domingo, 5 de janeiro de 2014

Surpresa da internet - Part. I

Em noites insones madrugada adentro, com a tv ligada, na penumbra do quarto dividido por mim e dois de meus irmãos. Quase no mudo passando desenhos animados infantiloides. Com o computador ao colo, as pernas cobertas por um lençol qualquer e os olhos atentos as atualizações nas redes sociais. Vendo mil coisas, jogando online, lendo blogs, lendo reportagens, navegando sem norte algum ao ciberespaço. Com os fones ao ouvido ouvindo uma música qualquer.
A madrugada se adensa e a noite parece cada vez mais escura e quente. A lua não veio nos dar o ar da graça hoje. Morgo com os olhos entreabertos sem se quer ver nada. Com a visão embaçada na penumbra arrisco-me tentar observar pela janela e não vejo nada além da noite escura do outro lado.
 De repente levo um susto que me faz saltar na cama e abrir bem os olhos. Um barulho alto de uma atualização em uma das redes sociais cujo participo me desperta. A tv ainda está ligada, agora passando um desenho que nunca ouvi falar. Vou verificar a atualização e percebo que fui adicionado por uma menina loira, mas não reconheço-a de lugar nenhum. Ao abrir o perfil dela vejo que é uma caloura, como eu, do mesmo curso que eu. – Deve estar querendo fazer amizade com outras pessoas da faculdade. – Penso e aceito-a sem pensar duas vezes.
Sem muita paciência não fuxico seu perfil, ou sua linha do tempo, ou seu álbum. Na verdade ignoro-a, apenas aceito e cansado pela hora avançada desligo o computador, a tv e colocando o computador sob a cama durmo virado para a parede.
O dia amanhece e tenho uma sensação estranha, mas não sei o que é, nem se quer sei explicar o que sinto. Mas fico com essa sensação me perseguindo. As pessoas parecem estar andando em câmera lenta e as cores parecem desbotadas, o dia parece sem alegria, as coisas parecem sem sabor e os perfumes com cheiro de papel de ofício.
Desanimado, com os olhos caídos tomo meu café da manhã em silêncio como se não fosse nada além de mais um figurante no meio do tumulto da minha casa. Todos apressados comendo correndo, gritando e ajeitando as crianças para irem para escola. E quando consigo fugir de tudo aquilo pego, com o rosto limpo de qualquer expressão sentimental, o ônibus com os fones de ouvido bem posicionados e sentado ao mesmo lugar de sempre, terminando de ler um livro qualquer. Não sei se faço isso por costume, por que gosto ou para evitar conversas constrangedoras durante a viagem. Simplesmente faço. – Reflito ao término do livro e da viagem, enquanto caminho, ainda com os fones de ouvido bem posicionados, pelo campus.
Meus amigos estão conversando ao longe em uma rodinha esperando a aula começar, Sandra começa a pular e acenar para mim, retribuo o aceno sem graça. Chegando lá se quer tiro os fones de ouvido e, quase inaudivelmente, desejo um bom dia a todos.
Sinto as horas passarem e o tempo a agir em mim corroendo minha vida aos poucos até que vou embora conversando com os amigos e vejo ao longe a tal menina que me adicionou de madrugada conversando com outras meninas próximo ao quiosque das árvores. Ao vê-la meu coração acelera e encaro-a boquiaberto com tamanha beleza. Ela joga o cabelo loiro e, como no cinema em câmera lenta, ao me ver ela abre um largo sorriso com as bochechar rosadas e acena sutilmente. Retribuo o sorriso sem graça e aceno seguindo meu caminho com aquela menina na cabeça e o coração palpitando forte.  Por alguns segundos, enquanto caminhava com meu grupo de amigos arrisquei olhar outras vezes por sobre os ombros e a vi olhando para mim e rindo. Retribui os sorrisos sem graça e segui meu caminho.
Ainda com aquilo na cabeça fui para casa ouvindo música e almocei pensando naquele sorriso que jamais vi igual em nenhum lugar, ou filme, ou viagem que já fiz. As horas passam e leio um pouco vendo aquele olhar profundo e alegre nas páginas amareladas dos livros que leio com tanta sede. Quando finalmente ligo o computador e abrindo minha página em uma rede social a janela do bate papo salta e ela diz oi.
Conversando bastante não vejo as horas passarem e com o tempo conversamos de tudo um pouco, sobre filmes, música, faculdade, arte, comida, vida noturna, personagens, artistas, de tudo um pouco e rio bastante sozinho do outro lado da tela. E sem perceber consigo me desligar de todo o universo que está a minha volta só para estar aqui conversando com ela. A hora avança e a noite cai, ela avisa que vai desligar-se para tomar banho e dormir, logo faço o mesmo. Ao deitar-me, no calor de sempre das noites daqui, viro-me automaticamente para a parede e percebo a luz do luar e sem pensar muito viro-me e fico olhando por através da janela que está iluminada pela luz do luar que ilumina toda a cidade com sua graça. Dá para ver as nuvens a sua volta e as árvores, perfeitamente, que quase adentram meu quarto pela janela.

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