Ao chegarmos à estação Thiago pergunta, bem alto para todos
da turma, qual café vão pedir, já Hiago vem ao meu encontro e me pergunta
pessoalmente, nossa troca de informações é similar a uma confissão.
- Irmão, o que vai querer? – Grita Thiago para mim, logo
faço cara feia.
- Ele pediu um frappuccino duplo sem chocolate e com pouco chantilly.
– Responde Hiago em tom moderado ao seu gêmeo.
Na cafeteria da estação fico olhando para o movimento das
pessoas e de certa forma me isolo.
- É bem diferente do Brasil não é? – Isis se dirige a mim
sentada ao meu lado. Nem havia percebido que ela estava sentada aqui.
- Pois é, aqui eles são tão frios com seus horários e regras
excessivas. No Brasil somos mais, mais...
- Brasileiros? – Ela me interrompe rindo.
- É, exatamente. – Continuo com meu clima pesado.
Ela percebe que nosso
assunto acabou aqui e começa a observar meus irmãos.
- Você são tão diferentes não é? – ela fala comigo ainda
olhando para eles.
- O que? – Desatento pergunto.
- Vocês, são muito diferentes. Thiago é todo elétrico,
enérgico e ligado no 220, já Hiago é todo quieto, simples, sucinto e você é
todo meio... – Ela hesita.
- Obscuro? – Falo sem olha-la mas percebo que sua reação é
fitar-me imediatamente.
- Mas na sua! – Com tom de repressão.
- Pode falar, eu sei, eu sou o problemático, o doente, o
estranho e eles são os gênios inovadores. Enquanto eles estudam publicidade e
direito eu estudo artes e exponho minhas obras sinistras por aí. Mamãe sempre
fala que eu sou o erro, sempre fui. Isis, não se engane, todos acham isso.
- Você não é o erro, você é outro gênio, só que
incompreendido e não se esqueça, se não fosse por você nós não estaríamos aqui se
lembra disso?
- É, mas você já esqueceu pelo jeito que era para serem só
dois gêmeos e que também estamos aqui pela conferência de Hiago com o
parlamento britânico. – Sou irônico e ríspido.
Amor o que vocês estão fuxicando aí? – Chega Thiago
abraçando Isis e beijando-a. Pego furioso meu café e me sento de frente para o
trem e de contas para a cafeteria.
Ao me acalmar mais e colocar meus pensamentos no lugar
percebo algo estranho acontecendo próximo aos trilhos, um casal de brasileiros
conversando em português. Fico observando-os mas é uma conversa breve, ele se
vai, é um homem moreno e bonito, mas antes de sair ele para na porta da estação
e acena para a moça sorrindo, não olho-a, mas sei que é para ela, é chocante
ver como se contrasta nele os olhos verdes e o sorriso branquíssimo, ele sai e
enquanto ele some na nevasca ela fica lá imóvel, aparenta passar mau e parece
que é culpa dele, ela parece uma estátua de mármore de tamanha brancura e
dureza, aparenta sequer ter sangue correndo nas veias. Eu cheguei até
levantar-me para ver se ela precisava de ajuda, mas logo chegou outro homem,
esse branco com as bochechas rosadas e com roupas bem extravagantes, ele a
beija e levou-a para rua.
Fico preocupado com a mulher, ela parecia como que sem
norte, apavorada e muito confusa. O que será que eles conversaram?
Logo chega nosso trem e nós entramos, sento-me bem longe de
Thiago e meu irmão senta-se ao meu lado deixando os três demais brincando e
zombando sós.
- o que foi? Nervoso com a estreia? – Fala ele calmamente
tentando disfarçar.
- Hí, você sabe o que é. O Thiago me tira do sério. –
Desabafo.
- Fica um pouco tranquilo, essa é sua noite, não deixe nada
nem ninguém estragar isso, nem nosso irmão gêmeo do mal, nem ninguém. – Ele brinca
me cutucando com o cotovelo e eu rio. Ele sempre acalma com esse jeito
protetor, apesar de termos a mesma idade.
Ao chegarmos em nossa estação descemos, caminhamos eu e Hiago
em silêncio, vendo os outros na frente brincando como chimpanzés loucos.
Chegando á galeria eu sou apresentado pelo anfitrião e dono da exposição, logo vem
umas pessoas me cumprimentarem.
Enquanto estou olhando um dos meus quadros e vendo o que
deveria melhorar, vem um homem conversar comigo. É o mesmo homem branco da
estação de trem, ele me apresenta sua noiva Elena que é brasileira e é uma
grande fã do meu trabalho. Ele arranha um português precário, mas compreendo o
que ele diz. Vou falar com a moça.
Ao me apresentar, percebo que ela ainda está um pouco
desnorteada. Pergunto sobre o homem moreno da estação e ela logo se espanta,
fica com medo do noivo Patrick me ouvir e me explica, quase sussurrando, que já
sonhou com aquele homem, mas nunca havia imaginado que ele existiria de fato e
que a deixaria daquele jeito quando ela o visse.
Ao decorrer de nossa conversa que já tornou o ruma da arte e
está em clima descontraído, acompanhado de um bom champanhe, a pergunto por
Patrick e vamos procura-lo.
O achamos na esquina da rua da exposição, ele está beijando outra
mulher de cabelos negros e vestido azul escuro. Elena fica pálida como antes,
mas não por ver seu noivo a traindo, mas sim por ver o moreno de olhos verdes
do outro lado gritando com a mulher de azul.
Elena nem percebe que seu noivo está se explicando, ela está
tão sem reação quanto na estação de trem, ela derrama uma lágrima e parece que
naquela gota d’água o mundo para. Nem a neve, nem a noite, nem eu ao seu lado,
nada faz acorda-la.
Eu simplesmente não sei o que está acontecendo, só sei que
preciso descobrir que é esse moreno de olhos verdes, qual a relação dele com a mulher
de vestido azul escuro e Elena e porquê ele causa essa reação louca em nela.
A questão é: Eis a tela esboçada, só falta eu desbotar a
cor.
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