quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu, Érica e falecida Lurdes Part. I



Olho ao relógio de minuto a minuto, o tempo parece não passar.
Ouço alguém sussurrar que finalmente só faltam cinco minutos. Eternos cinco minutos.
Começo a finalizar minhas tarefas do dia e desligo o computador. Junto minhas coisas e deixo um bilhete sobre meu teclado escrito, “Perdão Érica, tenho que sair mais cedo hoje. Em casa agente se fala.” e saio às pressas com a pasta na mão. Desço ao estacionamento e me jogo dentro do carro, passo o cinto de segurança ao meu peito como se estivesse me cingindo com uma armadura. A pressão ao meu coração começa a apertar. Um nó a garganta se forma, mas ainda está tragável.
Saindo do estacionamento dirijo com pressa até a avenida e correndo acabo me deparando com um engarrafamento. Isso me inerva. Buzino, grito com a cabeça para fora da janela, xingo, esbravejo, soco o volante, mas de nada adianta, pouco anda e logo para novamente.
Em meio a fúria eu ligo o radio em uma estação qualquer e em meio uma música calma eu percebo que há uma mulher de regata preta e bermudinha jeans vendendo rosas por dentre os carros. Mesmo sendo rejeitada por inúmeros motoristas ele continua sorrindo e vendendo bailando por dentre o zigue-zague dos carros.
Se aproximando de mim e passando despercebida eu abro a janela, abaixo a música e grito. – Moça das flores, ô moça... – E aceno para que ela venha. Ela abre um sorriso largo quando me vê e vem com ânimo.
- Vai querer quantas? – Ajeitando o cabelo atrás da orelha.
- Uma só. Quanto é? – Pergunto já com a mão na carteira.
- É dois reais cada uma. Mas compra uma só não senhô, compra mais, a esposa não merece?
- Esposa? – Olho para minha mão esquerda e olho minha aliança. Tinha até me esquecido que ainda usava-a.
- Ah, perdão senhô.
- Não, tudo bem. Eu quero então cinco. – Ela abre um largo sorriso.
- Você vai querer elas separadas, ou pode juntar alguma?
- Eu quero, então, duas separadas e três formando um buquê. – Ela sorri e junta um buquê de três rosas como pedi e depois me dá outras duas rosas individuais. – Posso abusar um pouquinho? Quero aquela rosa cor de rosa claro alí, aquela meio murchinha.
- Mas eu vou joga-la fora, ela está feia e velha.
- Mas as velhas e feias também podem fazer-nos sorrir e amar. – Ela sorri com ternura e me entrega a rosa envolta em uma folha de papel colorido.
- Essa é de graça senhô. – Eu estendo uma rosa vermelha minha para ela. – Não senhô essa eu que tô te dando.
- E essa vermelha sou eu. – E retribuo o sorriso.
- Obrigada.
Depois disso percebemos que os primeiros carros estão avançando e ela recua para o canto da pista, aceno em despedida e sigo meu caminho. Toda minha viagem está perfumada e mais leve embalada por música clássica, a preferida de Lurdes também, mas Érica odeia, ela prefere qualquer coisa. “Realmente os opostos se atraem.” E com um sorriso bobo eu sigo meu caminho até o cemitério do Carmo.

2 comentários:

  1. Nossa, que lindo Lipe! Amei.
    Adoro tudo que envolva flores no meio.

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    1. Ah, obrigado. rs
      Eu mesmo fiquei surpreso de como consegui escrever esse conto tão em cima da hora. rs

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