domingo, 16 de junho de 2013

Universidade dos infernos



Acordo todo suado, um pouco desnorteado, de pé a cabeça e completamente apavorado.
- Tive um sonho estranho. - Minha avó ouve meu murmúrio e me ignora continuando a fritar o ovo, dejejum da minha tia.
Termino de me arrumar e corro para pegar o ônibus em caminho da faculdade.
Já estou sentado à cadeira e o professor, ancião, não para de falar. Sua voz grossa e rouca é enaltecedora.
Quase toda turma já dormiu e eu, não sendo muito diferente, estou sonolento.
Não consigo tirar aquele sonho maluco da cabeça. Só consigo me lembrar de alguns fragmentos como uma mulher de casaco vermelho, com unhas rosa, ou roxas, ou sei lá, pegando uma tesoura sem ponta e afiada e cortava uma tira de papel. O som do corte ainda está vívido aos meus ouvidos.
RRRREEEECCST.
Um calafrio toma conta do meu corpo e eu quase pulo na cadeira.
Volto a ser embalado no meu sono. Sua voz me leva a um mundo sinistro. Um sorriso jovem triste, uma mão idosa cortando um fio de cabelo negro com uma tesoura cega. Um grito rouco rompe a escuridão dos meus olhos e conforme a voz se aguda me aproximo da luz. De repente, um silêncio e um zumbido, um quarto branco de bebê. Um berço com grades azuis e uma mulher sem rosto a cadeira de balanço deixa cair seu filho envolto em um cobertor azul. Um forte e agudo grito rompe o sono antes do bebê tocar ao chão e eu acordo assustado a sala.
Todos acordam. Sandra foi quem gritou. Amanda acordou assustada, como eu, e deixou cair ao meu lado o estojo aberto.
Ajoelho-me ao chão para ajuda-la a recolher seu material, quando, de repente, percebo-a abaixar para pegar sua tesoura sem ponta próxima a uma tira de cartolina velha. Suas unhas de cor lavanda contrastam com o cabo verde água da tesoura. Seu casaco vermelho cobre seu pulso e espanta-me e congelo com sua cola a mão.
O professor cai duro ao chão e outra garota grita. Pulo assustado.
Jorge se aproxima do cadáver e, antes de tocá-lo, ele grita em voz grossa e múltipla.
- SOMENTE TRÊS DE VOCÊS, TODOS ALUNOS, SAIRAM DAQUI COM VIDA.
Um silêncio pavoroso toma conta do ambiente. Ninguém tem coragem de falar nada, somente nos olhamos com espanto e, mais que de repente, as janelas se fecham e as portas se abrem, todas juntas, em um estrondo unisom.
Aos quadros se escrevem sozinho.
 QUE OS JOGOS PELA SOBREVIVENCIA DEMINIACA COMESSEM.
O espanto toma conta, a adrenalina paralisa e surpreendentemente todos correm para fugir.
As primeiras mortes são
por pisoteamento.
Agora é cada um por si. As primeiras gotas de sangue já mancharam o assoalho da universidade dos infernos. Agora ele não irá desistir até matar os 633.

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