Acordo todo suado, um pouco desnorteado, de pé a cabeça e
completamente apavorado.
- Tive um sonho estranho. - Minha avó ouve meu murmúrio e me
ignora continuando a fritar o ovo, dejejum da minha tia.
Termino de me arrumar e corro para pegar o ônibus em caminho
da faculdade.
Já estou sentado à cadeira e o professor, ancião, não para
de falar. Sua voz grossa e rouca é enaltecedora.
Quase toda turma já dormiu e eu, não sendo muito diferente,
estou sonolento.
Não consigo tirar aquele sonho maluco da cabeça. Só consigo
me lembrar de alguns fragmentos como uma mulher de casaco vermelho, com unhas
rosa, ou roxas, ou sei lá, pegando uma tesoura sem ponta e afiada e cortava uma
tira de papel. O som do corte ainda está vívido aos meus ouvidos.
RRRREEEECCST.
Um calafrio toma conta do meu corpo e eu quase pulo na cadeira.
Volto a ser embalado no meu sono. Sua voz me leva a um mundo
sinistro. Um sorriso jovem triste, uma mão idosa cortando um fio de cabelo
negro com uma tesoura cega. Um grito rouco rompe a escuridão dos meus olhos e
conforme a voz se aguda me aproximo da luz. De repente, um silêncio e um
zumbido, um quarto branco de bebê. Um berço com grades azuis e uma mulher sem
rosto a cadeira de balanço deixa cair seu filho envolto em um cobertor azul. Um
forte e agudo grito rompe o sono antes do bebê tocar ao chão e eu acordo
assustado a sala.
Todos acordam. Sandra foi quem gritou. Amanda acordou assustada,
como eu, e deixou cair ao meu lado o estojo aberto.
Ajoelho-me ao chão para ajuda-la a recolher seu material, quando,
de repente, percebo-a abaixar para pegar sua tesoura sem ponta próxima a uma
tira de cartolina velha. Suas unhas de cor lavanda contrastam com o cabo verde
água da tesoura. Seu casaco vermelho cobre seu pulso e espanta-me e congelo com
sua cola a mão.
O professor cai duro ao chão e outra garota grita. Pulo assustado.
Jorge se aproxima do cadáver e, antes de tocá-lo, ele grita em voz
grossa e múltipla.
- SOMENTE TRÊS DE VOCÊS, TODOS ALUNOS, SAIRAM DAQUI COM VIDA.
Um silêncio pavoroso toma conta do ambiente. Ninguém tem coragem
de falar nada, somente nos olhamos com espanto e, mais que de repente, as
janelas se fecham e as portas se abrem, todas juntas, em um estrondo unisom.
Aos quadros se escrevem sozinho.
QUE OS JOGOS PELA
SOBREVIVENCIA DEMINIACA COMESSEM.
O espanto toma conta, a adrenalina paralisa e surpreendentemente
todos correm para fugir.
As primeiras mortes são
por pisoteamento.
Agora é cada um por si. As primeiras gotas de sangue já mancharam
o assoalho da universidade dos infernos. Agora ele não irá desistir até matar
os 633.
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