Estou caminhando pela rua solitária no escuro da noite. As
lojas se fecham na avenida e aos poucos o único som que se pode ouvir ecoar até
a igreja do santo rosário ao fim da larga rua são meus passos tristes e sem
rumo.
Com o coração apertado sento-me a um banco, sozinho, ao meio
da praça Dom Pedro. – Nunca vi essa praça tão silenciosa ou vazia. – Meus olhos
vasculham com cuidado e calma todo o perímetro ao meu redor, mas estou
completamente sozinho. Nem amigos, nem familiares, nem amores, ninguém. Apenas
eu e minhas dores da solidão na noite euro-brasileira. Minha única companhia,
um dia, foi a lua, mas hoje, até ela se esconde de mim. Apenas as pequenas e
fracas luzes artificiais que iluminam a cidade escura me acompanham.
Sinto a primeira gota quente a cair sobre minha mão parada
em cima da minha coxa esquerda. Duvidoso olho para o seu e sinto queimar as
luzes esmeralda dos meus olhos. Logo vejo mais uma gota cair do alto céu sobre
meu rosto e gradativamente a chuva toma forma e desaba sobre mim. Sem pensar
muito, semi molhado, abro o grande guarda-chuva vermelho e abrindo um sorriso desconcertado e irônico sento-me outra vez.De repente, no silêncio da noite e no barulho da chuva ouço um “toc, toc”. Imediatamente mentalizo um sapato feminino caminhando sobre o calçamento, mas recuso-me olhar. Mas o som está cada vez mais próximo de mim e a chuva cada vez engrossa mais. De repente sinto como se estivesse parado, com um calafrio subindo a espinha e arrepiando todo meu corpo me levanto bruscamente ficando frente a frente.
Quando percebo é você, com seus olhos castanhos doces como o
mais puro mel dos deuses olimpianos. Você está conversando comigo, mas não
consigo entender. Como, onde? O que houve? Parece que não há mais problema algum,
que não há mais preocupação nenhuma, parece que o mundo parou em nosso
encontro.
A chuva acalmou em finos pingos de sereno, mas mantivemos
nossos guarda-chuvas abertos. É perfeito o contraste entre seu cabelo negro,
seus olhos castanhos, seus lábios avermelhados com sua pele alva e seu
guarda-chuva azulão. Mantenho minha expressão de confusão mental e você para de
falar em um singelo e suave sorriso aveludado desenhado a mão nesses lábios
rosavermelhados. Inclina a cabeça para a direita e fita-me os olhos com um
olhar doce e acolhedor. Finalmente sinto desmoronar todas as muralhas de
proteção que criei ao longo da vida e vejo-o abrir um largo sorriso.
Meu coração palpita desritmado, com velocidade e força
insólita. Sinto-me um pouco tonto e de repente percebo que me vejo fitando-o e
sorrindo com suavidade. Minha pele morena e aveludada, meus lábios vermelhos,
meus olhos queimando um verde extraordinariamente único. Um verde que só brilha
quando vê você. Vejo-nos em terceira pessoa e percebo como se estivesse subindo
para o céu, quando nos aproximamos, nossos guarda-chuvas se encontram e
sobrepõem-se. Sinto como se meu coração parasse, algo toca minha boca com suave
sensualidade e uma lágrima, pura e cristalina, escorre dos meus olhos.
Quando percebo acordo novamente entrelaçado nos meus lençóis,
sozinho, ainda meio tonto, suando, com palpitação e o corpo cansado como se tivesse
corrido uma maratona inteira. Minha excitação é aparente sob a roupa. Mas, o
mais impressio
nante é que não consigo parar de sussurrar seu nome para mim
mesmo, apenas para desejar que aquilo fosse verdade...
- Guilherme... Guilherme... Guilherme... Gui... Gui... GUI!
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