sábado, 2 de fevereiro de 2013

O despertar para a morte



Ainda estava escuro quando acordei. A roupa de cama estava intacta, a tv ligada em um filme meloso e o espelho virado para a poltrona de cabeceira. O espelho me ocultava na escuridão, só meus olhos azuis que quebravam as trevas, o cintilar da safira do meu olhar, iluminava a obscuridade minha alma.
Minha calma fúnebre não me faz temer a morte, não a temo, ela que me teme.
Penso enquanto atravesso a Avenida Brasil, os caminhões cantavam-me a morte e os carros choravam-me o luto o meu atravessar é como o caminhar de uma noiva, de olhos fechados, indo ao encontro do meu descanso eterno.
Me afogando na seda do lençol o telefone toca, como criança corro para atende-lo, mas hesito por falta de coragem.
Quem ligaria para mim, um homem com apenas mais cinco anos de vida?
Que vida? Estou mais morto que os peixes da minha sala.
O telefone toca novamente, toca freneticamente, o aquário ao lado cai e quebra, os peixes nem se debatem.
Me pergunto, “ Anjo, por que você me ligaria? Já experimentei de tudo e tudo dá em morte!”
Ele toca novamente, o telefone quase pula dessa vez. Atendo sofregamente, mas fico em silêncio.
- Você? – Uma voz doce e aveludada, parecia uma mulher, ou um anjo.
- Já experimentei de tudo e tudo dá em morte! – Replico em palavras meus pensamentos á ela.
- Tempo? – Direta e feroz, como uma espada no silencio da noite.
- sete dias.
- Mentira – É quase um rosnado.
- O que queres de mim? – Quase um soluço de desespero.
- Não experimentou de tudo.
- O que falta?
- A morte pelo amor. – Sua calma é sinistra, penetrante, forte e doce como o mel dos deuses.
- Não quero mais a imortalidade!
- Você não tem escolha.
- Ma... – Antes deu terminar meu raciocínio ela deslia o telefone deixando-me só na penumbra de um apartamento fétido.
Ela tem razão. Nunca tive escolha, só segui ordens.
A campainha toca...
Abro a porta, não tem ninguém, só um bilhete colado á porta. “Tempo/ escuro/ passos / Morte”
Percebo que os cinco dias se resumem em horas, horas que já estão passando, horas de hoje.
Desço as escadas com o peso da vida por sobre as costas.
Em frente o apartamento toca o sino das nove. Desce da escada passos graciosos. – Meu coração bate mais forte, o brilho da safira desaparece, minh’alma roga piedade. – Para na porta, no escuro não consigo distinguir.
- Junior? – A voz doce! É ela, é ela!
- Anjo?
- Feche os olhos. – Acato a ordem e ela se aproxima, tão leve que parece um levitar. No meu ouvido sussurra – Sou Angela, sua vida eterna, seu perdão. – e com um beijo adormeço acornando.
A vida eterna me espera! E você, o que espera?





 11/05/2010
Lipe Dick

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