Com os pés descalços vou caminhando a rua, pela
penumbra que os postes fracos deixam. Os paralelepípedos calcam meus pés, às
vezes os ferem. Mas isso já não me importa mais.
Meu coração está apertado em um nó à garganta, sinto
como se a parte direita do meu corpo não existisse.
Como é estranho ver o céu estrelado e com a lua
brilhante me iluminando, porém mesmo assim chove, molhando-me e dissolvendo-me
em mágoas, dor e tristeza.
Já não sei se choro ou se não sinto nada. Tudo que
consigo sentir é meu rosto é o formigamento de emoções intensas que se fundiram
com as gotas de chuva que lavam meu ser ferido pela sua falta.
Sinto em minha mão direita o toque ainda vívido da
sua, mas sei que não posso senti-lo de verdade.
- Como poderia se você me matou dentro de si e em
mim... –
Meus olhos castanho escuro, que por tantas vezes
fitaram os seus com docilidade e carinho, agora são sem vida e vagam a procura
de algo que não sabem o que é e que nunca acharam.
Meus pés sangram o caminhar sem destino e trilham
ruas tortuosas, tenebrosas e frias a procura do seu corpo quente colado no meu.
Meu sorriso fugiu com todos os sentimentos bons que
foram roubados como aquele beijo que me roubastes, aquela noite chuvosa, no
escuro, num canto, rindo e brincando, molhados como um casal de cinema.
Como nos amamos, foi intenso, foi vertiginoso, foi
doloroso.
Cada briga, cada separação, cada tapa, cada
reconciliação. Foi intenso o suficiente para que eu acabasse com minha vida
quando disse não me amar mais.
Como uma vez disse a você, “Se não podes me amar,
ninguém pode!”. E assim foi feito, se não podes me amar, ninguém pode.
Na escuridão da noite bebi meu legado, bebi meu
amor, meu ódio. Findei minha dor com amargura, rancor e veemência.
Dei-te meu coração e tu pisaste. Dei-te minha vida e
tu diluíste-a em pó.
Na escuridão da noite, em nossa casa, onde era nossa
casa. Na sala de estar eu bebi o elixir da minha morte e deixei-me apaixonar
pelo belo anjo negro que veio me buscar amaldiçoando-me a vagar por dentre os
mundos até o dia em que eu reencontre com meu eterno amor vivo e assassino sem
mancha de sangue nas mãos.
Logo vi meu corpo estirado ao assoalho, já sem vida.
Já pálido você chega com uma amiga à porta, uma suposta amiga...
Seus olhos são de pavor e de sentimentos fúnebres
sobre o cadáver que tu mesmo fizeste.
Você se joga sobre meu corpo e consigo sentir seu
calor por mais uma vez. Limpa minha boca suja de veneno e vômito. Me faz juras
de amor. Mas agora é tarde.
Ela liga para a emergência que se apressa e logo
chega friamente à cena, vendo você segurando minha mão com força e prostrando
suas dores sobre um corpo gélido e já sem vida.
Você se despede deitando sobre meus lábios carnudos,
frios e sujos, pela morte, o último beijo. O beijo que esperei aquela noite que
você disse não me amar mais. Aquela noite que te esperei para jantar, aquela
noite que esperei que você dissesse um “Eu te amo” e me abraçasse sem medo.
O pronto atendimento me leva e você fica na solidão,
com sua amiga.
Inconsolável não sabe o que fazer. E eu, permaneço
ao seu lado, mesmo não podendo ter-te, mantenho minha jura de permanecer
contigo para sempre!
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