Esfregando-me lembro de cada uma das vezes em que nos
encontramos bem em baixo dos olhos de Gregório, seu noivo. No parque, numa loja
de roupas, ao provador, num banheiro público, num banheiro de bar, na minha
casa, em diversos motéis, em alguns hotéis, na livraria onde nos conhecemos,
aqui.
Você acorda e desfila nua até debaixo d’água que estou
banhando. Chego um pouco para traz e você fica exatamente sob a água.
Completamente molhada como na nossa primeira vez.
Precipito num beijo quente, mais caloroso que a água que nos
banha. Doces lábios, carnudos e largos inigualáveis. Silhueta delicada como a
de uma bailarina, mas com curvas perfeitas como de uma típica brasileira. A pele
com uma tonalidade perfeita de caramelo, um veludo intenso. Cabelos longos e
negros como a noite, cabelos que me cobriram do frio, do medo, no fervor de
nossas noites de pura paixão. Mãos delicadas de uma massagista tailandesa. Um
corpo perfeito, tão pequeno que cabe a palma das minhas mãos. Perfeita como as
ninfas da Grécia, mas nenhuma delas pode se comparar a sua beleza.
Você transcende o sentido de beleza, você me fez rever meu
conceito de amor, você me fez rever meus conceitos todos para manter-me ao seu
lado minha bela amada.
Envolvo seu pequeno rosto com minhas grandes mãos de
confeiteiro e bebo de sua boca o mais puro leite das ninfas romanas. Beijo o
pescoço que exala o perfume das flores do campo e perco-me em seus cabelos
negros e sedosos como a melhor seda egípcia. Acaricio sua pele aveludada como a
de uma onça prestes a me devorar. Você me morde com lascívia e eu gemo baixo ao
seu ouvido. Nossa excitação consegue atingia até os esquimós congelados aos
polos da Terra.
Desço em beijos até seus roliços seios de uma jovem em seus
latentes vinte anos. Em beijos rijos eu desço ainda mais meus lábios em um só
envolver e levo-a a graves e fortes gemidos que ecoa por toda a região
montanhosa, onde estamos hospedados. Deleito-me com o mais doce e puro mel de
que nosso amor pode experimentar. (Eu, somente eu posso, e consigo, cultivar e colher
desse mel que produz e escorre dos ventres teus.). Saímos do box e vamos, em
beijos e abraços, adornados de nossa mais pura paixão e só, até o quarto.
Paramos a frente da cômoda. Chupo seu dedo e arranco com a
boca esse vil metal, essa falsa aliança que você deveria ter com Gregório.
Ainda de pé ao meio do quarto nos beijando loucamente e
quando estamos quase flutuando, com um murro, Gregório, seu noivo, ou ex-noivo,
arromba a porta do quaro. Cingido com a farda da polícia militar, com arma em
punho, embebido de ódio e vingança mira a arma ao meu peito.
- Gregório não faça isso... – Grita Ivana.
- Calada sua vaca maldita. – Com um tapa ele joga-a ao chão.
Isso rasga-me a alma. Estou em choque, não posso me mexer, pois qualquer
movimento pode acionar seu dedo ao gatilho. – Você me prometeu amor, você me
jurou fidelidade, você dormiu sob meu teto. – Grita com ela olhando para mim.
- Você a machucava – Grito retrucando e percebo seu medo em
tirar minha vida.
- Cale a boca. Cala essa boca suja. – E tomado de ira e sego
pelo ódio ele, largando uma das mãos da arma, impõe-se como um lorde e
precipita minha morte. Ivana lança-se a minha frente e antes que a bala atinja
alguém o tempo, meio que, para. A bala se mostra o coração dum anjo revestido
de uma capa preta, com o rosto encoberto por um capuz puído, com as asas ruídas
por ratos, provavelmente, e um cajado de um pobre velho ao deserto.
Com dificuldade esse anjo levanta o rosto e mostra-me parte
de sua face, deixando-me mergulhar na piscina cinza de seus olhos e permitindo
ver essa mesma ceda em diversas encarnações nossas.
A visualização em que parei foi a de uma índia, adornada com
pinturas e algumas, poucas, vestimentas. Eu, índio de outra tribo traficada e
Gregório, um homem branco, empunhando uma arcaica arma para nós. Com a mesma
ira e com a mesma sede de vingança.
- ESTÁ NA HORA DE ALGUÉM MUDAR O RUMO DESSA HISTÓRIA. –
Trezentas mil vozes diferentes, homens, mulheres e crianças, falam em rija voz
para mim, saindo se seus lábios rubros como o sangue que lateja nas veias da
minha pocahontas.
Se decompondo em uma bala de calibre trinta e oito o tempo,
vagarosamente, torna a voltar ao seu devido lugar.
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