Vejo suas costas negras nua, marcadas pelo meu amor. Você
está debruçada à janela, observa a futilidade dos cidadãos de São Paulo transitarem
à paulista com seu cigarro entre os dedos. Seus olhos são tristes e vazios.
Observo-a ainda à cama, envolta aos alvos lençóis deste
reles motel que te arrastei para comemorarmos nosso 9º Valentine’s day. Para muitos não tem importância, mas recordo de
como era nosso segredo na escola. Apenas nós comemorávamos o dia dos namorados –
Ou no nosso caso, das namoradas –. Era nosso segredo, a única forma de podermos
fugir desse duro mundo de concreto e vivermos como queríamos.
Não sei se te recordas, mas lembro-me como se fosse ontem – Desabo sobre os travesseiros fofos e brancos a pensar. – Ao fim das aulas íamos à um bosque que só
nós conhecíamos e fazíamos piquenique sobre uma toalha vermelha. Alí mesmo
trocávamos carícias. Alí nos amávamos, alí nos fazíamos mulheres, nos fazíamos uma
da outra.Não sei se te recordas, mas lembro-me como se fosse ontem – Desabo sobre os travesseiros fofos e brancos a pensar. – Ao fim das aulas íamos à um bosque que só
- Ana... – Ela me ignora. Ergo meu corpo deixando o lenço
escorregar e descobrir um de meus seios apoiando-me com o braço atrás do
quadril. – Ana! – Falo com mais decisão. Ela vira o olhar lentamente para mim
como quem não tem a mínima pretensão de lutar. – O que te preocupas? – Ela hesita
fitando-me com um olhar vazio e seriedade aos carnudos lábios de negra.
Retribuo o olhar com dureza. – Fiz algo que lhe desagradou? – Lanço-lhe um
olhar de preocupação. Revirando os olhos
ela vem ao meu encontro, desfilando até os pés da cama e sobe-a engatinhando até
estar sobre mim deitando aos meus lábios um leve beijo.
Ela se vira a minha esquerda e senta-se reclinada puxando-me
para deitar-me ao seu colo. Sua pele é macia e mesmo depois de horas e horas do
ardor de nossa paixão sua pele ainda cheira ao seu hidratante de pêssego, o meu
preferido. Acaricia meus longos cabelos iluminados por mechas loiras como quem
acaricia um gato olhando a parede ao fundo do quarto com preocupação sem emitir
nenhuma palavra.
Tudo isso me preocupa, nunca vi minha amada assim. Nove anos
de namoro, nove, e jamais a vi neste estado. É preocupante. Volto meu olhar
para dentro de seus grandes olhos castanhos que refletem os fantasmas que perturbam
sua alma. As lágrimas trasbordam ao silêncio e enxugo-as com o polegar sobre as
maçãs de seu rosto. Olha para mim e sorri com suavidade. Debruças sobre mim e
saboreia-me um beijo molhado massageando meus lábios contra os seus.
Seu toque suave desenha o contorno do meu corpo
acariciando-me e excitando-me de uma forma que apenas você pode fazer. Sinto os
pelos da minha nuca arrepiarem enquanto me acaricia. Pega a meu ceio com a mão
cheia e chupas meu mamilo sedenta como uma criança faminta. Sua voracidade é de
prazer transcendental.
Desposa beijos por todo meu corpo e vira-se para que possa
me possuir de frente com um sorriso lascivo. Desce com os lábios para entre
minhas pernas e entre beijos suaves você chupa-me o grelo. Enfias a língua e
experimenta-me fazendo tocar as estrelas que nunca pude dar-te. Seguro sua
cabeça com as mãos e elevo minhas pernas gemendo em prazer. Sinto seu sorriso
enquanto brinca ao meu ânus com sua língua e estimula-me com sua mão. Seu toque
é delicado com os dedos. Tem toda uma técnica de tocar-me sem me arranhar com
suas grandes unhas.
Você sobe como uma pantera negra, engatinhando. Seu olhar é
quase amarelado de fome e luxúria. Subo seu corpo sentindo sua pele acariciar a
minha em uma fusão perfeita. Envolvo o mamilo esquerdo de seu robusto peito
aveludado com meus lábios em suaves beijos e finalmente cedo à tentação e
chupo-o acariciando sua macia pele de pêssego. Desço com minha mão direita e
brinco com seu clitóris.
Seus gemidos são encorpados e excitam-me. Eles oscilam entre
gemidos e leves gritos de puro prazer. Ela desce o corpo e beija-me pondo a mão
no mesmo ponto onde a minha está nela e alí transcendemos no toque de nossas
línguas. Tornamo-nos apenas uma e logo chegamos ao ápice com cores psicodélicas
envolvendo-nos, gemendo como loucas e gozando como se fosse nossa primeira vez.
O prazer com ela é único, algo tão purus,
tão perfeito, tão... Ela.
Adormeço em seu seio sentindo sua respiração ofegante e as
batidas do seu coração. Adormeço aos braços de minha amada esperando que este
momento nunca se acabe.
Quando percebo estamos voando ao céu noturno de mãos dadas,
ela solta-me e sento a uma estrela que fica furiosa comigo. Ela flutua com
majestade e precipito-me a ela, mas ela foge com um sorriso aos lábios. Quando percebe
que cansei para sentada a lua, de pernas cruzadas, com uma faixa de seda de seu
vestido rosê caindo por sobre sua coxa esquerda deixando-me ver suas roliças
pernas desenhadas por Deus. Sorris para mim com ar provocador e precipito até
você novamente, mas quando alcanço-a desfaze-te em minhas mãos como areia que
escorre por entre os dedos.
É quando percebo que não flutuo mais e sim caio, caio e caio
por entre as estrelas deixando um rastro de luz, sem que possa me agarrar a nada,
nem ninguém. Não sinto-me mais livre e sim insegura, com medo, frágil e
sozinha. Grito de desespero, mas minha voz não sai. Sinto falta de ar, sinto-me
asfixiada. E quando finalmente encontro o chão, acordo. E ninguém mais está ao quarto
além de mim. Sem nenhum bilhete, sem nenhuma notícia, sem nenhum rastro.
Suas roupas ainda estão perfeitamente dobradas como
deixastes na mesinha sob a tv á parede oposta do quarto. Enrolo-me ao roupão do
motel e saio a sua procura. Grito seu nome, mas ninguém aparece. Vou até a rua
e tudo o que vejo é o nada. Roupas deixadas ao chão, bicicletas caídas, carros
batidos, carrinhos de bebê parados ao meio da rua. Ninguém além de mim, esquecida,
abandonada, na escuridão da cidade de São Paulo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário