terça-feira, 26 de março de 2013

Bom pranto Part. I



Não gosto de te ver chorosa assim, uma mulher tão feliz e determinada na vida como você, não merece ficar tão triste como um ser pútrido como eu.
Nesse domingo eu fiquei muito feliz por você ter vindo me visitar, pena que você estava com tantas lágrimas aos olhos. Mesmo com tanta tristeza e com esse ar fúnebre que está no salão da igreja você e nem ninguém deixou que minha vontade mais súbita fosse esquecida.
Sim, você bailará, dançará meu último baile e festejará com lágrimas ao rosto minha partida.
Por favor, não chore minha bela amiga, não chore, pois isso borra a maquiagem que você fez para se despedir de mim pela última vez.
Apesar de ninguém perceber eu vejo tudo, cada segundo, cada lágrima, cada despedia.
Até sinto meu coração, que não palpita mais, apertar-se em um só nó na garganta.
 Deitei-me a vida sobre esta caixa forrada como meu leito final.
Levaram-me, vestiram-me, cuidaram de mim como quem cuida de um qualquer e trouxeram-me para a igreja.
Fui acompanhado pela minha família até que a treva dissipou-se com os primeiros raios de sol e meus amigos, colegas, conhecidos e familiares mais distantes foram se achegando devagar.
Você veio encolhida sob o braço de Vitor, que a enroscava em um abraço. Você veio chorosa e triste, mesmo assim veio despedir-se pela última vez.
Chorou-me o desterro e o pranto caiu sobre o meu corpo já sem vida. Suas lágrimas quentes já não me trazem nenhuma sensação, pois meus nervos já estão mortos. Meu corpo está aqui testemunhando o pranto de cada um de vocês, mas está deitado sobre a morte, que chora sobre minha alma. Porque eu não sei.
Minha irmã finalmente recompõe-se e alerta sobre minha vontade. Briga as lágrimas dos presentes. Liga o som e prepara Larissa para dançar.
Aqui se encontram todo tipo de artista e sim, é um sarau em minha memória. Meu último sarau.
Primeiro declamam poemas e leem textos de minha autoria. Posteriormente vários atores falam sobre mim e expressam os pêsames e até choram as dores da minha perda.
Cantores cantam diversas músicas de meu melhor gosto, cantam até músicas que ajudei a compor. Cantam poemas que escrevi, ajeitam textos meus e cantam contos e crônicas que escrevi com tamanha atenção. Atenção á mesma que eles reajustaram para cantar em minha memória.
Escritores e compositores declamam obras próprias sobre mim, eu como muso inspirados. Inspirando e fazendo-os espirar. Até hoje.




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