terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O marinheiro e o veludo negro



Ainda estava no navio quando recebi a carta dela, que exprimia aflição, saudade e dor, com um toque de paixão e perfume de flores cor de rosa. A carta dizia claramente para eu encontrá-la no quarto 16 do hotel da Rua do Ouvidor.
Fui direto ao barbeiro, depois ao alfaiate, banhei-me de perfume e enfim ao seu encontro.
Ao chegar à porta estava entre aberta, eu bati e ela terminou de abrir. Entrei cautelosamente e a vi em um vestido de seda branca e transparente, que lhe dei no nosso primeiro aniversário de casamento, estava escorada na janela.
Ela olhou para traz, dentro de meus olhos, mas não sorri, eu percebi um pouco de alívio em seu olhar, mas nada ela expressou. Eu sorrio e a abraço com força, então quando ela sorri e derrama uma lágrima, mas logo enxuga.
- Senti muito sua falta, não sabe o quanto.
- Também senti muito a sua, parecia que essa viagem nunca ia acabar. – Puxo-a para minha frente e pego seu rosto envolvendo-o com minhas mãos. – Mas agora estou aqui, pode ficar tranquila. – Puxo seu rosto e colo no meu em um beijo ardente que parece queimar nossas roupas em chamar envolventes e intensas.
Passamos aquela tarde e a noite toda nos amando com intensidade, nosso entrelaçar de pernas e língua parecia não ter fim e nem queria que o tivesse. Seus gemidos eram mais intensos do que eu me lembrava, mas sua feição não era de paixão e sim de cansaço. Seus cachos se entrelaçam em grande intensidade em minha mão direita formando puxões de cabelo para que minha boca alcance seu dorso.
Sua pele é aveludada e suas bochechas são rosadas, seu sorriso é inocente e triste, seu corpo e jovem e quase virginal, é minha madona.
Após longas horas intermináveis de puro amor, prazer e paixão, que parecerão passar em um pulsar de nossos corações, ela deita a cabeça em meu peito largo e brincando com meus poucos pelos da barrica e expressa uma súbita tristeza, quase uma expressão sem vida.
- Camila, o que você tem? – Perguntei, pois saiba em meu intimo que não era cansaço de nossa noite de luxúria. Parecia uma criança deitada no colo de seu pai esperando a morte da peste negra vir buscá-la. Mas a resposta pareceu perder-se na penumbra do lampião e no silencio da noite.
- Camila, o que foi? – Pergunto segurando sua mão que fazia círculos em meus pelos.
- Só estou preocupada com mamãe, ela está muito doente. – Ela escapou sua mão da minha e continuou fazendo os círculos. Eu sabia que não era essa a resposta que ela queria dar, mas preferi não discutir.
- Quer conversar? – Precisava ajudar minha mulher, eu sei apesar de cansado eu sento em meu coração uma inquietação forte.
- Durma, eu vou beber uma água e já volto. – Sua fala parece agitada, mas eu não me importo muito. Ela se levanta, me dá um beijo leve e vai ao banheiro.
Antes de perceber eu já estou em sono profundo, só consigo por relance, olhar o corpo nu moreno aveludado e com curvas perfeitas, no beiral da janela, olhando a rua e fumando um cigarro, o lampião está apagado, mas o sol está nascendo. Volto a dormir sorrindo com aquela imagem em minha mente.
Acordo já com o sol entrando pela janela, parece ser umas nove horas da manhã. Olho para o lado na cama e não vejo minha amada, sento-me ainda nu e sonolento, percebo que o chão está molhado. Esfrego os olhos e olho em direção de onde imagino ser o início do molhado. Para meu pavor é Camila no chão, estirada, com um copo quebrado perto de sua mão direita, é um misto de água e vômito. É uma gosma densa que sai da boca dela, sai com alguns comprimidos inteiros, mas pelo jeito ela já está morta. Recusando-me a aceitar a situação, debruço-me em seu corpo sem vida, sacudo-a bruscamente, vejo seu pulso, vejo se está respirando, mas nada funciona. Faço massagem cardíaca e respiração boca a boca, coisa que aprendi na marinha, mas também, não funciona. Sem saber o que fazer, corro, abro a porta e começo a gritar por socorro no corredor, uma senhora vem ver o que é e grita pois estou nu, volto envolvo-me no lençol onde passei a noite com minha então finada e volto a pedir socorro, logo aparecem alguns bombeiros. Fico olhando de longe, do canto do quarto para ver a o que acontece. Mas minhas esperanças são vans, eles me dão a notícia levando o corpo dela para fazer exames. Incrédulo com tudo sento, no chão e choro como nunca, pareço desfalecer de tantas lágrimas que saem de mim. Meus gemidos, berros e gritos ecoam pela rua vazia e sem vida como meu quarto de hotel. Fico ali até anoitecer que é quando vejo que nada vai mudar os fatos.
Levanto-me, tomo um longo banho e vou até a recepção, pago as diárias e ouço ao fundo alguém me desejar os pêsames. Mas não olho para ver quem foi, vou direto as docas. Falo com o capitão que quero embarcar em qualquer navio aquela noite ainda. Sem saber o que fazer ele me abraça e me encaminha para um navio que carregava café para Portugal.
Os dias se passaram, mas a dor pouco amenizou. Cheguei ao porto de Faro em Portugal e o carteiro parecia me esperar para entregar-me uma carta, endereçada do Brasil.
 Diz a carta com formas cultas e um pouco difícil de compreender que Camila Quaresma estava grávida e se matou tomando drogas de vários tipos fáceis de encontrar em qualquer boticário. Meu sangue pareceu parar de correr pelo corpo, eu não sabia o que fazer, só tremia e chorava. O carteiro, disse simplesmente, “Sinto muito se trouxe notícias tristes.” E virou-me as costas.
Agora não sei como viver com essa notícia e sem saber o “porque”! Assim, minha vida se encontra ao seu Fim.

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