E você sabe o que faz este trecho do rio tão importante nas
madrugadas de lua cheia como hoje? – Olho com atenção seus olhos negros e
profundos. – As almas tendem a ele. Aqui é a passagem das almas do mundo dos
vivos para o mundo dos mortos. A alma dos pequenos peixinhos brilham para guiar
as almas vagantes e perdidas. Agora eu te pergunto. Por que peixes? Não
poderiam ser zebras, ou macacos, ou até mesmo garças?
- Devido o seu silêncio e pela nuvem de mistério que eles
ostentam à sua volta? – Arrisco-me.
- Que tipo de peixes são? – Olho atento, mas não sei
identificar. – São carpas. As carpas nadam contra a corrente para se
reproduzirem, para não deixarem sua espécie acabar. São símbolo de luta. De
constante luta. E será sempre assim, na terra dos viventes e na terra dos que
já não vivem mais. – Fito uma carpa com um brilho amarelo alaranjado e fico
refletindo sobre o que ele falou.
Conforme vou olhando-a parece que seu brilho vai aumentando,
e aumentando, e aumentando cada vez mais, e mais. Até que um velho senhor entra
ao rio e deita-se, o peixe para sob seu corpo que flutua e seu brilho é intenso
até se dissipar. Seu brilho é forte e ofuscante. Até que quando se dissipa o
corpo desaparece e só sobra um peixe morto e um peixe acinzentado com um brilho
branco.
- E você sabe o por que do cintilar delas? – Com um sorriso
bobo ao rosto.
- Elas cintilam para chamar suas sucessoras no rio.
- Cada carpa é uma alma. As pessoas são criadas em pares e
quando um a pessoa do par morre acende-se uma luz em sua alma para guiar seu
par até ela e quando seu par morre uma nova alma nasce de dentro dos restos do
par e esta alma brilha para guiar o par sucessor e assim dar-se um ciclo. – Sem
saber muito bem sobre o que está acontecendo ou sobre de onde tudo isso se
originou coço a cabeça com a mão esquerda e me lembro da guimba de cigarro que
guardo. Abrindo a mão fito-a e questiono-me.
- E por que não posso acabar com minha vida que se consumiu
como este cigarro?
- Você não é o cigarro. Você é uma carpa. Se você fosse o
cigarro você estaria neste momento no chão, ou no fundo de uma lixeira suja.
Mas você está aqui, querendo compreender o fim de seu brilho e seu princípio.
- Não há brilho em mim. Somente trevas.
- Se não houvesse brilho você não teria me impedido de
findar o lixo. Você não teria me dado ouvidos, não teria se quer vindo aqui,
teria se matado em casa mesmo. Mas você veio em busca de algo. Em busca de
respostas, em busca de sua luz.
Escoro ao corrimão da ponte, respiro fundo um ar doce de
morangos silvestres e ao inclinar minha cabeça para trás desequilibro e caio ao
rio acordando em minha cama. Um tanto desorientado levanto-me e caminho pela
casa. Já é de manhã.
Faço minhas tarefas matinais em silêncio e seriedade até
começar a tomar café e reparo uma coisa sobre a bancada da cozinha. Um peixinho
dourado morto ao aquário.


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