Em um dia qualquer ao meu estúdio, trabalhando, a campainha
toca. Sem ânimo levanto para atender e quando estou quase à porta eu ouço meu
celular tocar, mas logo para.
- Oi - Marcus está à porta.
- O que foi? - Com cara de cansado atendo-o.
- Quero saber se você pode...
- Não, não posso. Tenho muita coisa para fazer, não tenho
tempo. - Interrompo-o com dureza e isso o enrijece. Colocando a cabeça ao lugar
ele se dirige novamente a mim.
- Me desculpe, mas preciso que você resolva um problema ao
centro cultural Palácio Rio Negro. - Faço cara de insolência.
- Mas agora? - Ele concorda com a cabeça e retribui-me a
insolência.
Sobe-me uma gana, mas engulo a seco. Peço para que ele
espere, desligo tudo, fecho o estúdio e vejo o que houve com meu celular. Pelo
jeito ele descarregou. Deixo-o carregando e vou com raiva. Chegando ao palácio
não há nada a se fazer, simplesmente ele me importunou. Logo passo um e-mail
mal criado pelo computador de uma amiga que trabalha aqui.
Voltando para o estúdio lembro-me subitamente de Iana. Sua
memória nunca esteve tão vívida. Seu sabor, seu cheiro, seu toque, sua pele na
minha. Sobe até um calafrio. Mas ignoro e sigo meu caminho.
Chegando ao prédio subo as escadas pensando em sua
fisionomia, mas apesar de tentar esquece-la, não consigo.
Quando chego ao meu andar me deparo com ela, de pé, à frente
a porta do meu estúdio, tocando a campainha, com malas aos pés e um sorrisinho
bobo ao rosto delicado. Logo, sem que ela me veja eu sorrio e imediatamente ela
se vira e vê meus olhos. Nossos olhares se cruzam como naquela primeira vez.
Você abre um sorriso largo e desfila ao meu encontro. Caminho com calma e
beijo-a.
Entramos ao meu estúdio e você admira o trabalho que fiz com
suas fotos e com tantas outras.
- E então, o que você fez para me eternizar? - Pergunto subitamente
enquanto você bebe uma xíc
ara de café cujo dei. Você me mostra o ombro direito
e percebo que dando a volta ao seu braço você tatuou "Costumava saber
tudo, mas quando vi seus olhos a chorar eu percebi que não sei nada. Costumava
ser Armando, mas descobri que posso ser outro alguém que não conheço. Costumava
ser de Manaus, mas começo a sentir como se eu sempre houvesse morado em outro
lugar, mas nunca percebi.".
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