- O que você fez? Você não podia! Por que fez aquilo? Não o
ama mais? Tem outro na parada? – Milhões de perguntas bombardeiam-na inerte e
tudo o que ela consegue responder chorando e com os olhos vazios é “ainda não; Eu ainda não estou pronta...!”.
Adamastor volta para casa revoltado, quebrando presentes,
joga a roupa para o lado, quebra, bagunça e suja tudo, mas nada lhe responde
suas indagações.
Ele encara o grande quadro à sala de estar de seu
apartamento, pintado por ele mesmo, são os dois, nus, se beijando numa nuvem de
púrpura e amor.
- Por que Lucy? Só quero saber isso, o maldito Por Que! –
Suas lágrimas embaçam sua visão e destroem seu ser. Pega no sono aos escombros
de sua revolta.
A hora já é avançada e a noite, já solitária, pesa sobre os
ombros de Lucia que ainda acordada deixa ecoar uma pergunta, abafada, de uma de
suas amigas. “Não era o que queria? Não era o seu sonho?”.
É visível a confusão dela. Pobre menina, pobre alma.
Os primeiros raios de sol entram na janela e acordam
Adamastor para o trabalho. Os mesmos alertam Lucia para fazer a ligação ao seu
amado.
Ele vai, fúnebre e numa seriedade fria, para o chuveiro. Ela
manda mensagens de desculpas e pedindo para que ele ligue assim que acordar.
Mas mesmo podendo ligar ele a ignora.
As horas passam, suas amigas voltam ao seu quarto e
questionam-na se já ligou para ele e cedendo a pressão ela o faz.
Ele está na rua a caminho da empresa onde trabalha ouvindo
músicas tristes no fone de ouvido e se preparando para mais um dia de vida.
Lucia liga e ele rejeita, duas vezes. Na terceira ele atende
com um “Oi” irritado e suave, sutil como uma espada cujo fio finda a vida de um
infeliz qualquer no escuro, sombrio e silencioso da noite.
Adam está atravessando a rua e antes de Lucia se desculpar
um carro que canta pneus atropela-o na Paulista. O celular, a pasta, papeis, o
corpo, tudo voa pelos ares e quando ele, já sem vida, encontra-se com o chão a
caixinha da aliança sai de sua pasta. Seu celular se espatifa desligando a
ligação e deixando Lucia culpada e sem saber de nada.
Depois de horas de aflição chega a resposta que tanto era
esperada por ela. “O que houve?” Ela se perguntava.
O telejornal responde, “Um rapaz de 25 anos, morreu
atropelado na Avenida Paulista pelas 08:15 da manhã e o motorista, que ainda
esta foragido, não prestou socorro. A policia procura o culpado pelo crime. O
homem foi identificado como Adamastor Cardoso, um artista plástico em início de
carreira e uma carreira que estava crescendo absurdamente pelo seu talento.”.
Um nó dá-se a sua garganta e seu coração aperta-se
procurando refúgio, seu rosto se banha por uma fatalidade que, sabe-se Deus se,
poderia ter sido evitada.
As lágrimas de seu luto destroem a mulher que um dia foi e
faz com que ela me abrace. Eu, por minha vez, abraço-a com meus tentáculos
pegajosos e acolho sua decisão levando-a até o fio de sua vida, onde ela mesma,
com uma tesoura de ouro branco e diamantes corta e finda-se.
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