Com pressa ajeito uma vitamina e visto-me como se fosse
para um combate. Calço calçados confortáveis como se fossem coturnos de guerra.
Visto minhas roupas de ginástica como se fosse uma armadura. Bebo o denso
líquido da vitamina como se fosse a última refeição da minha vida e finalmente
viro-me para beijar você como se fosse nosso último beijo. Mas, apesar de
procurar, não vejo ninguém. Saio de casa sem pensar muito no assunto com os
fones de ouvido bem posicionados e estrondando qualquer música que me fizesse
não pensar muito.
Começo minha corrida sem um destino bem pré delimitado.
Apenas corro como se corresse de algo ou atrás de alguém. Mas tento não pensar
muito nisso.
A lua ilumina meus passos que são o único som que ecoa
por toda cidade dormindo suas últimas horas de sono matinal. De repente sou
surpreendido por uma lembrança de nós na praia. Comigo deitado sobre seu colo.
Seu cabelo balançando com o vento e seu rosto sendo beijado belo sol deixando-o
com uma tonalidade dourada na pele. Meu coração batia forte como bate agora em
um frenesi de sentimentos conflituosos. Você afagava meus cabelos e a outra mão
mantinha-a dentro da minha camisa, sobre meu peito, sentindo meu coração pulsar
desritmado. Você olhou nos meus olhos sorrindo. Eu levantei devagar e nos
beijamos delicadamente como nos filmes hollywoodianos.
Balanço a cabeça com violência tentando fazer essa
memória cair dela. Mas não some essa imagem de nosso beijo cálido, com nossas
camisas movendo-se ao vento e nossos corpos sendo envolvidos pelo calor do sol
que se punha ao horizonte na praia.
Paro por um instante, respiro fundo, bebo um pouco d’água
e retomando meu norte volto a correr. A música envolve-me como em um abraço
afetuoso. Cada batida forte, cada agudo da cantora como se fossem para mim. E
vejo seu sorriso no escuro da noite, seu rosto lindo me dizendo “Bom dia meu
amor!” ainda com os olhos fechados.
Recuso-me penar nisso e tento correr mais rápido como se
fugisse dessa imagem deixando-o para trás. E quando finalmente penso ter
conseguido vejo-me em uma boate enquanto corro. A música alta, muitas pessoas
dançando e você ao longe parado, com um olhar acolhedor me chamando. Meu
coração aperta e um nó atasse à garganta. Caminho até você abrindo uma clareira
entre nós ao meio das pessoas que dançam
e quando nos beijamos todas as outras pessoas também são tocadas por nossa
paixão se beijando também. Acordo da alucinação e quase sou atropelado por um
carro que cantava pneus na direção oposta à minha.
Gesticulo nervoso como se pudesse tirar você de dentro de
mim. E volto para casa com o rosto molhado com um misto de suor e lágrimas de
dor, mágoa, saudade, uma paixão mal resolvida talvez.
Chegando em casa sento-me aos prantos e quando finalmente
acalmo-me volto a banhar-me tirando todo o suor do corpo e enquanto deslizo o
sabonete pelo meu corpo penso em seu toque suave que desbravou todo esse corpo
nu, que brincou, beijou, mordeu e amor em intensas noites de amor, com um fogo incontrolável,
um fogo que tudo consome, que tudo cria, que tudo gera. Um fogo que nos ligava
e liga por dentre toda a eternidade, gerações e universos.
Ligo para você ainda enrolado na toalha com o corpo
úmido. Sei que você encara seu celular tocando mas não o atende. Isso dói, pois
sei que fomos feitos um para o outro para todo o sempre e sempre
e sempre sem
fim...!
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