Porque quando entramos em um breve momento de êxtase logo
vem a onda para nos levar novamente a realidade triste e fria?
Por que você não está aqui para esquentar minhas noites
tristes frias e, agora, sem vida...?
A dor da sua partida foi estonteante, foi dilaceradora, foi
inenarravelmente devastadora para minha alma. Por que você me abandonou, por
que abandonou todo o que construímos juntos? Poderíamos ter um futuro se você
não tivesse nos abandonado.
Quando eu vi, ainda ébrio de sono, você saindo pela porta,
com as malas, quando eu vi você contra a luz, sua silhueta aparente na luz
amarelada do corredor do condomínio escuro por ser 02:30 da manhã. Não dei
muita atenção ao fato no início, achei que fosse brincadeira da minha mente,
achei que fosse só um sonho. Mas não, você se foi e não me deixou nada, me
deixou aqui, só, em um apartamento, apertado, escuro, sem vida, sem dinheiro,
sem nada, só com contas atrasadas.
Você nos deixou e o fez na hora certa, estou sem dinheiro
até para comer, estou sem grana para poder viver da pior forma possível.
Deveria ter que começar a mendigar, mas até para isso sou inútil. Não, não
sirvo para mendigar, deixe-me aqui apodrecendo como você já fez antes. Deixe-me
aqui morrendo lentamente, vivendo meu luto, passando fome e frio sem ter você,
se quer, você tão magrinha, para me aquecer os ossos aparentes em minha pele já
desnutrida.
Ninguém vem ver de onde vem esse mau cheiro, ninguém vem ver
se estou vivo ou morto, ninguém vem me ver... Deveras não sabia que era inútil
a ponto de não conseguir, se quer, amigos de verdade.
Gostaria de poder recomeçar, de poder voltar ao ponto de
partida e recomeçar o jogo, recomeçar a vida, mas não dá. Gostaria de ter uma
nova chance, mas nem isso dá. Já é tarde, ele veio me buscar, veio com sua toga
negra, uma espada prateada afiada na mão esquerda e a direita vazia, esperando
para carregar-me. Com ele está Cérberus, o seu cão guardião. Ele parece feliz
em me ver, mas não mantemos muito contato, simplesmente ele me pega pela pele
que está sobressalente em minha nuca e leva-me arrastando meu corpo sem vida
até os portões do submundo.
Finalmente em casa, um lugar estranhamente familiar, quente,
fedorento, barulhento, tumultuoso, mas é o meu verdadeiro lar.
Apesar de agora estar em casa com meus verdadeiros pais,
nunca vou esquecer os poucos e ótimos momentos que estive com ela. Ela/você,
que parecia tanto com mamãe, tanto com Perséfone, minha mãe, mera mortal, mera
prisioneira de Ades, mera prisioneira de meu pai, prisioneira de seu amor
doentio.
Eleonor, quero novamente sentir o cheiro de seus cabelos
negros, quero ver seus olhos castanhos olharem para os meus deixando escapar
todos os seus pensamentos sórdidos e mais íntimos, quero novamente poder beijar
seus lábios sem temer o futuro, quero tomar seu corpo como meu, como um dia
fizemos, quero poder te chamar de minha amada sem te sufocar e assim podermos
viver como marido e mulher, subindo um dia, talvez, até ao Olimpo...

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