A serra foi liberada e as aulas rolam como a água que desceu
pelos morros trazendo desgraça para a cidade onde estudo. Mas apesar de gostar
tanto da faculdade eu não quero ir. Dói muito ao meu coração ver toda a necessidade
dentro da minha casa e eu não podendo fazer nada, pior, só sugo mais, mas fazer
o que eu preciso e é para o meu bem, mas isso me dói.
Dói eu ver a dificuldade da minha família e eu não poder
fazer nada, dói eu ver o quanto elas estão se desdobrando para que tenhamos um
futuro e eu só fico usufruindo e não consigo fazer nada.
Esse sentimento de impotência parece que vai me enlouquecer,
parece que vou me matar. Pareço um homem castrado.
Dói, mas as lágrimas são secas e não molham a pele que
habito. Dói mas a amargura só é vista como derrota.
Não estou entregando os pontos, mas é que dói ver a dor dos
outros. Com certeza dói mais em mim do que em todas elas.
Nunca gostei de viver na aba dos outros, mas isso agora é
mais que necessário é essencial. Se um dia quero ser alguém eu preciso começar
do zero. Só que nunca pensei no quanto o zero seria doloroso e triste.
Dói ver minha avó precisando de tantas coisas e o máximo que
posso fazer e sonhar, almejar e escrever. – Como se isso ajudasse em alguma
coisa.
É como se uma faca invisível traspassasse meu coração,
atravessasse meu corpo, desse a volta e tornasse a perfurar em um ciclo
infinito.
Condições são precárias e contra necessidades não se discute,
mas, pro enquanto, abafarei meus sonhos, minhas vontades e desejos para poder
viver a realidade e tentar ajudar da forma que poço. Irei para de fantasiar com
o leitor e quem está do outro lado do computador. Irei parar de fantasiar em
viver da internet e viver de escrever. Irei enfrentar a realidade dura e fria
do mundo de concreto. Irei fazer o que tiver de fazer para poder dar uma vida
dessente para aquelas que deram-me a vida que tenho...
Gostaria de, ao menos por uns momentos, ser como meus
pequenos animais, tão despreocupados mendigando amor e carinho, roçando-se sob
minha mão ou pé, pedindo-me uns pobres minutos de atenção. – Quem me dera esse
ser meu único problema. –
Gostaria de ter o mesmo olhar despreocupado do meu gato,
gostaria de ter o mesmo olhar tranquilo de filhote, gostaria poder gritar “MAMÃE”
e correr para a barra de seu vestido de seda, mas isso é muito alegórico para
mim, é, sempre foi e sempre será.
Esse mundo é muito traiçoeiro, nele estou só, sempre
estivemos sós, ás vezes aparecem pessoas diversas para te ajudar a subir e a
afundar, mas nunca permanecem. Sempre haverá um momento em que você vai
precisar de uma mão para enxugar suas lágrimas e não haverá, você vai precisar
de um ombro amigo e ele não estará lá com você.

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