Há um casal, um belo casal da grande São Paulo. O homem
perfeito para a mulher perfeita. Em exatidão extrema, almas gêmeas.
Eles fazem tudo juntos, riem, choram, brincam e se amam.
Ele adora a forma que ela sorri com vergonha e coloca o
longo cabelo loiro atrás da orelha. E ela ama quando ele a abraça com força e
lhe faz sentir protegida.
Eles são um, em brigas, em reconciliações, na alma. Não vê
um casal e sim uma só pessoa.
Lucia e Adamastor se misturam ao espelho. Os olhos negros, o
cabelo loiro com o castanho, o sorriso torto, a altura distinta. Até as mãos se
fundem em um só órgão que pulsa a vital magia e bombeia o pleno, terno, amor
dessas pobres criaturas.
Adamastor, em um dia de semana, a noite, se vestiu com sua
melhor roupa, se perfumou com o mais caro balsamo e se preparou com belas
flores do campo, as preferidas de Lucia, adornadas em um belo buquê e em uma
caixinha pequena e encantadora ele guardou seu coração, seus medos, seus
amores, paixões, angústias e temores, seus sentimentos mais profundos em uma
aliança de ouro branco e diamantes. Algo muito caro para seu orçamento, mas
algo que ele juntou o dinheiro por quase os dez anos de namoro para comprar.
Afinal, não é apenas um anel, não é para uma pessoa qualquer, é uma joia única,
feita a mão e é para a mulher da sua vida.
Um nervosismo descomunal toma conta de seu corpo atlético.
Um nervosismo que não existiu nem, quando se conheceram, nem no primeiro beijo,
muito menos na primeira vez juntos.
Ela abre a porta segundos depois dele tocar a campainha.
- Oi, meu amor. Tudo bem? – Beija-o sem reparar em todo seu
adorno. – Entra, estou com as meninas estu... – Ela puxa-o pelo pulso, mas ele
a segura do lado de fora fazendo-a parar e repara-lo. – O que houve para
tamanha “gala”? – Brinca. Ele se ajoelha e entrega-lhe o buquê.
As meninas descem as escadas e ficam paradas ao meio do
caminho vendo-os.
Ele pega a caixinha, trêmulo, e começa proferir palavras de
um sentimento transcendental que se quer sabia que existia.
- Adam para com isso, você sabe que eu não gosto desse tipo
de brincadeira. – Sem dar importância ao que sua amada disse ele pede seu
silêncio e ao abrir a caixinha de veludo negro, um clichê romântico, ele pede-a
em casamento.
Gélida com a situação ela não o responde. O murmurim das
meninas, eufóricas, começa. Uma lágrima escorre-lhe ao rosto duro como mármore.
- E então... – Seus olhos suplicam em esperança e cintilam
como as estrelas ao céu negro que os cobrem. Ela enxuga a lágrima e tenta
levantá-lo fechando a caixinha. Tenta desconversar e as meninas silenciam-se.
Ele se mantem firme ao chão, ajoelhado e confusamente apaixonado. (Maldito
Piegas) – O que foi Lucia. Qual é sua resposta???
As lágrimas começam a escorrerem-lhe e ela tenta as conter,
mas não consegue.
- Me desculpe... – Isso é o suficiente para que Adam
levantar, funebremente desapontado, largando as flores ao chão. – Espera Adam,
vem cá. Vamos...
- Basta, é o suficiente. – Vira-se gritando fazendo-a parar
na rua já que o seguia.
Ambos choram e
olham-se de uma distancia de dez passos, mas é o mesmo que uma infinidade de
dúvidas, medos, angústias e negações.
Finalmente ele dá-lhe as costas novamente e segue seu
caminho na escuridão da noite. As meninas ficam paradas à janela observando o
drama boquiabertas e esperam algum sinal de vida de Lucia para irem ao seu
encontro. De pé, estirada, imóvel, chorando no silêncio dos seus sentimentos
conturbados, sob as estrelas, dentro da tênue noite quente.
Ela entra, novamente em casa e sem emitir nenhum som vai
para o quarto, senta-se a cama e reflete estatelada. As meninas se olham e
sobem para conversar com ela.
- O que você fez? Você não podia! Por que fez aquilo? Não o
ama mais? Tem outro na parada? – Milhões de perguntas bombardeiam-na inerte e
tudo o que ela consegue responder chorando e com os olhos vazios é “ainda não; Eu ainda não estou pronta...!”.
Adamastor volta para casa revoltado, quebrando presentes,
joga a roupa para o lado, quebra, bagunça e suja tudo, mas nada lhe responde
suas indagações.
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