Preso em meu escritório, com os móveis arrastados
escorando as grandes portas de entrada forçadas pelos meus demônios. As janelas
estão tapadas por tábuas pregadas pela minha segurança. As cortinas estão
rasgadas e a lareira sempre acesa. –
Nunca sei quando é dia ou noite. – O sol já não nasce mais lá fora. A escuridão
tomou conta de tudo e os poucos sobreviventes estão como eu. Esperando socorro.
– Um socorro que jamais chegará!
Na penumbra de um cômodo espaçoso, um lugar que já
foi aconchegante, hoje é apenas mais um lugar fétido e repulsivo. Com minha
máquina de escrever, um copo, sempre pela metade, de um bom Scotch, um cigarro,
alvo como meus ossos quase a mostra, que nunca se apaga a minha boca. Vestindo
apenas cuecas. – Os “dias” são sempre muito quentes e as “noites” gélidas. –
Minhas roupas virarão combustível do fogo que não se apaga e me mantém vivo.
Com os dedos frenéticos alimento meus demônios,
suscito esperanças e orno-me de armas. Alimento-me de minhas próprias ilusões.
Estas que me mantém vivo mas não enchem barriga. Corpo este que range os dentes
de frio e derrete-se sobre a velha máquina de escrever.
Puramente pele e osso. Quase morto. Sua única
salvação é seu amor incomensurável, inexplicável e puro, quase infantil, por
algo desconhecido, que está ali, preso com ele no escuro escritório úmido, na
penumbra da lareira, ornado de um como de Scotch sempre pela metade e de um
cigarro que nunca se apaga de sua boca.

Felipe Dick
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