Um bailar começa com um dedilhar de violão. Uma voz suave e
feminina embala o corpo esguio e delicadamente desenhado pelos músculos
masculinos e juvenis de um menino triste que dança, com medo, para fugir do
mundo.
Um mundo frio, monstruoso, duro e real.
Como a bailarina cor de rosa de uma caixinha de música
antiga, ele dança, baila e escorrega por dentre os arranha-céus, desvia das
redes dos predadores e escorre pelas garras das feras.
A cada passo de dança ele se abandona em seu mundo, em suas
mentiras e se enclausura em sua capisula de conforto surreal.
Como uma lagarta qualquer sonha tornar-se uma bela borboleta
ou uma simples grotesca mariposa cinza, que simplesmente se esconde dos
predadores e não embeleza nada o mundo. Seu desejo é simplesmente poder voar
livre e bailar pelo vento.
Mas a cada bater de braços ele volta ao mundo duro e frio e
lembra-se que de alado ele não tem nada.
A cada balde de pedras e cimento que seu pai joga em suas
mãos ele reza aos céus uma breve oração pedindo que logo chegue seu dia de
bailar sem temer a hora de vir trabalhar.
Sonha com o dia em que poderá dançar pelos palcos do mundo e
ganhar com seu prazer de sonhar.
Ao deitar a cabeça no travesseiro ele derrama lágrimas de
dor pelas coças que leva ao tentar contar seus sonhos ao seu pai. Sua mão
encobre e cuida de seus ferimentos com lágrimas aos olhos.
Ele chora sem saber o porquê do ódio de papai. Chora pela
dor das chibatadas. Chora pela dor dos ferimentos que lhe causaram o trabalho
árduo do dia que se esvaiu.
Com a cabeça ao travesseiro, já um pouco mais maduro,
imagina o que pode acontecer se fugir de casa.
Para onde ele iria? O que faria? Como comeria?
Inúmeras indagações, incontáveis interrogações caem-lhe como
plumas sobre o lago.
- E se eu me for, posso dançar por dinheiro. Posso me
prostituir... – Sacode a cabeça e sacoleja os cachos definidos e tristes presos
à sua cabeça. – A vida promíscua não é todo esse glamour que a tv passa.
Com dor ao coração e dúvidas a mente ele se vira, olha para
a lua e tenta dormir. Mas o tempo “vira” e a chuva começa a cair. Onde ele
deita-se, sobre sua cabeça, tem um buraco por onde a chuva cai em seu rosto. E
ele não faz nada. Fica ali, parado, deixando ser molhado pela chuva fria e
indolente.
“Pelo menos assim minhas lágrimas não parecem tão tolas”
Pensa forçando-se a ficar sob a chuva.
Suas lágrimas não cessam
-se e escorrem pelo seu rosto rosado
pelo calor da briga com seu pai.
Após socos, chutes, pontapés e tapas ele corre sem destino.
Sua mãe grita por seu nome, mas ele não olha para trás,
simplesmente corre sem destino, sem consequência e sem medo.
Após quilômetros ele chega em lugar nenhum. A escuridão toma
conta e ele se depara em frente uma árvore. Hoje será aqui seu leito.
Que horas podem ser?
Ele acorda com o sol queimando seu corpo esguio e moreno.
Um pouco assustado ele abre os olhos e se depara com o campo
de trigo a sua frente. Ali, mesmo sem música ele dança e os pequenos, delicados
e pobres triguinhos são seus parceiros.
Logo, ao abrir os olhos ele se depara a frente de papai e
percebe que o pesadelo apenas havia começado, pois o sonho acabou de ser
rompido com um chute ao solado do pé para acordar para o trampo.
Mais um dia ele levanta-se, com o rosto rosado pelo tapa
levado no dia anterior ele trabalha e no horário de almoço foge e escondido
dança, mesmo sem música, simplesmente para poder fugir do mundo, oriundo, que
vive.
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