domingo, 12 de maio de 2013

Encontro Part.I



Olhando pela rua. Caminhando pela avenida ainda na chuva, fina como as agulhas que costuram e ferem os dedos das belas senhorinhas que fiam, tecem e unem as belas e caras peças que visto para me proteger do frio intenso da cidade.
Vou caminhando e percebo que a neve começa a cair. Sou um único ponto negro a imagem que embranquece com a neve fofa que cai do céu com calma e, de vez em quando, plana sobre meu rosto.
Caminho até a frente de um bar, olho pela janela e vejo os homens sentados à beira do balcão vendo um jogo qualquer de futebol.
Tiro minha mão esquerda do bolso do casaco e estendo a ao ar. Um floco de neve plana sobre em o meio da palma da minha mão. Permaneço parado, ao frio, ao lado de fora do bar vendo o pequeno e indefeso floco se derreter. É estranho perceber como parece que os outros demais floquinhos parecem desviar da palma da minha mão deixando-o derreter sozinho.
Já quase sem vida, quase uma gota d’água, começam a cair outros flocos próximos a ele e o congelam
novamente. Eles começam a derreter, mas é notória a tentativa de cada um deles de mantê-lo, aquele primeiro, pequeno e frágil floquinho desolado e solitário.
Por fim, todos derretem.  Derretem juntos, deixam minha mão com uma estranha dormência, mas derretem. Deve ser o método de defesa deles, mas sei lá. Simplesmente eles morrem, morrem tentando manter vivo aquele que fugiu deles.
Tornam a cair outros floquinhos a minha mão, mas esses não quero ver. Limpo a mão ao casaco e entro ao bar.
Caminho em silencio até a bancada e uma bela senhorita com olhar sensual me atende.
- Por favor, uma garrafa do seu melhor vinho. – Ela, em silêncio sorri com lascívia e vai para a adega. Fico em silêncio e percebo os olhares de estranheza sobre mim.
- Senhô, porque você veio nesse lugar tão sombrio. Percebo que você não é um velho sujo como eu para abandonar a família na véspera do natal. – Ouço uma voz rouca vir da escuridão.
- Não o venho senhor, mas mesmo assim. Um lugar pútrido chama uma pessoa pútrida. Não julgue pelo que o senhor vê. Saiba que não sou santo. – A garçonete chega novamente e pego a garrafa sorrindo, com gentileza e gratidão, e coloco o dinheiro sobre o balcão.
Estou já à porta e continuo percebendo os olhos da mulher vulgar despindo-me com os olhos. O velho tosse e eu paro.
- Não esqueça nunca. Não há luz ou treva. Somente o querer que seja luz ou escuridão. Se você quiser se ver como sombra, veja-se e seja visto. Se você quer se ver como luz, veja-se e, também, seja visto. Mas não se esqueça, tudo é luz, só há treva quando você quer que haja treva. – Não me aguento e saio à brancura da noite de nevasca à véspera do natal.
Torno a caminhar, agora com uma garrafa de vinho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário