Todos os dias tem uma mulher que me acorda de uma maneira
doce e estranha, ela vem com uma delicadeza sutil, vem com carinho revestida de
casamento, revestida de sedas, bordados, rendas e plumas, a cor de suas roupas
é um misto de branco com azul, é um degradê feito pela sobreposição dos
tecidos, ela vem com um olhar doce, fita-me com carinho e dedicação, abaixa-se
ao meu encontro, toma-me em seus braços e sussurra meu nome ao pé do meu
ouvido, acaricia meu rosto e beija meu rosto, com calma eu acordo e olho-a nos
olhos, devagar ela me levanta e desaparece na escuridão da madrugada.
As vezes ela vem embalada por música clássica, outras vezes
por Demi Lovato, mas agora vem por Hermana Sourire “Dominique nique nique” (Risos),
é irônica a música, mas ela vem sempre do mesmo jeito, as vezes dirige-me
algumas palavras em uma língua antiga, outras simplesmente olha-me, mas sempre é
o mesmo ritual.
Ontem eu estava ao banheiro preparando-me para dormir e encontra-la
logo, olhando-me ao espelho percebo que minha barriga está estufada e ao acaricia-la
um sobre salto começa a se mexer sob minha os gomos dos meus músculos. Parece
uma cabeça e isso me apavora. Sinto uma dor descomunal, como se rasgasse, dilacerasse
meus músculos e estivesse tentando sair. Agora aparece a forma de uma mãozinha
sob a pele e a dor só aumenta. Tento gritar, mas não tenho forças. O suor
escorre da minha testa pelo resto do meu corpo como se eu estivesse sob chuva.
O frenesi do pânico não para de correr nas minhas veias. Meus olhos ficam cada
vez mais vermelhos de sangue, é quando olho por sobre os ombros pelo espelho.
É ela...
Ela está aqui, ao fim do corredor, está á frente da
escuridão. Seguro com uma mão a criatura que tenta sair de mim e com a outra,
sem me virar, sinalizo para ela esticando a mão em direção ao espelho e percebo
que ela faz o mesmo movimento.
Estranho, fico muito espantado. Boquiaberto.
Deixo escorrer umas lágrimas e percebo que ela faz o mesmo.
Sua pele já não é mais pálida e sim azul, sua carne está podre e aparenta estar
quase decomposta. Ela tira a mão da barriga e olha, está sangrando, ela abaixa
ambos os braços e olha para mim pedindo socorro. Suas lágrimas são sangue de
uma noiva que nunca fora desposada, mas morta por amor sem compaixão.
Ela desfalece ao chão e corro pelo espelho até seu encontro.
Sinto o espelho estilhaçar em meu corpo e transformar minha parede em um
corredor em penumbra. Tomo-a em meus braços e ajeito seu cabelo que está caído sobre
o rosto. Olho-a com piedade e dor.
- Você não tem medo de mim? – Pergunta quase sem forças,
seus olhos estão quase fechados e sua pele está quase voltando ao normal.
- Por que teria? Você é minha amada da meia noite não? –
Apaixonado respondo com completa sinceridade. E vejo-a fechar os olhos sorrindo
com os lábios cintilando um vermelho rubro.
Ela adormece para sempre e eu desabo em pranto e morro em
dores sentindo a criatura arrancar-me o coração e devorar.
Semimorto consigo ver a criatura sair de debaixo do corpo
dela sujo de sangue, estou debruçado sobre o cadáver da minha noiva da
madrugada e parto para o além fitando os sádicos olhos dessa criatura
repugnante que sorri enquanto se delicia vendo-me esvair em sangue, dor, agonia
e sentindo a minha vida escorrer pelo buraco em meu abdome.
Por fim fecho os olhos e parto para descanso com uma forte
dor ao peito oco.
Acordo desesperado ao colo dela e fito seus grandes olhos
azuis assustados. Ela coloca o cabelo atrás da orelha e sorri e acaricia minha
fronte deslizando a mão sobre minha bochecha.
- Tudo bem, foi só um pesadelo, estou aqui com você... – Sua
voz é bem mais macia do que me lembrava. Ela me levanta e novamente desaparece
na escuridão da minha casa submersa na madrugada.
Fico parado ao corredor com a luz apagada esperando um beijo
dela, mas nada acontece. Sinto uma leve e deliciosa brisa embalar-me, é quase
um beijo. Esboço um sorriso bobo e acendo a luz para começar os preparativos
para sair á trabalho...
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