Acordo ao meio da madrugada, no silêncio da escuridão
profunda. Sem acender nenhuma lâmpada caminho pelos corredores da casa e
somente vestindo um roupão saio de chinelos pela rua. Caminho sem rumo em busca
ou em fuga.
A confusão me consome, a dor ainda mais. Muito mal consigo
respirar. Não consigo trabalhar, não consigo estudar, não reter a comida ou
líquido algum. Não consigo viver.
Meus passos são calmos, apesar de minh’alma gritar e se
agitar dentro de mim como um revolto preso. Caminho pelos paralelos tortuosos
das estradas banhadas de sangue inocente pela história.
Paro em frente o rio, ao meio duma ponte cor de rosa. O rio
flui com tranquilidade. Os peixes cintilam e nadam em paz. O brilho desses
peixes iluminam o fundo do rio, cada pedra, cada acidente, cada tronco.
Subo sobre o corrimão da ponte. Respiro fundo. Fecho os
olhos. Sinto a brisa envolver-me enquanto abro os braços para abraçar meu
destino. Sinto-me ser pintado de pálido, de dor, de morte. O vento uiva a morte
que vim buscar.
- Se eu fosse você não faria isso! – Olho imediatamente em
direção à voz rouca e vejo um homem misterioso acendendo um cigarro escorado ao
outro corrimão da ponte cor de rosa.
Deixo uma lágrima cair na calmaria fúnebre e respirando
fundo fecho novamente os olhos e ignoro o concelho. Inebriado com meu próprio
pânico começo a bambear para os lados, para frente e para trás. Quase caindo.
- Ainda acho besteira o que você está fazendo! – Com ar de
insolência exprime ele, agora ao meu lado. Eu me assusto e pulo ereto ao meio
fio.
- O senhor pode me deixar me matar em paz? – Com arrogância.
- Convenhamos amigo, se você quisesse se matar mesmo você já
teria feito! – Ele tem razão. – E pensando bem, há algum jeito mais patético
que se jogar de uma ponte como essas? – Ironiza.
Reflexivo desço do corrimão e sento-me olhando para o
horizonte negro a minha frente.
- O que devo fazer então? – Sem se quer me olhar ele caminha
em direção a um pequeno declínio na costa do rio. – Onde você está indo? –
Grito. E sem sucesso ou se quer um olhar de troca ele continua seu caminho.
Sigo-o.
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