Jesus, não me sentir mais tão dependente de sua graça, não me sentir mais tão entregue a ele.
Gostaria de verdade de me sentir como meus colegas de escola, de trabalho e até alguns de igreja. Ir a bailes, beber, fumar, fazer o que eu quero sem preocupar-me com quem estou ofendendo ou magoando. Ir a boates, bares e casas noturnas, como diz meu pai, ir na casa das primas e até fornicar, praticar orgias, e experimentar das delícias e afeições degradatônicas que o mundo nos oferece.

Mas sei muito bem que não é bem assim, que o mundo nos dá e depois nos cobra, nos oferece e depois nos julga, nos acolhe e depois nos escorraça de tal forma que não é a vida.
Eu quero, quero como qualquer ser humano normal, a felicidade, o amor.
Quero encontrar o caminho da verdade, o caminho da vida.
“E Jesus disse: ‘Eu sou o Caminho a Verdade e a Vida, ’”, Como eu vou viver sem a vida, sem à verdade, sem o amor.

Se o mundo não nos oferece a verdade, nos oferece o que? Se lá eu não estou ou sou vivo, vivo vivendo a verdade, o que lá nos oferece?
Nada, nada que você não tenha em Deus.
Apesar de tudo, de tudo o que hoje eu estou sentindo, do que hoje estou vivendo, do que hoje eu estou me mostrando ser...
Vejo-me no lamaçal, me vejo em um bosque escuro, só, sozinho, sem ninguém para me mostrar o caminho, não me sinto no deserto, sinto-me num bosque sempre escuro, onde à água, mas água não potável, onde á medo, choro e ranger de dentes.
Muitas vezes vem alguma pessoa no meio desse bosque, pessoas me oferecendo coisas para que eu adormeça e sonhe, sonhe belos sonhos, mas que eu nunca saia desse bosque escuro.

Que eu fique lá eternamente.
Mas eu não aceito, eu me recuso viver um mundo que não é meu, mas temo viver nesse mundo que é meu.
Mas só uma coisa que me consola, uma coisa me traz vida, me traz esperança de ainda sair vivo desse tormento, dessa tormenta.
Deus.
Quando passo pela sombra, penso na vida, penso no mundo, quando o sol finalmente toca meu rosto, sinto Jesus, com sua mão chagada por mim a afagar minha face.
Quando estou à noite, andando só, no escuro e iluminado pelos postes, olho para o céu, um sorriso estrelado de Deus falando: Perseverança.

Quando olho para o orvalho ao amanhecer na pequena e frágil planta eu vejo que Deus faz a beleza e perfeição na pequenez e fragilidade da pequena e feiazinha planta.
Quando eu vejo uma bela flor à brotar no meio do solo árido, no meio do solo pedregoso.

Quando eu vejo a lua à olhar para mim, a lua dizendo: Sou a sua mãe, esteja onde estiver, eu estarei aqui com você, para consola-lo estando certo ou errado, amando ou odiando a Deus.
Ama-a a ti mesmo, como eu amei a ti, pelo menos fazei isso, pelo menos mama o templo de Deus, ama o seu corpo que estas amando a mim, o Deus que habita em ti.

Por isso eu digo:
A pesa de tudo que eu ainda faço, de tudo que eu penso tudo que ouço, o sinto, ainda assim ele está comigo, sinto-o tocando em minha alma, em meu coração.
Amo-te, senhor, só tu tens palavras de vida eterna!
