- Você foi visita-la? – Ela me olha nos olhos e eu me assusto
com a pergunta repentina. – Eu sei que foi. Sei pela sua cara.
- Hoje seria o aniversário dela.
- Meu amor, sei que eu não posso falar isso, mas ela já se
foi a três anos. Deixe-a partir em paz. Essa era a vontade dela.
- Você não compreende, nós fomos um casal desde nossos dez
anos. Ela foi minha primeira namorada. Sei que ela não iria gostar de me ver
assim, mas eu não consigo esquecê-la.
- Você não precisa esquecer para seguir. Você precisa
simplesmente compreender que ela partiu e que você precisa seguir. Você só vai
deixa-la partir no momento em que olhar para a foto dela e não chorar,
simplesmente sorrir e recordar dos bons momentos.
- Isso é possível?
- Tem que ser. Evelin conseguiu, você consegue.
- Ela é mais forte que eu, é como a mãe.
- Eu perdi minha melhor amiga, agora eu preciso de um amigo
ao meu lado. E eu não aguento mais dormir numa cama com um casal ao meu lado. –
Ela se levanta e vai para o quarto.
Fico aqui a sala refletindo por um momento e vejo o tempo
passar. Dias e semanas voam, o relógio dá voltas e voltas. O calendário perde
folhas como as árvores ao outono e eu continuo ao sofá, em frente à lareira
vendo o fogo se extinguir.
Até que certo dia vejo Érica passar pelas minhas costas com
as malas em punho e lágrimas aos olhos. A chama da lareira equivale á minha
frágil ligação com Lurdes. E Saindo ela se despede de Evelin e em um beijo
jogado ao ar em minha direção ela diz, “Quando, de fato, estiver viúvo. Me
procure.”. E fecha a porta as costas apagando a última, pequena e frágil, labareda
da lareira. E quando só restam as cinzas e algumas brasa, volto-me com toda a
coragem do mundo, com o coração cheio de saudade da minha mulher e com
determinação a minha alma e vou até a joalheria para receber a encomenda que já
tinha feito a meses atrás, mas nunca havia pego.
Chegando ao trabalho Érica pede-me um relatório e que eu
entregue, assim que possível o protótipo do novo brinquedo que está sendo
desenvolvido. Astutamente eu imprimi em uma folha de ofício uma declaração de
amor e no verso escrevi bem grande: “Quer se casar comigo?”. E peguei uma
caixa qualquer de papelão. Dentro enchi de palha e ao meio coloquei a caixinha
com as alianças, aberta, com ambas as alianças e dentro do envelope com a
declaração eu coloquei a aliança do meu antigo casamento.

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