sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Acordando - Part. I



Caminhando descalço, desolado, sem ponto de partida ou de chegada. Com os olhos cheios de dor e lágrimas. A boca seca, o coração apertado a palpitar com força e uma velocidade estranha. Sinto como se estivesse em um frenesi, como se estivesse submerso. Todo meu corpo está dormente, toda minha dor fecha meus olhos.
Sem lugar para olhar e mesmo que dirija meus olhos a algum ponto fixo nada enxergariam além de dor, sofrimento e beleza. A beleza da dor, a beleza da rigidez, a beleza da natureza que é destruída, de toda morte, da natureza que resiste...
Sinto medo de olhar para trás e me deparar com meu passado, sinto dor por não conseguir enxergar um futuro. Sinto medo e solidão na madrugada fria.
Caminho mais um pouco até um meio fio e sento-me. Cansado e com calos aos pés tento descansar, mas não consigo fazer nada além de chorar. Assim, inclino minha cabeça e deixo as lágrimas de dor e confusão lavarem meu corpo como um banho na mais límpida cachoeira. Cascata esta de sofrimento e com pureza intocada pelo homem.
Ao longe ouço se aproximar, com os toc tocs do salto ao asfalto duro e úmido. Ela que chega com sua graça, em seu vestido esvoaçante, suas sandálias de gladiadora, sua língua flamejante, e seus olhos perfuradores. Sua espada dilacera tudo o que vê na escuridão da noite. Seu fio é perfeito e maligno. Não há mancha de sangue, mesmo depois de ter ceifado tantas e tantas almas. Seu prazer é apenas sentir o sangue quente e com aroma metalizado escorrer pela sua pele de seda branca.
Seu caminhar é suave e calmo e eu não a temo mais, continuo na minha patética posição, só que não choro mais. Deixo as últimas lágrimas escorrerem e engulo meu medo para honrar minha família, honrar quem um dia fui, para tentar erguer quem ainda pode ter um futuro.
- Está pronto? – Ela diz com voz suave e aveludada. Levanto-me devagar, sem limpar o rosto. Com a pouca roupa que estou vestindo e olho-a nos olhos.
Ela larga a espada ao chão e corre ao meu encontro com lágrimas aos olhos. O único barulho vivo a essa hora da madrugada é o dos seus sapatos tocando ao solo. Finalmente ficamos frente a frente. Ela envolve meu rosto com suas mãos e olha-me com carinho, seus olhos verdes estão cheios de lágrimas e algumas escorrem pelo seu rosto virginal.
- Não me deixe, por favor. Nunca conheci ninguém como você. – Ela me abraça com força. Não retribuo.
- Sabe que não posso mais viver assim, sabe que não fui eu quem decidiu te abandonar. – Respiro fundo com o coração partido latejando ao peito.
- Não posso deixa-lo partir. – Seu abraço é cada vez mais forte.
- Não posso mais... – Derramo algumas lágrimas e finalmente retribuo o abraço como quem sente falta de uma amiga de infância.
- Sempre estivemos juntos... – Sua dor dilacera-me.
- Você, mesmo sendo, sempre, meu porto seguro e meu conforto. Você é a portadora das minhas esperanças, mas ao mesmo tempo é portadora da verdade, fria, dura e dilacerante.
- Não deixarei ela te tocar. Não deixarei ela te machucar novamente. – Ela pega meu rosto e diz olhando nos meus olhos. Posso ver o desespero no fundo das esmeraldas dos seus olhos.
- É tarde demais. – Viro o rosto contra ela e desaponto-a. – Agora eu que a quero. Quero ir de encontro e acolhe-la como uma amiga de tempos remotos. – Sua dor e sua desilusão são aparentes. Mas sem questionar ou falar duas vezes ela voltou-se para espada largada ao chão e somente esticando a mão em sua direção ela voou ao seu encontro.
- Tem certeza disso? – Olhando dentro de minha alma. Aceno com a cabeça em concordância. – Depois de fazer não haverá mais volta. – Olho para baixo e espero-a executar. Aos poucos a grande espada prateada vai se deformando e contorcendo-se em uma pequena adaga Kris. Ela me abraça enquanto chora meu adeus. – Sabia que eu te amo!
- Adeus meu mundo! – Entrego-me e ela enfia a adaga sem piedade, com força e bem fundo nas minhas costas.


Vejo meu corpo cair sem vida sobre o dela que, completamente ensanguentada, grita de dor e desespero. Ela cai ao chão e fico deitado, sem vida, sobre seu colo. Ela tira a adaga das minhas costas e joga-o ao lado. O sangue jorra e seu pranto não tem fim. E finalmente, com meu último sorriso de adeus eu acordo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário