quarta-feira, 8 de maio de 2013

Amor, silênciosa dor Part. II - Final


Entramos ao terreno da casa e finalmente eu a pego ao colo para tirar-lhe da charrete. Meu silêncio é sorridente e carinhoso. Seu assombro é admirável e de admirador.
Entramos a casa, estamos à penumbra, embalados ao som de violinos e caminhando sobre inúmeras pétalas de rosas. Levo-a até a sacada. Não há mobilhas para que nos preocupemos.
-        Agora você pode me explica o que é tudo isso. - Volto a minha seriedade fúnebre. Ela envolve meu rosto com suas delicadas mão. - Amor, tudo está maravilhoso, mas não sei se mereço. - Afago seu rosto com minha mão direita. Olho para a lua e recordo dos momentos em que vivi. Momentos em você, momentos em que tive de silenciar-me, silenciar tudo em mim para que você não morresse dentro do meu coração. Percebo você a fitar meus olhos, mas mantenho-me rijo ao admirar a lua.
-        Ela é linda não é? - Ainda fitando a lua. - Quase tão linda quanto você. - Percebo seu sorriso. - Você quer saber o porque de tudo isso. Mas na verdade você já sabe. Eu já lhe disse ainda no aeroporto.
Quando namoramos pela primeira vez nós só vivemos flores, vivemos um mar de rosas durante nosso primeiro ano de namoro. Nós noivamos e um mês depois você me abandonou, disse que estava confusa e desapareceu com a aliança que comprei, a aliança que, um dia, pertenceu a sua família, a aliança de sua tataravó.
Três meses depois você voltou, nos encontramos em um café, você se lembra. - Percebo as lágrimas aos seus olhos. - Você estava mudada e disse que sabia o que era certo na sua vida, sabia o que era indispensável. Disse que havia apendido a priorizar e a amar de verdade. E eu, talvez um tolo, ou não acreditei.
Voltamos a namorar e ficamos juntos por mais três meses. Logo você foi chamada para trabalhar no Alasca estudando o comportamento dos leões marinhos. Você disse que não queria ir sem mim. Disse que queria ter um filho meu, que nosso amor era maior que tudo aquilo. Mas na verdade que não queria estar com você era eu. Todo aquele tempo em que ficamos separados, a separação em si foi muito dolorosa. Feriu-me muito e quando voltamos a ferida só aumentava.
Tive que silenciar-me para guardar a pequena, e mais pura, fragmento do nosso amor que ainda havia dentro de mim. Aprendi a conviver com o silêncio e você aprendeu a respeitar o meu silêncio. Aprendi a me calar e a, talvez ouvir. Mas, de qualquer forma, eu precisava me curar, da mesma forma que você se curou.
“Três meses,...” você disse “... só três meses de estudo, mas eu quero que você decida.” e eu disse para você ir. Não sei o que passou pela sua cabeça ao ouvir minha decisão. Sei que você não ficou muito feliz. Peço perdão, mas eu precisava de um tempo para me curar também.
Três meses, três longos meses. Três meses sem você, três meses sem seu amor, sem se quer saber o que era amar. Três meses em silêncio, recluso de mim mesmo, vivendo uma rotina fria e silenciosa, dolorosa e sombria, mas por um bem maior. Muito maior.
Sofri muito, mas cresci tanto quanto sofri.
Você voltou e achou que iria encontrar tudo do mesmo jeito, mas se surpreendeu. Meu silêncio lhe era confortável, mas minhas lágrimas não eram mais de dor e sim de alívio. Pois agora eu posso falar, por que minha voz, agora, está aqui, ao meu lado.
Sim, recuperei a aliança para mostrar que da mesma forma que você quis voltar atrás eu também quis e voltei, por você. - Volto meu olhar para seus olhos verdes e embaçados pelas lágrimas que não cessam. -
Fiz tudo isso para que você perceba o quão belo é o nosso amor, principalmente agora que somos dois amantes curados. Um amor sadio e sólio, um amor de verdade.
Tudo isso é muito belo, porém muito supérfluo. Tudo o que você viu é passageiro, mas o aqui e o agora é eterno. Como o amor que habita dentro e nós. Não deixe isso escapar, jamais.
Eu te amo Eulália, sempre vou te amar e nunca vou te esquecer. Talvez, um dia, na sua morte, se ainda eu estiver vivo, eu posso continuar meu caminho, mas meu amor, o amor que hoje habita e ferve dentro do meu peito, sempre será eterno impedindo que eu esqueça quem você foi, o que você fez e quem sempre será aqui – Aponto para o meu peito. - dentro do meu coração.
Sem palavras ela simplesmente chora e finalmente eu beijo-a como se esse momento, realmente, não fosse ter fim nunca.
Cada um de nós, cada um precisou de três meses de reabilitação amorosa, mas por fim conseguimos cortar todas nossas ervas daninhas e manter as flores do nosso amor.

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