Ele senta-se há uma pedra bem a beira do rio e sento-me ao
lado dele, em silêncio, observando-o observar a água e os peixes. Sem entender
muito bem mantenho-me me silêncio por alguns minutos e olho o brilho estranho
dos peixes.
- Você não se pergunta de onde vem esse brilho
extraordinário dos peixes deste rio? – Sem entender muito bem a pergunta não
respondo-o, somente torno a fitar os peixes e não vejo a fonte da luz, somente
percebo que eles são transparentes e que consigo ver com perfeição seus órgãos
se movimentando.
- São suas almas? – Pergunto insanamente como em um impulso.
- Já se perguntou o porque deste rio. Por que este? Dentre
tantos na cidade, tantas alturas deste mesmo rio, só aqui os peixes cintilam,
só aqui tem uma ponte velha cor de rosa, só aqui. Por que não em outro lugar?
Um lugar mais bonito? Ou em outro horário? Por que não conseguimos ver os
peixes brilharem pela manhã? Por que? – Acompanho toda sua aflição. Vejo cada
feição que ele faz em cada pergunta. E não compreendo nem onde ele quer chegar
ou as respostas para suas indagações.
Realmente, dentre todas as pontes da cidade, somente é cor
de rosa, somente esta tem teias de aranha, somente esta é feita de concreto e
jamais foi reformada. Dentre todas somente esta é cor de rosa e, o mais
engraçado, é que esta ponte é a ponte de entrada e saída da cidade. Uma pequena
ponte, estreita, a mais feia, mais antiga. E porque somente aqui? Jamais havia
visto o cintilar dos peixes deste local. Jamais havia percebido o brilho deles.
Jamais vi um peixe brilhar pela manhã. Por que? O que há na manhã? Eles se
acanham? Eles ficam com medo da multidão passando aqui? Mas o mais importante.
O que é este brilho intenso e extraordinário?
- É, acho que jamais saberemos! – Com autoridade e sutil
simplicidade ele levanta-se e joga a guimba de cigarro no rio. Por pouco não
consigo pegar antes d’ele poluir tal perfeição divina.
- Está louco? Como pode me trazer aqui, se espantar com tantas
coisas sobre este trecho da cidade e depois tentar destruí-lo? – Apago o
cigarro na pedra onde estava sentado e seguro-o em minha mão esquerda.
- Mas, afinal, não fiz a mesma coisa que você? – Fico em
silêncio sem compreender. – Da mesma forma que me surpreendi com este trecho,
você se surpreendeu om a fase ruim da sua vida. Da mesma forma que olhei a
fundo para tentar compreender este determinado e específico lugar, você, assim,
fez. Você se afundou na obscuridade do momento que está passando e esqueceu-se
de tudo que o sucedeu e o que está, ainda, por vir. – Em silêncio e desalento
choro lágrimas veladas no calar fúnebre da minha dor. – E sim, este brilho são
as almas deles.
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