Olhando pela rua. Caminhando pela avenida ainda na chuva,
fina como as agulhas que costuram e ferem os dedos das belas senhorinhas que fiam,
tecem e unem as belas e caras peças que visto para me proteger do frio intenso
da cidade.
Caminho até a frente de um bar, olho pela janela e vejo os
homens sentados à beira do balcão vendo um jogo qualquer de futebol.
Tiro minha mão esquerda do bolso do casaco e estendo a ao
ar. Um floco de neve plana sobre em o meio da palma da minha mão. Permaneço
parado, ao frio, ao lado de fora do bar vendo o pequeno e indefeso floco se
derreter. É estranho perceber como parece que os outros demais floquinhos
parecem desviar da palma da minha mão deixando-o derreter sozinho.
Já quase sem vida, quase uma gota d’água, começam a cair
outros flocos próximos a ele e o congelam
novamente. Eles começam a derreter,
mas é notória a tentativa de cada um deles de mantê-lo, aquele primeiro, pequeno
e frágil floquinho desolado e solitário.
Por fim, todos derretem. Derretem juntos, deixam minha mão com uma
estranha dormência, mas derretem. Deve ser o método de defesa deles, mas sei
lá. Simplesmente eles morrem, morrem tentando manter vivo aquele que fugiu
deles.
Tornam a cair outros floquinhos a minha mão, mas esses não
quero ver. Limpo a mão ao casaco e entro ao bar.
Caminho em silencio até a bancada e uma bela senhorita com
olhar sensual me atende.
- Por favor, uma garrafa do seu melhor vinho. – Ela, em
silêncio sorri com lascívia e vai para a adega. Fico em silêncio e percebo os
olhares de estranheza sobre mim.
- Senhô, porque você veio nesse lugar tão sombrio. Percebo
que você não é um velho sujo como eu para abandonar a família na véspera do
natal. – Ouço uma voz rouca vir da escuridão.
- Não o venho senhor, mas mesmo assim. Um lugar pútrido
chama uma pessoa pútrida. Não julgue pelo que o senhor vê. Saiba que não sou
santo. – A garçonete chega novamente e pego a garrafa sorrindo, com gentileza e
gratidão, e coloco o dinheiro sobre o balcão.
Estou já à porta e continuo percebendo os olhos da mulher
vulgar despindo-me com os olhos. O velho tosse e eu paro.
- Não esqueça nunca. Não há luz ou treva. Somente o querer
que seja luz ou escuridão. Se você quiser se ver como sombra, veja-se e seja
visto. Se você quer se ver como luz, veja-se e, também, seja visto. Mas não se
esqueça, tudo é luz, só há treva quando você quer que haja treva. – Não me
aguento e saio à brancura da noite de nevasca à véspera do natal.
Torno a caminhar, agora com uma garrafa de vinho.
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