Levanto exatamente no instante em que levanto do barbeiro na
minha lembrança. Vou até o banheiro e lavo o rosto e, ao olhar meu reflexo no
espelho, sou consumido pela memória de um dia chuvoso, onde eu estava fechando
a confeitaria e você chegou querendo comprar uma fatia da minha famosa torta
“tristitiam”.
- Por favor, tive um dia terrível, sei que não somos
melhores amigos, mas essa torta só vende aqui. – Com lagrimas aos olhos e a
roupa toda molhada pela chuva. Pelo jeito você veio correndo a chuva.
Sem falar nada eu fui até a cozinha, cortei uma roliça fatia
e em uma xicara branca com minha marca eu preparei um apetitoso e belo
cappuccino, levei para você numa bandeja da loja com talheres de prata e um
guardanapo. Lembro de que você quase não esperou eu colocar a bandeja a mesa e
atacou á torta.
Vagarosamente e com uma súbita calma eu fui até a porta e
fechei-a, você voltou-se para mim com a boca cheia e com cara de assustada.
- Tudo bem, estou fechando só para não ter outra visita
indesejada. Ou melhor, em uma hora inapropriada. – Sorrio sarcasticamente. Você
pouco ligou, tornou a voltar-se para a torta e debulhou as mágoas sobre o doce.
Com cuidado eu tranquei tudo e sentei-me a sua frente com
uma xicara de café puro. Fiquei fitando-a com a bebida a minha frente,
intocada. Ficamos por alguns minutos em silêncio, você comendo e eu te olhando.
- Quer conversar? – Quebro o silêncio. Você não fala nada.
A penumbra do cômodo permanece e o silêncio toma conta. Você
está quase terminando a torta e eu dou minha primeira golada na xicara de café.
Olho-a com superioridade e não digo nada. Vejo você derramar uma lágrima por
sobre a última garfada da torta. Sua boca se fecha e você larga o garfo cheio.
Sua boca está vazia e sua alma também. Imediatamente eu me levanto, em silêncio,
e pego um guardanapo. Ergo-o para você e pegando você agradece em voz baixa.
(Essas memórias nunca foram tão vivas.)
Não me sento novamente. Curvo-me por cima do balcão e pego
um prato, dentro da vitrine frigorífica, um prato de torta Rafaello, coloco-a
sobre a mesa a minha frente e sento. Você não chora mais, simplesmente me olha
com um olhar vazio. Eu pego um pouco do chantilly com coco com o dedo e ponho a
boca. Percebo o declínio de seu olhar e logo pego mais um pouco do chantilly da
minha torta, ergo meu dedo até sua boca e você me olha com tristeza e dúvida.
- Abra. Não tenha medo, é só abrir um pouco. – Falo com
cuidado terno. Você abre e logo eu toco sua língua, você chupa meu dedo e eu
tiro-o com delicadeza e sensualidade. Sorrio com afeto. Você retribui o
sorriso.
- Obrigada. – Sua voz é mais encorpada e aliviada.
Finalmente engrenamos em uma conversa e conseguimos nos
relacionar como dois adultos. Nossa conversa se adensa e você me confessa as
agressões de seu noivo. Nós levamos nossa conversa a níveis íntimos e
finalmente, as 23:55 você, rindo, coloca a bandeja ao balcão se desculpando.
Você estende a mão com o dinheiro para pagar-me e eu envolvo sua mão com ambas
as minhas, desarmo-a do dinheiro e jogo-o ao chão. Com delicadeza beijo e sua
mão e levanto meu olhar com lubricidade até o seu. Você retribui e acariciando,
aveludadamente, meu rosto e me beija ardentemente.
Alí fizemos nossos primeiros votos de amor eterno.
Recordo-me de sua fisionomia aos meus braços após todo nosso rebuliço. Seus
olhos tornaram a brilhar, o sorriso voltou a estampar rosto, Suas bochechas
estavam coradas, seu cabelo um pouco despenteado, sua respiração ofegante e sua
voz mais aveludada.
- Não podemos tornar a nos ver. – Com os olhos baixos.
- DE-VEMOS nos
ver. Isso foi algo que vai além de nós. Não sente?
- Mas eu estou noiva.
- E ele te espanca. – Rosno e torna a retornar o ar sombrio
em seus olhos.
- Acho que te amo Ricardo. – Volta os grandes olhos cor de
avelã para os meus.
- Eu sei que te amo! Desde que te vi na livraria. Você é
minha pocahontas. – Você sorriu e enterrou suas mágoas em meu peito. Em nosso
peito.
(Volto a mim e sacudindo a cabeça olho para você á cama, ainda
está dormindo. Vou até o box e abro a válvula do chuveiro. Começo a me banhar.)
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