domingo, 16 de março de 2014

Black Ana & White Me



Vejo suas costas negras nua, marcadas pelo meu amor. Você está debruçada à janela, observa a futilidade dos cidadãos de São Paulo transitarem à paulista com seu cigarro entre os dedos. Seus olhos são tristes e vazios.
Observo-a ainda à cama, envolta aos alvos lençóis deste reles motel que te arrastei para comemorarmos nosso 9º Valentine’s day. Para muitos não tem importância, mas recordo de como era nosso segredo na escola. Apenas nós comemorávamos o dia dos namorados – Ou no nosso caso, das namoradas –. Era nosso segredo, a única forma de podermos fugir desse duro mundo de concreto e vivermos como queríamos.
Não sei se te recordas, mas lembro-me como se fosse ontem – Desabo sobre os travesseiros fofos e brancos a pensar. – Ao fim das aulas íamos à um bosque que só
nós conhecíamos e fazíamos piquenique sobre uma toalha vermelha. Alí mesmo trocávamos carícias. Alí nos amávamos, alí nos fazíamos mulheres, nos fazíamos uma da outra.
- Ana... – Ela me ignora. Ergo meu corpo deixando o lenço escorregar e descobrir um de meus seios apoiando-me com o braço atrás do quadril. – Ana! – Falo com mais decisão. Ela vira o olhar lentamente para mim como quem não tem a mínima pretensão de lutar. – O que te preocupas? – Ela hesita fitando-me com um olhar vazio e seriedade aos carnudos lábios de negra. Retribuo o olhar com dureza. – Fiz algo que lhe desagradou? – Lanço-lhe um olhar de preocupação.  Revirando os olhos ela vem ao meu encontro, desfilando até os pés da cama e sobe-a engatinhando até estar sobre mim deitando aos meus lábios um leve beijo.
Ela se vira a minha esquerda e senta-se reclinada puxando-me para deitar-me ao seu colo. Sua pele é macia e mesmo depois de horas e horas do ardor de nossa paixão sua pele ainda cheira ao seu hidratante de pêssego, o meu preferido. Acaricia meus longos cabelos iluminados por mechas loiras como quem acaricia um gato olhando a parede ao fundo do quarto com preocupação sem emitir nenhuma palavra.
Tudo isso me preocupa, nunca vi minha amada assim. Nove anos de namoro, nove, e jamais a vi neste estado. É preocupante. Volto meu olhar para dentro de seus grandes olhos castanhos que refletem os fantasmas que perturbam sua alma. As lágrimas trasbordam ao silêncio e enxugo-as com o polegar sobre as maçãs de seu rosto. Olha para mim e sorri com suavidade. Debruças sobre mim e saboreia-me um beijo molhado massageando meus lábios contra os seus.
Seu toque suave desenha o contorno do meu corpo acariciando-me e excitando-me de uma forma que apenas você pode fazer. Sinto os pelos da minha nuca arrepiarem enquanto me acaricia. Pega a meu ceio com a mão cheia e chupas meu mamilo sedenta como uma criança faminta. Sua voracidade é de prazer transcendental.
Desposa beijos por todo meu corpo e vira-se para que possa me possuir de frente com um sorriso lascivo. Desce com os lábios para entre minhas pernas e entre beijos suaves você chupa-me o grelo. Enfias a língua e experimenta-me fazendo tocar as estrelas que nunca pude dar-te. Seguro sua cabeça com as mãos e elevo minhas pernas gemendo em prazer. Sinto seu sorriso enquanto brinca ao meu ânus com sua língua e estimula-me com sua mão. Seu toque é delicado com os dedos. Tem toda uma técnica de tocar-me sem me arranhar com suas grandes unhas.
Você sobe como uma pantera negra, engatinhando. Seu olhar é quase amarelado de fome e luxúria. Subo seu corpo sentindo sua pele acariciar a minha em uma fusão perfeita. Envolvo o mamilo esquerdo de seu robusto peito aveludado com meus lábios em suaves beijos e finalmente cedo à tentação e chupo-o acariciando sua macia pele de pêssego. Desço com minha mão direita e brinco com seu clitóris.
Seus gemidos são encorpados e excitam-me. Eles oscilam entre gemidos e leves gritos de puro prazer. Ela desce o corpo e beija-me pondo a mão no mesmo ponto onde a minha está nela e alí transcendemos no toque de nossas línguas. Tornamo-nos apenas uma e logo chegamos ao ápice com cores psicodélicas envolvendo-nos, gemendo como loucas e gozando como se fosse nossa primeira vez. O prazer com ela é único, algo tão purus, tão perfeito, tão... Ela.
Adormeço em seu seio sentindo sua respiração ofegante e as batidas do seu coração. Adormeço aos braços de minha amada esperando que este momento nunca se acabe.
Quando percebo estamos voando ao céu noturno de mãos dadas, ela solta-me e sento a uma estrela que fica furiosa comigo. Ela flutua com majestade e precipito-me a ela, mas ela foge com um sorriso aos lábios. Quando percebe que cansei para sentada a lua, de pernas cruzadas, com uma faixa de seda de seu vestido rosê caindo por sobre sua coxa esquerda deixando-me ver suas roliças pernas desenhadas por Deus. Sorris para mim com ar provocador e precipito até você novamente, mas quando alcanço-a desfaze-te em minhas mãos como areia que escorre por entre os dedos.
É quando percebo que não flutuo mais e sim caio, caio e caio por entre as estrelas deixando um rastro de luz, sem que possa me agarrar a nada, nem ninguém. Não sinto-me mais livre e sim insegura, com medo, frágil e sozinha. Grito de desespero, mas minha voz não sai. Sinto falta de ar, sinto-me asfixiada. E quando finalmente encontro o chão, acordo. E ninguém mais está ao quarto além de mim. Sem nenhum bilhete, sem nenhuma notícia, sem nenhum rastro.
Suas roupas ainda estão perfeitamente dobradas como deixastes na mesinha sob a tv á parede oposta do quarto. Enrolo-me ao roupão do motel e saio a sua procura. Grito seu nome, mas ninguém aparece. Vou até a rua e tudo o que vejo é o nada. Roupas deixadas ao chão, bicicletas caídas, carros batidos, carrinhos de bebê parados ao meio da rua. Ninguém além de mim, esquecida, abandonada, na escuridão da cidade de São Paulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário