- Para sempre amigos, essa foi a promessa que eu o
fiz. Para sempre.
Não compreendo muito bem, ainda toda essa história
de morte ou de passagem, ou de perda.
É estranho, pois ainda sinto-o aqui ao meu lado. É
como se a qualquer momento fosse vê-lo entrar por aquela porta abanando o rabo,
cabisbaixo. Mas sei que isso nunca mais acontecerá.
Será que no céu tem cães, ou gatos, ou qualquer
animal de estimação?
Na verdade não sei bem se isso é relevante. Mas sei
que sentirei a falta daquele pulguento.
Recordo-me como se fosse hoje o dia em que fui ao
canil. O lugar era bem tratado, mas era tão frio quanto as casinhas de concreto
onde os cães dormiam. Engaiolados com grades de ferro fechadas. Lembro-me que
era estranho, não haviam gatos, somente cães e os cães eram tristes ou ferozes
de mais.
Lembro-me que queria um cãozinho de raça pequena,
mas não achei nenhum. Quando estava saindo me chamou atenção o gato da dona do
lugar. Uma mulher muito simpática com um gatinho preto com branco, chamado
frajola, muito lindinho. E á baixo do gato estava a casinha de um cão cor de
mel, com a pelagem falha e alguns machucados a mostra. Ele tinha feição acuada
e olhar triste, ao mesmo tempo feroz. Suas orelhas eram baixas e seu porte era
médio para pequeno. Um cãozinho com a fisionomia singular. Nunca havia visto,
na minha vida, um cachorro tão estranho. Mas me cativou. – Maldito! –
Eu perguntei a mulher o que ele tinha e ela disse
que encontrou-o na rua, machucado a duas semanas, mas ele não deixa ninguém
cuidar dele e que havia marcado de no fim de semana o veterinário sacrificá-lo
pois é um animal muito feroz e estava muito machucado. Ele sofreria menos. E
não comia nada dede que chegou lá.
Perguntei se ele foi vacinado e ela respondeu que
sim e que após tomar todas as vacinas mordeu os enfermeiros, as meninas que
ajudavam a segurá-lo e o veterinário também.
Não me aguentei e soltei umas risadinhas. (Feroz e
pequeno, o que eu preciso...) “Vou leva-lo!”, eu disse decidido e ela ficou
perplexa. Ela havia me mostrado milhões de cães conforme minha descrição e eu
queria o mais feio e mais raivoso. “Sim e ele vai ser outro depois que eu lhe
der um lar.”
Depois de muita discussão eu consegui ganhar e ela
preparou uma gaiola, ou sei lá como chama aquela coisa para levar um cachorro para
viajar, um treco tipo uma malinha, sabe...
Enfim, eu levei-o direto para o veterinário e nada
do cachorro demonstrar ferocidade ou algo do tipo, somente estava lá, amuado,
na dele, deitado na “gaiola”.
O veterinário olhou-o, aplicou vacinas, fez
curativos e receitou remédios. Ele rosnou um pouco e ameaçou chorar, mas foi irredutível.
Nada fora do comum, já havia preparado-lhe uma cama
em casa, com uma vasilhinha para a comida e outra para água, havia brinquedos e
jornal para ele começar a fazer as necessidades antes de adestra-lo e tudo
mais. Mas assim que abaixei a gaiola ao chão e abri a grade ele levantou-se com
graça e desfilou para fora, quando terminou de sair ele olhou tudo, depois
olhou-me com desprezo, assustei-me com tamanha humanidade, depois deitou-se no
tapete da sala. Falei: “Não, não. Sua cama é aqui.” E apontei-lhe, mas ele
fechou os olhos com indiferença e dormiu no meu tapete felpudo branco do centro
da sala. Dei de ombros e entreguei-lhe as contas indo dormir.
Depois disso, nos dias que se seguiram eu tentei
ensiná-lo a comer, fiquei de quatro e mostrei onde ficava a comida. Ensinei
onde bebia água, ensinei-o a ir no quintal para fazer as necessidades, fiz xixi
nas minhas flores, mas ele não aprendia nada. Continuou bebendo água que
restava no box do banheiro após meu banho, ou da privada, comendo minhas flores
e as plantas do quintal ou tudo, as almofadas do meu sofá, meus biscoitos do
armário e tudo. Continuou a fazer cocô no banheiro, GENTE COCÔ NO BANHEIRO, NO
CHÃO DO BANHEIRO. – Arregalo os olhos e vejo algumas risadas. – E dormir no
tapete da sala havia se tornado minha menor preocupação.
Eu tentei fazer os curativos e dar-lhe os remédios,
mas vocês não sabem o sacrifício que foi. Até que descobri que ele gostava de
carne crua. Então eu escondi uns comprimidos no meio da carne moída. Aí o que
ele fez? Comeu a carne e deixou os comprimidos. E minha cara ficou como, de
otário.
Eu empurrei goela a baixo, tomei muitas mordidas,
mas ao menos tratei dele. Ao fim do ano ele era um cão saldável e brincalhão.
Brincalhão até de mais.
Acreditam que ele falava comigo? Ele me desprezava
com um olhar de baixo à cima e dava-me as costas quando brigava com ele. Ou
concordava com a cabeça, piscava com um olho só quando convinha combinarmos
algo e entre outras coisas.
Ele era uma peste, quando recebia convidados ele
rosnava ou deitava-se ao nosso meio e peidava. Isso quando uma amiga minha não
pegava-o ao colo e ele espirrava na cara dela. Mas a gota d’água foi quando ele
tentou transar com a perna do meu namorado. Para mim isso foi o fim. Tranquei-o
uma semana na área de serviços só com água, comida, cama e brinquedos. Ele
ficava me olhando, deitado à porta, com um brinquedo entre as patas. Mal comia
com raiva e fez muito cocô, tanto que tive que soltá-lo para limpar. Quando
terminei de limpar ele veio com toda sua graça e glamour e quando fui ver minha
casa estava toda cagada e rasgada e revirada e mijada e um caos. Respirei
fundo, olhei em seus olhos e falei com calma... “VIADINHO”. Depois sucumbi ao
desespero rindo de toda a situação.
Assumo que rimos e choramos muitas vezes. Nossas
brigas eram mais que frequentes, quase diárias. Mas o momento mais doloroso que
tivemos foi o câncer dele. Um câncer maligno que destruí-o a ponto dele, tão
forte e tão humano, não resistir a cirurgia.
Nunca vi um animal tão humano, nunca havia sentido
algo assim por um cão, nunca.
Ele partiu e deixou um buraco em mim, um buraco que
nunca vai ser preenchido por nenhum outro animal. Pois para mim ele não foi um
mero animal de estimação, ele foi um amigo, um companheiro, um leal escudeiro e
principalmente...
Bem consigo descrevê-lo com apenas uma palavra.
Bob!
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