segunda-feira, 22 de abril de 2013

Velhos espíritos Part. I



“Saio ainda sem rumo, simplesmente vesti minha jaqueta jeans e meus coturnos de fivela. Não consigo pensar, é muito barulho, muita gente, muito tumulto, muita agitação e quando me deparo estou em frente uma igreja. Está chovendo e meu cabelo negro está colado ao meu rosto. A minha frente tem uma árvore e a “sombra” dela um banco e ao lado um poste. O derredor é de uma rua deserta.
Fico parado molhando-me e respirando fundo. Está começando a esfriar, mas não sei ainda o que fazer. Olho ao relógio de pulso e vejo que são 22:05 ainda. Mas nessa cidade pacata nada acontece, não há uma alma viva aqui, somente eu e meus demônios.
Estou cada vez mais agitado, o banho de chuva e o distanciar não me ajudaram. Começo a correr pela calçada do centro comercial e vejo saindo do boteco um último bêbado. O último bêbado da sexta feira da paixão. Ele foi enxotado pelo dono do bar e jogado a rua na chuva, como eu.
Ele está segurando uma garrafa de alguma bebida que nunca vi. Deve ser tão barato que só naquele bar deve haver.
Vou caminhando vagarosamente pelo terminal rodoviário. Não há tapagem o suficiente, então, continuo me molhando. Os relâmpagos clareiam toda a cidade e a chuva engrossa. A cada relâmpago que rasga o céu é possível ver por de traz de mim a sombra de cada espírito maligno que me atormenta. Cada qual com sua aparência mais aterradora.
O bêbado resmunga e cambaleia tentando ir para o asfalto. Com dificuldade ele consegue chegar até a ponta da calçada e quando finalmente ele vai descer para a rua passa sofregamente um carro cantando pneus e tira um fino de uma palha do velho bêbado.
O velho resmunga e suspira de alívio. Pena que a família daqueles jovens não vão poder suspirar nem sorrir nessa noite. Conheço cada um deles. O rapaz tem 19 anos, filho do senhor Anselmo, dono do mercado mais famoso da cidade, o Oliveiras, que por sinal é o nome da família. Hoje eu presenciei o acidente de Moacir Oliveiras, filho do seu Anselmo Oliveiras e de Maria de Fátima Oliveiras, namorado de Juliana Suzanete Brandão, filha de Irvin Brandão e Luciana Suzanete que é a costureira da cidade, ela é a melhor costureira das redondezas e a única que faz roupas de casamento em todas as três cidades vizinhas. Hoje presenciei o acidente de Juliana Suzanete Brandão.
A jovem desmaiou e o rapaz ainda está tentando acordar. Ouço na calada da noite os gemidos abafados o jovem Moacir e Vivaldi tocando ao fundo como se pedisse minha misericórdia. (Mas para quem me conhece, de fato, minha misericórdia não é como a misericórdia divina. Minha misericórdia é como a misericórdia maligna.) E assim vou patinando, quase levitando até o carro. O velho bêbado vê tudo e não solta se quer um balbuciar.
Aproximo-me do rapaz e vejo seu pomo-de-adão sorrindo para mim. Ele está sentado no banco com o braço para fora do carro que está com a porta do motorista aberta. A frente do carro está completamente amassada, juntamente, prendendo as pernas do rapaz. (Pobre menino, tão jovem, tão belo, tão cheio de vida e tão ébrio ao volante.) Ele ainda não consegue abrir os olhos, simplesmente revira a cabeça no banco e geme baixo.
- Não se preocupe, vai ficar tudo bem, estou aqui para te ajudar. – Coloco a mão em sua testa e paro seus movimentos no banco. Com calma cirúrgica pego um pouco do sangue da sua testa e cheiro. (Exatamente como me lembrava, doce e metalizado.) Sorrio e sem pestanejar pego o corpo do jovem nos braços e estiro ao chão da rua molhada pela chuva que não para de cair.
Olho, ajoelhado colocando o corpo do menino ao chão, o senhor bêbado que fita-me como se estivesse vendo um filme ao cinema. Delicadamente tiro a camisa xadrez vermelha do rapaz e cubro seu peito deixando-a molhar. Depois entro ao carro e pego a menina. Com movimentos bruscos e muitos puxões fortes consigo desprender sua perna esquerda das ferragens, mas acabo rasgando sua pele. Pobre menina, tão jovem, loira e bonita. Com um pequeno vestido azul celeste, como uma boneca. Onde será que eles estavam?
Deito-a ao lado do menino e vejo que a camisa dele já está bem molhada. Não foi difícil, está chovendo muito forte.
Pego a camisa e dobrando limpo o sangue no rosto do rapaz. Limpo suas pernas apesar de não conseguir muito pois quase não há mais pele aparente, quase tudo é carne ou o osso exposto.
Torço a camisa e dobro-a novamente. Agora limpo a menina. Ela fica quase que nova.
Arrumo seus cabelos e coloco ambos de mãos dadas.
Eles parecem confortáveis, porque nem se reviram mais.

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