domingo, 22 de setembro de 2013

Velório de Bob



- Para sempre amigos, essa foi a promessa que eu o fiz. Para sempre.
Não compreendo muito bem, ainda toda essa história de morte ou de passagem, ou de perda.
É estranho, pois ainda sinto-o aqui ao meu lado. É como se a qualquer momento fosse vê-lo entrar por aquela porta abanando o rabo, cabisbaixo. Mas sei que isso nunca mais acontecerá.
Será que no céu tem cães, ou gatos, ou qualquer animal de estimação?
Na verdade não sei bem se isso é relevante. Mas sei que sentirei a falta daquele pulguento.
Recordo-me como se fosse hoje o dia em que fui ao canil. O lugar era bem tratado, mas era tão frio quanto as casinhas de concreto onde os cães dormiam. Engaiolados com grades de ferro fechadas. Lembro-me que era estranho, não haviam gatos, somente cães e os cães eram tristes ou ferozes de mais.
Lembro-me que queria um cãozinho de raça pequena, mas não achei nenhum. Quando estava saindo me chamou atenção o gato da dona do lugar. Uma mulher muito simpática com um gatinho preto com branco, chamado frajola, muito lindinho. E á baixo do gato estava a casinha de um cão cor de mel, com a pelagem falha e alguns machucados a mostra. Ele tinha feição acuada e olhar triste, ao mesmo tempo feroz. Suas orelhas eram baixas e seu porte era médio para pequeno. Um cãozinho com a fisionomia singular. Nunca havia visto, na minha vida, um cachorro tão estranho. Mas me cativou. – Maldito! –
Eu perguntei a mulher o que ele tinha e ela disse que encontrou-o na rua, machucado a duas semanas, mas ele não deixa ninguém cuidar dele e que havia marcado de no fim de semana o veterinário sacrificá-lo pois é um animal muito feroz e estava muito machucado. Ele sofreria menos. E não comia nada dede que chegou lá.
Perguntei se ele foi vacinado e ela respondeu que sim e que após tomar todas as vacinas mordeu os enfermeiros, as meninas que ajudavam a segurá-lo e o veterinário também.
Não me aguentei e soltei umas risadinhas. (Feroz e pequeno, o que eu preciso...) “Vou leva-lo!”, eu disse decidido e ela ficou perplexa. Ela havia me mostrado milhões de cães conforme minha descrição e eu queria o mais feio e mais raivoso. “Sim e ele vai ser outro depois que eu lhe der um lar.”
Depois de muita discussão eu consegui ganhar e ela preparou uma gaiola, ou sei lá como chama aquela coisa para levar um cachorro para viajar, um treco tipo uma malinha, sabe...
Enfim, eu levei-o direto para o veterinário e nada do cachorro demonstrar ferocidade ou algo do tipo, somente estava lá, amuado, na dele, deitado na “gaiola”.
O veterinário olhou-o, aplicou vacinas, fez curativos e receitou remédios. Ele rosnou um pouco e ameaçou chorar, mas foi irredutível.
Nada fora do comum, já havia preparado-lhe uma cama em casa, com uma vasilhinha para a comida e outra para água, havia brinquedos e jornal para ele começar a fazer as necessidades antes de adestra-lo e tudo mais. Mas assim que abaixei a gaiola ao chão e abri a grade ele levantou-se com graça e desfilou para fora, quando terminou de sair ele olhou tudo, depois olhou-me com desprezo, assustei-me com tamanha humanidade, depois deitou-se no tapete da sala. Falei: “Não, não. Sua cama é aqui.” E apontei-lhe, mas ele fechou os olhos com indiferença e dormiu no meu tapete felpudo branco do centro da sala. Dei de ombros e entreguei-lhe as contas indo dormir.
Depois disso, nos dias que se seguiram eu tentei ensiná-lo a comer, fiquei de quatro e mostrei onde ficava a comida. Ensinei onde bebia água, ensinei-o a ir no quintal para fazer as necessidades, fiz xixi nas minhas flores, mas ele não aprendia nada. Continuou bebendo água que restava no box do banheiro após meu banho, ou da privada, comendo minhas flores e as plantas do quintal ou tudo, as almofadas do meu sofá, meus biscoitos do armário e tudo. Continuou a fazer cocô no banheiro, GENTE COCÔ NO BANHEIRO, NO CHÃO DO BANHEIRO. – Arregalo os olhos e vejo algumas risadas. – E dormir no tapete da sala havia se tornado minha menor preocupação.
Eu tentei fazer os curativos e dar-lhe os remédios, mas vocês não sabem o sacrifício que foi. Até que descobri que ele gostava de carne crua. Então eu escondi uns comprimidos no meio da carne moída. Aí o que ele fez? Comeu a carne e deixou os comprimidos. E minha cara ficou como, de otário.
Eu empurrei goela a baixo, tomei muitas mordidas, mas ao menos tratei dele. Ao fim do ano ele era um cão saldável e brincalhão. Brincalhão até de mais.
Acreditam que ele falava comigo? Ele me desprezava com um olhar de baixo à cima e dava-me as costas quando brigava com ele. Ou concordava com a cabeça, piscava com um olho só quando convinha combinarmos algo e entre outras coisas.
Ele era uma peste, quando recebia convidados ele rosnava ou deitava-se ao nosso meio e peidava. Isso quando uma amiga minha não pegava-o ao colo e ele espirrava na cara dela. Mas a gota d’água foi quando ele tentou transar com a perna do meu namorado. Para mim isso foi o fim. Tranquei-o uma semana na área de serviços só com água, comida, cama e brinquedos. Ele ficava me olhando, deitado à porta, com um brinquedo entre as patas. Mal comia com raiva e fez muito cocô, tanto que tive que soltá-lo para limpar. Quando terminei de limpar ele veio com toda sua graça e glamour e quando fui ver minha casa estava toda cagada e rasgada e revirada e mijada e um caos. Respirei fundo, olhei em seus olhos e falei com calma... “VIADINHO”. Depois sucumbi ao desespero rindo de toda a situação.
Assumo que rimos e choramos muitas vezes. Nossas brigas eram mais que frequentes, quase diárias. Mas o momento mais doloroso que tivemos foi o câncer dele. Um câncer maligno que destruí-o a ponto dele, tão forte e tão humano, não resistir a cirurgia.
Nunca vi um animal tão humano, nunca havia sentido algo assim por um cão, nunca.
Ele partiu e deixou um buraco em mim, um buraco que nunca vai ser preenchido por nenhum outro animal. Pois para mim ele não foi um mero animal de estimação, ele foi um amigo, um companheiro, um leal escudeiro e principalmente...
Bem consigo descrevê-lo com apenas uma palavra.
Bob!

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