Em noites insones
madrugada adentro, com a tv ligada, na penumbra do quarto dividido por mim e
dois de meus irmãos. Quase no mudo passando desenhos animados infantiloides.
Com o computador ao colo, as pernas cobertas por um lençol qualquer e os olhos
atentos as atualizações nas redes sociais. Vendo mil coisas, jogando online,
lendo blogs, lendo reportagens, navegando sem norte algum ao ciberespaço. Com
os fones ao ouvido ouvindo uma música qualquer.
A madrugada se adensa e
a noite parece cada vez mais escura e quente. A lua não veio nos dar o ar da graça
hoje. Morgo com os olhos entreabertos sem se quer ver nada. Com a visão
embaçada na penumbra arrisco-me tentar observar pela janela e não vejo nada
além da noite escura do outro lado.
De repente levo um susto que me faz saltar na
cama e abrir bem os olhos. Um barulho alto de uma atualização em uma das redes
sociais cujo participo me desperta. A tv ainda está ligada, agora passando um
desenho que nunca ouvi falar. Vou verificar a atualização e percebo que fui
adicionado por uma menina loira, mas não reconheço-a de lugar nenhum. Ao abrir
o perfil dela vejo que é uma caloura, como eu, do mesmo curso que eu. – Deve
estar querendo fazer amizade com outras pessoas da faculdade. – Penso e
aceito-a sem pensar duas vezes.
Sem muita paciência não
fuxico seu perfil, ou sua linha do tempo, ou seu álbum. Na verdade ignoro-a,
apenas aceito e cansado pela hora avançada desligo o computador, a tv e
colocando o computador sob a cama durmo virado para a parede.
O dia amanhece e tenho
uma sensação estranha, mas não sei o que é, nem se quer sei explicar o que
sinto. Mas fico com essa sensação me perseguindo. As pessoas parecem estar
andando em câmera lenta e as cores parecem desbotadas, o dia parece sem alegria,
as coisas parecem sem sabor e os perfumes com cheiro de papel de ofício.
Desanimado, com os
olhos caídos tomo meu café da manhã em silêncio como se não fosse nada além de
mais um figurante no meio do tumulto da minha casa. Todos apressados comendo
correndo, gritando e ajeitando as crianças para irem para escola. E quando
consigo fugir de tudo aquilo pego, com o rosto limpo de qualquer expressão
sentimental, o ônibus com os fones de ouvido bem posicionados e sentado ao
mesmo lugar de sempre, terminando de ler um livro qualquer. Não sei se faço
isso por costume, por que gosto ou para evitar conversas constrangedoras
durante a viagem. Simplesmente faço. – Reflito ao término do livro e da viagem,
enquanto caminho, ainda com os fones de ouvido bem posicionados, pelo campus.
Meus amigos estão
conversando ao longe em uma rodinha esperando a aula começar, Sandra começa a
pular e acenar para mim, retribuo o aceno sem graça. Chegando lá se quer tiro
os fones de ouvido e, quase inaudivelmente, desejo um bom dia a todos.
Sinto as horas passarem
e o tempo a agir em mim corroendo minha vida aos poucos até que vou embora
conversando com os amigos e vejo ao longe a tal menina que me adicionou de
madrugada conversando com outras meninas próximo ao quiosque das árvores. Ao
vê-la meu coração acelera e encaro-a boquiaberto com tamanha beleza. Ela joga o
cabelo loiro e, como no cinema em câmera lenta, ao me ver ela abre um largo
sorriso com as bochechar rosadas e acena sutilmente. Retribuo o sorriso sem
graça e aceno seguindo meu caminho com aquela menina na cabeça e o coração
palpitando forte. Por alguns segundos,
enquanto caminhava com meu grupo de amigos arrisquei olhar outras vezes por
sobre os ombros e a vi olhando para mim e rindo. Retribui os sorrisos sem graça
e segui meu caminho.
Ainda com aquilo na
cabeça fui para casa ouvindo música e almocei pensando naquele sorriso que
jamais vi igual em nenhum lugar, ou filme, ou viagem que já fiz. As horas
passam e leio um pouco vendo aquele olhar profundo e alegre nas páginas
amareladas dos livros que leio com tanta sede. Quando finalmente ligo o
computador e abrindo minha página em uma rede social a janela do bate papo
salta e ela diz oi.
Conversando bastante
não vejo as horas passarem e com o tempo conversamos de tudo um pouco, sobre
filmes, música, faculdade, arte, comida, vida noturna, personagens, artistas,
de tudo um pouco e rio bastante sozinho do outro lado da tela. E sem perceber
consigo me desligar de todo o universo que está a minha volta só para estar
aqui conversando com ela. A hora avança e a noite cai, ela avisa que vai
desligar-se para tomar banho e dormir, logo faço o mesmo. Ao deitar-me, no
calor de sempre das noites daqui, viro-me automaticamente para a parede e
percebo a luz do luar e sem pensar muito viro-me e fico olhando por através da
janela que está iluminada pela luz do luar que ilumina toda a cidade com sua
graça. Dá para ver as nuvens a sua volta e as árvores, perfeitamente, que quase
adentram meu quarto pela janela.
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