quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CataVento - O sol e o vento



Um tanto desolado, sem norte e sem eixo caminho pela casa vazia, procurando por algo ou alguém, mesmo sabendo que estou sozinho.
Como tudo parece estranho, claro e solitário, cada cômodo cada fresta cada lugar.
Vejo os cômodos vazios e me abraço esperando pelo seu abraço. Abraçado a mim mesmo vou até a varanda e sento-me ao banco e olho o cata-vento de sua filha girando e girando ao vento. Uma peça rara e linda, singular como o nosso amor. Ele tem partes brilhantes e que refletem os raios de sol fazendo feixes de luz colorida.
Conforme ele gira o reflexo do sol vai batendo ao meu rosto e isso me faz fechar os olhos e me lembrar de como foi conhecer você.
É como se o tempo voltasse e cada móvel girasse para seu respectivo lugar e saíssem novamente. Nós subimos as escadas rindo e brincando, abraçados e radiantes. Nossa primeira casa. Nosso cantinho. – Sorrio sozinho.
Seus olhos naquele dia estavam ainda mais azuis do que eu me lembrava. Um azul profundo, quase violeta. Com esse olhar você me abraçou, me envolveu, me encorajou e me deu força para te amar cada instante mais.
Cada pincelada às paredes, cada guerrinha de tinta, cada beijo sujo, molhados, suados, cálidos beijos e fortes abraços. Cada transa sobre os jornais que pusemos para não sujar o assoalho. – Sorrio de olhos fechados. – Como essas memórias me fazem apertar o coração.
Moramos por alguns meses somente com um colchão, um fogão, uma geladeira e alguns eletroeletrônicos indispensáveis. Tirando as coisas básicas para sobrevivência. Mas o mais essencial e mais divertido era o nosso amor que preenchia toda a casa e nos deixava satisfeitos até na dor. Simplesmente por nos amarmos incondicionalmente.
Você foi, sim, meu arco-íris no momento chuvoso, você foi minha luz no fim do túnel, você foi o alívio quando a dor parecia não cessar.
Quando nossos móveis chegaram você nós os arrumamos e organizamos nossas coisas em seus respectivos lugares. Levamos três dias para arrumarmos e rearrumarmos tudo. Toda hora parávamos, cansados, bebíamos algo gelado, refrescávamos, nos beijávamos com aquele hálito gelado e nos amávamos em cima do que estivéssemos empurrando.
Eu adorava curtir cada segundo ao seu lado, cada toque da sua pele na minha, cada vez que você exalava aquele aroma doce de limonada suíça que só encontrei em você. Cada beijo, cada vez que sua língua acariciava a minha. No intervalo entre um beijo e outro minha boca já sentia sua falta. Sentir com minhas mãos o desenho perfeito de seu corpo escultural. Ver meu reflexo radiante aos seu olhos azuis como o oceano. Ver seu sorriso retribuindo o meu. Ver seu olhar sério, ao amanhecer, admirando-me, as vezes com um sorriso leve aos lábios e um beijo matinal. – Respiro fundo.
Ainda sentado ao banco de olhos fechados me levanto sem sair do lugar e caminho pela casa vendo cada cena de nossa vida juntos. Passo pela sala e vejo-nos transando loucamente ao canto, derrubando nossas fotos, logo pego a foto caída e vejo-nos brigando, gritando e xingando-nos, olho para outro canto e vejo-nos abraçados pedindo desculpas. Caminho e vejo-nos discutindo e nos beijando ao corredor, passo pelo quarto e vejo-nos em diversas cenas, à cama, dormindo, nos beijando, quebrando tudo, brigando, gritando, cantando pintando. À cozinha cantando. Ao banheiro tomando banho. À área lavando roupa e brincando de guerrinha de toalha molhada. À copa almoçando. E volto para a varanda onde vejo-nos sentados olhando um para o outro, em silêncio, numa harmonia perfeita. Nos amando.
Vejo você indo com sua filha pela porta, com uma mala caramelo à mão esquerda e segurando-a pela mão com a outra. Você olha para mim por sobre os ombros e eu despeço-me com um simples aceno com uma mão e abraçando meu tronco com a outra.
- Eu te amo! – Suspiro, inaudivelmente. E você me responde com um olhar desconcertado.
- Bruno. – Você me toca ao ombro e eu abro os olhos. Você está com um olhar atento aos meus. Estamos à varanda e eu ainda estou sentado ao banco. – Está tudo bem? – Sorrio.
- Melhor impossível. – Sorrio largamente, levanto-me e beijo-o como nunca. Kimberli faz som de nojo. E acabamos indo olhando para ela.
- Vamos então? – Fala animado. Pega a mão dela e desce as escadas. – E você, não vai? – Brinca olhando para mim.
- Precisava me despedir. – Sorrio caminhando em direção ao portãozinho da frente. E antes de sair pego o cata-vento que girava com fervor e iluminava a todos os continentes com os raios do sol, guiado pelo vento de nosso amor.

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