quinta-feira, 2 de maio de 2013

Eu, Érica e falecida Lurdes Part. IV



- Você foi visita-la? – Ela me olha nos olhos e eu me assusto com a pergunta repentina. – Eu sei que foi. Sei pela sua cara.
- Hoje seria o aniversário dela.
- Meu amor, sei que eu não posso falar isso, mas ela já se foi a três anos. Deixe-a partir em paz. Essa era a vontade dela.
- Você não compreende, nós fomos um casal desde nossos dez anos. Ela foi minha primeira namorada. Sei que ela não iria gostar de me ver assim, mas eu não consigo esquecê-la.
- Você não precisa esquecer para seguir. Você precisa simplesmente compreender que ela partiu e que você precisa seguir. Você só vai deixa-la partir no momento em que olhar para a foto dela e não chorar, simplesmente sorrir e recordar dos bons momentos.
- Isso é possível?
- Tem que ser. Evelin conseguiu, você consegue.
- Ela é mais forte que eu, é como a mãe.
- Eu perdi minha melhor amiga, agora eu preciso de um amigo ao meu lado. E eu não aguento mais dormir numa cama com um casal ao meu lado. – Ela se levanta e vai para o quarto.
Fico aqui a sala refletindo por um momento e vejo o tempo passar. Dias e semanas voam, o relógio dá voltas e voltas. O calendário perde folhas como as árvores ao outono e eu continuo ao sofá, em frente à lareira vendo o fogo se extinguir.
Até que certo dia vejo Érica passar pelas minhas costas com as malas em punho e lágrimas aos olhos. A chama da lareira equivale á minha frágil ligação com Lurdes. E Saindo ela se despede de Evelin e em um beijo jogado ao ar em minha direção ela diz, “Quando, de fato, estiver viúvo. Me procure.”. E fecha a porta as costas apagando a última, pequena e frágil, labareda da lareira. E quando só restam as cinzas e algumas brasa, volto-me com toda a coragem do mundo, com o coração cheio de saudade da minha mulher e com determinação a minha alma e vou até a joalheria para receber a encomenda que já tinha feito a meses atrás, mas nunca havia pego.
Chegando ao trabalho Érica pede-me um relatório e que eu entregue, assim que possível o protótipo do novo brinquedo que está sendo desenvolvido. Astutamente eu imprimi em uma folha de ofício uma declaração de amor e no verso escrevi bem grande: “Quer se casar comigo?”. E peguei uma caixa qualquer de papelão. Dentro enchi de palha e ao meio coloquei a caixinha com as alianças, aberta, com ambas as alianças e dentro do envelope com a declaração eu coloquei a aliança do meu antigo casamento.
 

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