quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Vida de peixe Pert. II



Ele senta-se há uma pedra bem a beira do rio e sento-me ao lado dele, em silêncio, observando-o observar a água e os peixes. Sem entender muito bem mantenho-me me silêncio por alguns minutos e olho o brilho estranho dos peixes.
- Mas que mer...
- Você não se pergunta de onde vem esse brilho extraordinário dos peixes deste rio? – Sem entender muito bem a pergunta não respondo-o, somente torno a fitar os peixes e não vejo a fonte da luz, somente percebo que eles são transparentes e que consigo ver com perfeição seus órgãos se movimentando.
- São suas almas? – Pergunto insanamente como em um impulso.
- Já se perguntou o porque deste rio. Por que este? Dentre tantos na cidade, tantas alturas deste mesmo rio, só aqui os peixes cintilam, só aqui tem uma ponte velha cor de rosa, só aqui. Por que não em outro lugar? Um lugar mais bonito? Ou em outro horário? Por que não conseguimos ver os peixes brilharem pela manhã? Por que? – Acompanho toda sua aflição. Vejo cada feição que ele faz em cada pergunta. E não compreendo nem onde ele quer chegar ou as respostas para suas indagações.
Realmente, dentre todas as pontes da cidade, somente é cor de rosa, somente esta tem teias de aranha, somente esta é feita de concreto e jamais foi reformada. Dentre todas somente esta é cor de rosa e, o mais engraçado, é que esta ponte é a ponte de entrada e saída da cidade. Uma pequena ponte, estreita, a mais feia, mais antiga. E porque somente aqui? Jamais havia visto o cintilar dos peixes deste local. Jamais havia percebido o brilho deles. Jamais vi um peixe brilhar pela manhã. Por que? O que há na manhã? Eles se acanham? Eles ficam com medo da multidão passando aqui? Mas o mais importante. O que é este brilho intenso e extraordinário?
- É, acho que jamais saberemos! – Com autoridade e sutil simplicidade ele levanta-se e joga a guimba de cigarro no rio. Por pouco não consigo pegar antes d’ele poluir tal perfeição divina.
- Está louco? Como pode me trazer aqui, se espantar com tantas coisas sobre este trecho da cidade e depois tentar destruí-lo? – Apago o cigarro na pedra onde estava sentado e seguro-o em minha mão esquerda.
- Mas, afinal, não fiz a mesma coisa que você? – Fico em silêncio sem compreender. – Da mesma forma que me surpreendi com este trecho, você se surpreendeu om a fase ruim da sua vida. Da mesma forma que olhei a fundo para tentar compreender este determinado e específico lugar, você, assim, fez. Você se afundou na obscuridade do momento que está passando e esqueceu-se de tudo que o sucedeu e o que está, ainda, por vir. – Em silêncio e desalento choro lágrimas veladas no calar fúnebre da minha dor. – E sim, este brilho são as almas deles.

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