Caminhando descalço,
desolado, sem ponto de partida ou de chegada. Com os olhos cheios de dor e
lágrimas. A boca seca, o coração apertado a palpitar com força e uma velocidade
estranha. Sinto como se estivesse em um frenesi, como se estivesse submerso. Todo
meu corpo está dormente, toda minha dor fecha meus olhos.
Sem lugar para olhar e
mesmo que dirija meus olhos a algum ponto fixo nada enxergariam além de dor,
sofrimento e beleza. A beleza da dor, a beleza da rigidez, a beleza da natureza
que é destruída, de toda morte, da natureza que resiste...
Sinto medo de olhar
para trás e me deparar com meu passado, sinto dor por não conseguir enxergar um
futuro. Sinto medo e solidão na madrugada fria.
Caminho mais um pouco
até um meio fio e sento-me. Cansado e com calos aos pés tento descansar, mas
não consigo fazer nada além de chorar. Assim, inclino minha cabeça e deixo as
lágrimas de dor e confusão lavarem meu corpo como um banho na mais límpida
cachoeira. Cascata esta de sofrimento e com pureza intocada pelo homem.
Ao longe ouço se
aproximar, com os toc tocs do salto
ao asfalto duro e úmido. Ela que chega com sua graça, em seu vestido
esvoaçante, suas sandálias de gladiadora, sua língua flamejante, e seus olhos
perfuradores. Sua espada dilacera tudo o que vê na escuridão da noite. Seu fio
é perfeito e maligno. Não há mancha de sangue, mesmo depois de ter ceifado
tantas e tantas almas. Seu prazer é apenas sentir o sangue quente e com aroma
metalizado escorrer pela sua pele de seda branca.
Seu caminhar é suave e
calmo e eu não a temo mais, continuo na minha patética posição, só que não
choro mais. Deixo as últimas lágrimas escorrerem e engulo meu medo para honrar
minha família, honrar quem um dia fui, para tentar erguer quem ainda pode ter
um futuro.
- Está pronto? – Ela diz
com voz suave e aveludada. Levanto-me devagar, sem limpar o rosto. Com a pouca
roupa que estou vestindo e olho-a nos olhos.
Ela larga a espada ao
chão e corre ao meu encontro com lágrimas aos olhos. O único barulho vivo a
essa hora da madrugada é o dos seus sapatos tocando ao solo. Finalmente ficamos
frente a frente. Ela envolve meu rosto com suas mãos e olha-me com carinho,
seus olhos verdes estão cheios de lágrimas e algumas escorrem pelo seu rosto
virginal.
- Não me deixe, por
favor. Nunca conheci ninguém como você. – Ela me abraça com força. Não
retribuo.
- Sabe que não posso
mais viver assim, sabe que não fui eu quem decidiu te abandonar. – Respiro fundo
com o coração partido latejando ao peito.
- Não posso deixa-lo partir.
– Seu abraço é cada vez mais forte.
- Não posso mais... –
Derramo algumas lágrimas e finalmente retribuo o abraço como quem sente falta
de uma amiga de infância.
- Sempre estivemos
juntos... – Sua dor dilacera-me.
- Você, mesmo sendo,
sempre, meu porto seguro e meu conforto. Você é a portadora das minhas
esperanças, mas ao mesmo tempo é portadora da verdade, fria, dura e
dilacerante.
- Não deixarei ela te
tocar. Não deixarei ela te machucar novamente. – Ela pega meu rosto e diz
olhando nos meus olhos. Posso ver o desespero no fundo das esmeraldas dos seus
olhos.
- É tarde demais. –
Viro o rosto contra ela e desaponto-a. – Agora eu que a quero. Quero ir de
encontro e acolhe-la como uma amiga de tempos remotos. – Sua dor e sua
desilusão são aparentes. Mas sem questionar ou falar duas vezes ela voltou-se
para espada largada ao chão e somente esticando a mão em sua direção ela voou
ao seu encontro.
- Tem certeza disso? –
Olhando dentro de minha alma. Aceno com a cabeça em concordância. – Depois de
fazer não haverá mais volta. – Olho para baixo e espero-a executar. Aos poucos
a grande espada prateada vai se deformando e contorcendo-se em uma pequena adaga Kris. Ela me abraça enquanto chora meu adeus. – Sabia que eu te
amo!
- Adeus meu mundo! –
Entrego-me e ela enfia a adaga sem piedade, com força e bem fundo nas minhas
costas.
Vejo meu corpo cair sem
vida sobre o dela que, completamente ensanguentada, grita de dor e desespero.
Ela cai ao chão e fico deitado, sem vida, sobre seu colo. Ela tira a adaga das
minhas costas e joga-o ao lado. O sangue jorra e seu pranto não tem fim. E
finalmente, com meu último sorriso de adeus eu acordo.
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