Ela puxa assunto sobre a conferência, mas não nos
prolongamos nisso, pois lá foi um saco. Ela se apresenta como “Samanta
Pinheiro, financeiro”, pelo seu sotaque ela me permite perceber que é
californiana, eu estendo minha mão para cumprimenta-la e me apresento como
“Patrick Spencer, gerente da inteligência tecnológica do polo B”. Nós
conversamos por muito tempo e sobre muitas coisas.
Não sei o que me deu na cabeça, mas depois de umas bebidas e
outras que nos foram servidas aqui na cabine, nós nos beijamos. A primeira
impressão é que fico um pouco arrependido, pois nunca havia traído minha noiva
Elena e agora traio com uma estranha. Ela se desculpa e explica que está
namorando e que nunca iria querer trai-lo, mas depois de três meses sem vê-lo
estava precisando de um calor de homem. Eu falei que a compreendia e que só
havia ficado apenas uma semana sem minha noiva e já estava necessitado. Isso
foi o suficiente.
Ela se levanta sem hesitar ou falar algo, vai até a porta da
cabine e abaixa à persiana, tira a camiseta e senta-se no meu colo e fecha a
persiana da janela beijando-me. Passamos aqui algumas horas de orgasmos,
gemidos, arranhões e puro prazer, nos deleitando com o gozo da vitalidade de
nossa alma.
Após umas horas de prazer, ficamos sentados por um certo
tempo em conchinha, ela no meu colo e escorando na parede, só conversando, após
tantas posições em tão pouco espaço ficamos cansados. Eu percebo uma tatuagem
atrás do seu ombro esquerdo, é a deusa da justiça, na mão direita uma pistola
Colt 45 e com a mesma mão apoiando contra o peito uma bíblia, na mão esquerda
segurando uma balança de prata, com os olhos vendados, vestindo uma toga que
lhe despia um dos seios e usando um broche que é um distintivo policial, mas
êxito em perguntar se há algum significado para a tatuagem.
Depois de alguns minutos naquela posição, já olhando para a
paisagem lá fora, ela se levanta e veste-se, pois já estamos chegando à
estação.
Ao chegarmos saímos do trem, fingimos que não nos
conhecemos, apesar de ainda conseguir sentir sua boca aveludada na minha e seu
cabelo de seda negra em minhas mãos.
Vou ao encontro de Elena e finjo que nada de mais aconteceu,
vejo-a um pouco chocada e me preocupo, limpo sua lágrima no rosto e pergunto o
que aconteceu, “Nada.” ela me responde boquiaberta , deve não ter sido nada
mesmo, então levo-a em casa para nos
arrumarmos e no caminho vou contando algumas coisas da viagem, ela
parece um pouco distraídas, mas super interessada na viagem. Bem típico dela
mesmo.
Ao estarmos prontos e entrarmos no carro para irmos a uma
exposição cultuadíssima de um pintor brasileiro, pergunto-a novamente o que a
deixou distraída daquele jeito, ela diz que foi uma reportagem que viu no
telejornal mais cedo, “falava sobre umas guerras urbanas na cidade de minhaa
família no Brasil e me deixou preocupada”. Confio nela, ela nunca foi uma boa
mentirosa e estou sem Tv há uma semana, deve ser isso mesmo.
Ao chegarmos à exposição vou procurar o tal artista e tenho
muita dificuldade pois ele é singularmente brasileiro, falo com ele em um
português quase ativo, ele pareceu aliviado por não conversarmos em inglês,
logo ele vai falar com Elena.

Eu aproveito para sair um pouco e respirar esse ar gelado do
inverno britânico. Quando estou prestes a entrar novamente olho para a outra
rua e vejo Samanta em um banco, sentada, sozinha. Não hesito, esqueço-me de tudo e vou a seu
encontro, ela sorri e fala da coincidência de nos encontrarmos aqui, eu pego em
sua mão e levo-a para o lado do prédio onde está sendo a exposição do
brasileiro Heitor Severo Carneiro e a beijei loucamente, no primeiro beijo ela
hesitou, mas depois d’eu pegar em seu cabelo, enrola-lo em meu punho e puxar
sua cabeça para traz beijando seu pescoço ela cedeu e nossos beijos
consecutivos são tão ardentes que até a neve derrete antes de tocar os nossos
corpos em tamanho frenesi de paixão.
Em meio a muitos beijos ouço um barulho de vidro se
estilhaçando, é a taça de Elena que se quebra tocando o chão ao encontrar-me
beijando Samanta. Ao vê-la com aquela cara de desespero eu larguei Samanta e
fui direto em sua direção, ouvi um homem gritando com Samanta, mas ignorei e
fui desculpar-me com minha noiva.
Eu estou no meio dessa confusão e sem perceber começo a
culpa-la pela minha traição, culpei a única vítima. Ao ver aquela lágrima escorrer de seu rosto
percebi, “é a mesma lágrima da estação, ela me viu”, logo desculpei-me e contei
que havia transado com outra e que aceitava o que ela falasse. Ela
simplesmente, ao lado do pintor, chorando, deu-me um tapa, “esse é o fim de
algo que sequer deveria ter começado Patrick”, ela joga em meu peito a aliança
da minha avó e entra no prédio batendo pé e a porta, vou atrás dela, mas Heitor
não deixa. Começo a gritar com o menino, “quem você pensa que é ...” e logo um
homem moreno e de olhos verdes me pega pelo braço e me pergunta com calma e
lágrima nos olhos, “ Foi você que transou com a minha Sam?”, eu tento me
explicar mas antes de terminar ele me dá um soco que me derruba ao chão.
- Isso é pela minha namorada. – Em seguida ele chuta minha
virilha com força. – E isso é pela sua noiva.
Antes dele mi virar as costas Sam lança-se sobre meu corpo
que se contorce de dores na rua vazia e coberta de neve fofa.
- Sam, não precisa nem me procurar – Ele gesticula
demostrando um misto de confusão, ira, desgosto e decepção. E logo entra no
prédio. O pintor entra atrás dele, mas antes disso lança-me um olhar de
desapontamento.
Apesar de Samanta estar sobre meu corpo ainda deitado no
chão e estar me consolando, fico aqui, deitado, olhando para o fim da rua, o
meio fio que delimita no meu horizonte a terra firme da água gélida. Fico aqui,
deitado, revendo o que errei, qual pedra do meu tabuleiro de xadrez da vida que
mexi errado. Acho que eu tentei comer uma rainha, jogada de mestre, mas acabei
levando um xeque-mate pela torre, pelo bispo, um peão e um cavalo, um belo
garanhão de olhos verdes.
É, pelo visto é xeque-mate, mas como a luz da lua e os
flocos de neve no meu rosto percebi, é hora de reiniciar o jogo e serei as
peças brancas.
“Peão ‘D 7’ para ‘D 5’. O jogo começou, prepare-se!”
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