Ele fica me olhando como quem não quer nada, com essa cara
de sujinho, faz seu serviço, deixa-me satisfeito, as vezes me machuca um pouco,
me deixa um pouco vermelho, suado, marcado e fedido, mas sempre faz com
perfeição seu serviço. Por isso implora-me, sem dizer nada, por um banho.
“Um bom banho de vez em quando”, tudo o que ele me pede, “pode
ser gelado, pode ser de mangueira, pode ser como quiser e se tivermos sorte
podemos ficar juntos ao sol”, sei que ele me pede, mas nunca fala nada,
simplesmente transpassa sua necessidade.
“Necessito de suas mãos fortes esfregando-me, tirando-me
essas manchas que você mesmo me fez.”, mas eu enrolo-o e acabo quase nunca o
banhando. Sinto que as pessoas olham-nos torto quando passamos na rua. Ele é
bonito, mas sua sujeira faz com que os outros prejulguem-no.
Ninguém o conhece como eu, conheço cada parte sua, do oiapoque
ao chui. Cada marca, cada mancha, cada protuberância. Tudo...
Sinto por não satisfaze-lo como deveria, mas nem sempre
estou disposto e com todo mundo é assim, nem adianta me julgarem. Não acho que
ele feda, mas sei que está sujo, sinto que preciso limpá-lo, sei que ele me
suplica ajuda sem emitir sons inteligíveis, mas não faço nada além de olhá-lo.
Até que não aguento mais ficar olhando todas aquelas manchas
escura, todo aquele branquinho de fábrica que já está quase extinto, seus cadarços
nunca mais foram os mesmos, mas fazer o que, já deixei-o de molho e nesse domingo,
com certeza eu lavo esse tênis. Aí sim todos vão poder ver seu verdadeiro
valor, um Nike de verdade, desde que ninguém no ônibus suje-o...
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