terça-feira, 2 de julho de 2013

As Sombras da Meia Noite



Caminho muito confuso, em passos tardios e tortuosos da confusão e melancolia da vida. Com olhos cansados e embaçados pelo elixir da minha dor caminho ao escuro da noite, na solidão, com alguns postes a iluminarem meu caminho e meus demônios a me atormentarem  pelas frestas escuras de pequenas lacunas entre as casas, árvores ou...
Olho rápido para trás – Ouviu isso? – Penso comigo mesmo.
Enxugo as lágrimas e fico parado no meio da rua tentando examinar a sombra negra que apareceu do nada atrás de mim. Vou seguindo meu caminho dando passos de costas, com o olhar fixo na coisa escura imóvel.
Inerte deixo de dar-lhe importância e volto a trilhar rumo a casa. Só que meus pensamentos melancólicos foram tomados pelo susto da criatura sombria que surgiu do nada.
Caminhando ouço outro estouro, a
gora mais alto e com um som bem mais característico. Parecia o som de um disjuntor desligando-se. A lâmpada do poste a frente da sombra sinistra apagou também. Arregalo os olhos assustado e viro-me bruscamente. A coisa ainda está parada. Forço a visão, aperto os olhos e vejo como se a coisa crescesse. Fico apavorado e sem reação. Parece que meu medo alimenta a criatura e conforme ela se alimenta ela cresce.
Não é nada além de uma sombra escura sob a penumbra de postes apagados. Mas minha visão é falha e a noite é escura. Pode ser algo pior do que realmente estou vendo. De qualquer forma meu coração esta palpitando forte e acelerado. O suor firo começa a escorrer e minha carne começa a tremer por debaixo da minha pele morena.
A sombra avança para próximo de mim numa velocidade inenarrável. O surto de adrenalina é tão forte que me derruba para trás. Mesmo estando a dois postes de distancia da coisa estou em pânico.
Olhos vermelhos se abrem e sinto-os penetrar minha alma. Quase me urino de medo. Meu coração se aperta à garganta e meu corpo treme em frenesi de medo.
O poste a frente da sombra começa a piscar, os olhos voltam-se para a lâmpada que já não está com a luz muito forte. Meus olhos seguem seu olhar e o medo me não me deixa pensar.
Volto novamente meu olhar para ele e vejo-o abrir um sorriso afiado em dentes brancos. Atrás de si surgem outras sombras menores. Aparentemente mais dóceis e acanhadas. Seus olhos são amarelados como a fome da Nigéria e o medo que me domina. Vejo garras afiadas de cor prata, como as facas da alta burguesia portuguesa.
A luz se apaga e as criaturinhas voam ao meu encontro com garras preparadas, dentes ruídos e bocas largas, salivando de fome, desejando minha carne. O susto foi tamanho que levantei-me num pulo. Elas pararam no limite da luz com a sombra. Começo a correr em direção minha casa.
Minha mochila bate às costas e seu peso já não me é tão incômodo. Meus passos largos e apressados parecem não me levar para muito longe. Ao passar pelo segundo poste a luz próxima deles se apaga num estouro. Apresso-me dando uma olhada sobre os ombros.
A criatura, primeira, caminha com calma até o meu encontro, as pequeninas voam desejando meu sangue.
As luzes vão se apagando em um efeito em cadeia e a minha casa se aproxima.
Estou quase ao portão e há apenas um poste de distancia entre nós. A luz se apaga. Entro ao meu quintal e subo as escadas em quase um passo. A luz da varanda está piscando.  Entro à varanda e a luz do poste a frente se apaga. Estou com a chave à mão e enquanto enfio-a na fechadura , dou a primeira volta, a segunda e a luz da varanda se apaga.
O medo me congela, sinto o hálito quente de algo sobre meu ombro. Sinto uma gosma a escorrer sobre meu pescoço. Sou jogado ao chão e começo a gritar.
Sinto cada dentada, cada unha e garra que penetra minha carne e tritura meus ossos. Até pouco antes de arrancarem meus olhos vejo a criatura-primeira a me olhar, de pé, sorrindo, só observando suas crias a me triturarem.
A dor e intensa e permanente. Meus gritos de agonia e horror são estrondosos e apavorantes.
Ninguém faz nada. E Ele só observa.
Ao fim. As criaturas estão saciadas. Deixam alguns pedaços sobre o piso e toda a varanda está coberta de sangue. Do chão, as portas, as paredes, os quadros, até o teto.
Ao fim, vejo como se ainda estivesse deitado ao chão, mas sei que nada mais do meu corpo restou. A dor é mais profunda e aguda. Mas não sei explicar onde.
A criatura-primeira me pega em suas mãos negras, largas e peludas. É quente e aterradoramente aconchegante. Ele me olha aos olhos e sorri sadicamente. Seu olhar fumegante penetra meu ser, destrói e devasta tudo que está edificado dentro de mim. E assim, quando nada mais há ele devora-me.
De repente as luzes voltam ao normal. O silêncio da madrugada volta e o murmurim começa. As luzes de dentro de casa começam a se acenderem e a vizinhança sai para ver o que houve.
Minha irmã está parada com a porta fechada, imóvel, apavorada de terror. Minha mãe levanta-se com vovó e titia. Todas vão ao local. Ao abrir a porta, minha mãe vê o sangue, vê meus objetos e o retalho de minha roupa e um pouco da minha carne dilacerada ao chão e desaba, ajoelhada, chorando aos restos de seu primogênito. Vovó chocada não sabe o que fazer, simplesmente tenta passar para ver, mas minha irmã não deixa. A minha irmã mais nova acorda e pergunta por mim, pergunta pelo sangue e minha tia tira-a do recinto.
A vizinhança se aproxima, tenta entender o que aconteceu, o som da sirene fica mais forte e adentra o local. Os policiais, paramédicos, bombeiros. Todos chegam, todos se chocam, alguns choram, outros vomitam, alguns olham e saem do recinto e outros simplesmente tentam tratar com indiferença apesar do turbilhão de sensações. As lágrimas são inevitáveis e as respostas são nulas. Tudo o que os resta é sofrerem pois o meu sofrimento é eterno, irrevogável e perpétuo!

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