Sinto o sol queimar meu
rosto e antes que meu despertador toque me levanto, um pouco desnorteado e
tonto. Uma dor de cabeça castigante lateja em minhas têmporas. Vou ao banheiro,
lavo meu rosto e escovo os dentes ainda de olhos fechados. Tomo café e
banho-me. Ao terminar limpo o espelho embaçado e olho meus olhos. Iguais aos do
meu pai. Isso me dói. Volto a minha rotina e visto o mesmo terno cinza de
sempre, pego as mesmas conduções e vou para o trabalho. Um pouco mais
silencioso e recatado.
- E aí cara, algum
sonho estranho de novo? – Ricardo brinca.
- Sabe que não me
lembro do que sonhei. Só sei que acordei com uma baita dor de cabeça que não me
deixa.
- Aqui. – Ele me dá um
remédio. Como se já estivesse esperando por isso. – Ah! E meus sentimentos pelo
seu pai. – Ele faz uma cara de consolo e sorrio levemente acenando com a cabeça
e volto para o trabalho.
O dia corre em torno de
papeis e relatórios no computador, e-mails e mais relatórios. Até que chega o
horário do almoço. Enrolo e vou sozinho. Vou até um restaurante aqui próximo ao
escritório e ao sair encontro um aglomerado de pessoas em volta de um homem maltrapilho
falando. Paro para ouvi-lo um pouco.
- ... E os sonhos, às
vezes, podem ser como uma mulher, linda e envolvente. Ela quer que você
acredite naquela mentira. Quer que você viva aquela realidade paralela. E por
mais que você queira, ela nunca será real. Mas, muito mais do que isso, ela
passa ser seu tudo, ela passa ser sua realidade, suas esperanças, passa ser a
única coisa que você tem, seu único tesouro.
Poderia até ser algo
bom não é? – As pessoas acenam com a cabeça em concordância como pobres
cordeirinhos sendo envolvidos por um lobo prestes a lhes devorar. – O único
problema é que a mesma pessoa, linda e envolvente, que te dá sua realidade te
desliga dela. Ela tem consigo a única saída de seu mundo lindo e perfeito. Uma saída
fria e dilacerante. Algo que ela carrega em seu lado direito. A verdade. A sua
única forma de te manter com ela e controlar em fica e quem vai.
- Nunca ouvi tamanha
besteira. – Falei mais alto do que pretendia e saio dando-os as costas.
O dia passa e sinto que
algo me falta, mas não sei o que é. Enquanto caminho na trilha de concreto por
entre as árvores vou pensando que sinto como se um pedaço de mim estivesse
morrido. Como se algo que carreguei comigo a vida inteira me dando esperança e
mais vontade de viver tivesse se esvaído de mim. Mas que está prestes a ressurgir
a qualquer momento como uma fênix. Sem hora ou data marcada.

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