sábado, 16 de março de 2013

Dançando com a vida. Part I - Female

Acordo ainda escuro, envolta por delicados toques de piano. Acordo sorrindo.
Espreguiço-me no ritmo da música entoada em suave voz inocente e juvenil.
Parece mágica a magnifica forma que me levanto em piruetas conforme a bateria toca. Conforme rodo o baby doll tranforma-se em um belo TUTU de seda rosa e transparente.
A cada tom mais forte é um gesto impar, com as mãos, um passo, um jogar de cabelo, um giro ou uma reverência á escuridão. Às vezes até um olhar mais atrevido serve.
Você me conduz de uma forma surreal, hipnótica, transcendentemente estranha por não estar aqui.
Sinto suas mãos tocarem minha cintura e é presente a percepção de você segurar minha mão para que eu possa rodar.
Até que tropeço em meus próprios pés e vou de encontro ao chão. Mas um rapaz estranho aparece da escuridão e me segura antes de meu corpo desabar sobre o taco.
Ele me levanta e de pé me recuo. A música para. Olho-o de baixo á cima. Assustada fico sem reação, imóvel.
A música torna a tocar e minhas piruetas são mecânicas, inconscientes e contra minha vontade elas levam-me aos braços dele.
Dançamos por longos segundos, que se estendem em minutos, horas, dias e esvaem-se por anos.
Minha face transparece a dor de dançar com um estranho por todos esses anos e amar quem não dança comigo. Meus pés doem mas não param de me fazer dançar e rodar para cair nos braços dele.
A tua fisionomia é a de quem não entende, mas mesmo assim também não para de dançar conforme a música.
Um tumulto surge e aplaude nossa apresentação. Porém, mesmo após a reverência de agradecimento devemos continuar dançando no curso do rio. Mesmo não nos amando.
Ele é adorável, bonito, delicado e bem educado, mas quem eu amo não está sob o holofote do palco. Digo mais, creio que meu amado esteja apaixonado por outra, deve estar hipnotizado pelo balanço de qualquer potranca fútil.
 Meu parceiro começa com um beijo na mão, sucedido por um beijo ao pescoço e uma gravidez por média.
Assim nasce o filho de um casamento sem amor, de um casamento por conveniência da dança.
Continuamos a dançar até nosso filho crescer, os beijos na mão se sucederam até nossa velhice, onde nosso filho, médico universitário, cuida de nós.
Morremos no esquecimento do mundo. - Mais dois bailarinos, dançando morreram na penumbra do mundo.
Desfaleço em teus braços, parceiro meu, e ele envolve-me com teus esguios braços em um forte abraço de ternura eleva-me, junto a ele, para a cova da eternidade.

Só sei dançar com você, isso é o que a Conveniência faz!

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