De certa forma foi engraçado, foi interessante, foi lindo.
Sabe aqueles dejavus que de vez em quando, todos, temos. Aquele sentimento de
“já vivi essa cena, nesse mesmo lugar, com essas mesmas pessoas”? Não sabe?
Pois bem, é meio isso que estou sentindo desde que entrei nessa estação de
trem.
O relógio da estação já badalou as 20:00 horas e Petrick
ainda não apareceu, estou começando a ficar preocupada com ele, ele deveria ter
chagado a uns quinze minutos.
Sinto uma mão tocar em meu ombro e me viro bruscamente com
esperança de ser ele. Me deparo com um par de olhos verdes que logicamente não
são do meu noivo.
- Desculpe-me, mas percebi que você é brasileira e gostaria
de saber se você pode me ajudar a chegar ao Palácio Buckingham, é que eu estou
meio perdido e eles só falam um inglês enrolado. – Um grande sorriso branco e
meio constrangido se espalha pelo rosto moreno do homem estranho.
- Ah sim. É só você sair por essa porta aqui e ... –
Oriento-o ainda meio abalada com sua beleza. Enquanto ele parece tomar nota eu
tento respirar, mas o ar parece fugir de mim.
- Muito obrigado. – Ele sorri e segue pela estação.
Nossa que homem é aquele, eu tenho certeza de já tê-lo visto
no Brasil. E mesmo que não, tenho certeza de já ter sonhado, pelo menos, umas
300 vezes com ele.
Com esse mesmo sorriso largo, esse s coturnos preto sujos de
contrastantemente branca, com aquele jeans surrado, a camiseta verde amarelada
e até com aquele cachecol preto cheio de neve fofa. Mas eu tenho certeza que
conheço em qualquer lugar aquela pasta da Hugo Boss cor de areia e aqueles
olhos verdes destacados no rosto moreno, que só há no Brasil, o cabelo raspado,
as sobrancelhas desenhadas por Deus e aquele sorriso perfeitamente alinhado e
branco a laser.
Eu sei que conheço esse Apolo, esse tudo, meu tudo. A cada
instante que tento desvendar esse mistério sinto como que minha vida deixasse
meu corpo. É quase orgásmico. É mítico, é épico.
Ele dá uma olhada para traz antes de atravessar a porta,
sorrio e aceno com a mão. Não consigo esconder o desespero por não saber quem
ele é e derramo uma lágrima gélida como
os flocos de neve que caem lá fora. Fico parada como uma estátua enquanto o
vejo andando pela rua na negritude da noite sendo contrastada pela luz dos
postes e da brancura da neve.
Enquanto ele some no Horizonte sinto como se todo meu sangue
esvaísse do meu corpo.
- Amor tudo bem? – Petrick ao meu lado enxuga minha lágrima
e com a mão em meu ombro me indaga.
- Tudo, lindo. Claro! – Apesar de saber que minha vida
poderia dar uma reviravolta a partir daquele momento, eu hesitei em assumir a
verdade.
- Parece que você viu um fantasma. – Ele realmente parece
preocupado, mas novamente hesito fazendo não com a cabeça.
- Meio que isso... – Murmuro quase inaudivelmente. Ele não
me ouve, me beija a boca de leve e começa a balbuciar as coisas da viagem dele.
Mas não dou a menor atenção.
Estamos andando em direção a algum lugar, mas nem presto
atenção, a única coisa em que consigo pensar é naquele homem moreno dos olhos
contrastantemente verdes. Solto mais uma lágrima e sinto a neve enxuga-la.
- Destino que brincadeira é essa? O que guardas para mim? –
Pergunto em pensamento e deixo-o fugir nos ventos uivantes da noite escura da
cidade de Londres.
Na falta de brasileiro vai o Butler mesmo...
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